Constata-se que o marxismo é tão cego quanto a economia moderna a respeito desse fundamento vislumbrado por
Marx, paradoxo explicado pelo fato extraordinário de que os textos filosóficos em que
Marx elaborou esse fundamento meta-econômico permaneceram inéditos até 1927-1933, desconhecidos portanto dos que construíram a doutrina marxista — Plekhanov, Lênin, Trotski, Stalin, Mao
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dois desses textos, a Crítica da filosofia do Estado de
Hegel e A ideologia alemã, escritos em 1842-1843 e 1845-1846, não publicados por falta de editor, constituem análise filosófica rigorosa daquilo que
Marx considera a única realidade verdadeira e o fundamento do universo econômico, que não é autônomo mas produzido a cada instante por essa realidade mais profunda
Essa realidade é a da vida no sentido comum, aquela de que se diz ser difícil, penosa ou breve, ou como escreveu Maupassant que “não é nem tão boa nem tão má quanto se diz”, citando-se um místico do início do século XIV: “De todos os bens, nenhum nos é tão caro nem tão desejável quanto a vida… Por que comes? Por que dormes? Para viver… Aqueles que estão no inferno, nos tormentos eternos, almas ou demônios, não querem perder sua vida; pois sua vida também é tão nobre…”
O que caracteriza essa vida desejável e nobre é experimentar-se a si mesma, sofrendo e gozando incessantemente do que é, nada tendo a ver com a vida biológica, constituída de processos cegos como moléculas, cadeias de ácidos e neurônios que não se sentem nem são “conscientes”, diferindo assim inteiramente da vida de que falam Maupassant,
Eckhart ou o senso comum, e que é também aquela que
Marx põe no fundamento da economia
Marx é tão atento ao que faz da vida vida, ao fato de que ela se sente e se experimenta, que tudo o que carece dessa propriedade lhe parece privado de sentido, tendo amado tudo o que é vivo e rejeitado a um plano inferior tudo o que, privado da capacidade de sentir, sofrer, gozar e amar, é apenas morte, construindo-se toda sua análise econômica sobre essa oposição decisiva entre o trabalho vivo e os elementos materiais, instrumentos e matérias-primas, sempre afetados de um coeficiente de inércia que os torna incapazes de produzir valor, podendo a vida passar sem a morte e bastar-se a si mesma
Destacam-se dois caracteres da vida: primeiro sua subjetividade, o simples fato de se sentir a si mesma, não devendo entender-se aqui “subjetivo” no sentido trivial de relativo, mas como a realidade mais essencial do indivíduo, sua condição ontológica, seu ser enquanto vida
O segundo caráter da vida é ser uma força produtiva capaz de criar o que não existiria sem ela, modificando a natureza ao seu redor e dando origem a objetos de duas espécies: “valores de uso” destinados a seu próprio uso — alimentos, vestimentas, edifícios — e instrumentos que servem para produzi-los, sendo essa força chamada por
Marx em 1845 de “práxis”, qualificada como subjetiva, reprovando ao materialismo apreender a realidade “apenas sob a forma de objeto ou intuição, mas não como atividade humana concreta, não como prática, de modo subjetivo”
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o termo práxis desaparecerá do vocabulário de
Marx, substituído em sua obra econômica por expressões como “subjetividade inorgânica”, “corpo vivo”, “trabalho vivo”, “força de trabalho”, “força subjetiva de trabalho”, “trabalho subjetivo”
Encontra-se um terceiro caráter da vida, que a opõe às concepções românticas que contaminaram o marxismo mais que o próprio pensamento de
Marx: a vida não é entidade universal subsistente como realidade geral, mas sempre individual, atualizando-se unicamente sob a forma de um indivíduo vivo, obedecendo essa atualização à lei de uma reiteração indefinida
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na crítica à monarquia,
Marx recusa a
Hegel o direito de incluir a soberania num único indivíduo em detrimento de todos os outros, insistindo na pluralidade indefinida dos indivíduos vivos: “O indivíduo só tem verdade enquanto é muitos indivíduos”
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é sob o título de “indivíduos vivos”, “indivíduos reais”, que são designados na Ideologia alemã como “a pressuposição de toda história”: “A primeira pressuposição de toda história dos homens é naturalmente a existência de indivíduos humanos vivos”
Na análise econômica que constitui o essencial da obra de
Marx após 1847, o termo indivíduo vivo cede lugar ao de trabalhador, cujo sentido, rigorosamente idêntico, só se entende a partir da vida, sendo o traço distintivo do trabalhador o trabalho vivo sob a tripla forma subjetiva, ativa e individual, não se podendo compreender a análise econômica de
Marx assim que se considera positivamente o indivíduo como ser empírico, erro no qual incorreu o marxismo, forma histórica de positivismo e cientificismo
A designação da vida como “indivíduo vivo” é tão evidente para
Marx que ele mal se preocupou em justificá-la, importando mostrar por que a vida reveste sempre existência individual: porque a prova que ela faz de si mesma, reduzida à sua subjetividade pura, é necessariamente esta ou aquela experiência singular, incluindo esse Si irredutível a qualquer outro que faz dela um Indivíduo, um Si transcendental sentindo e sentindo-se a si mesmo, constantemente afetado por si e por nada mais
Deve-se guardar-se de autonomizar esse indivíduo vivo como princípio absoluto: ele é princípio a respeito de tudo que produz, notadamente todos os valores, mas não se criou a si mesmo, caracterizando-o antes uma passividade radical a respeito de seu próprio ser, mais forte que todo poder, todo querer e toda liberdade, sendo justamente essa passividade radical que faz dele um vivente
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ser um vivente é nascer da vida, ser gerado por ela sem que essa geração cesse, não sendo o indivíduo senão a prova desse engendramento interior ininterrupto que flui através dele sem que o tenha querido e com o qual, contudo, se confunde
Essa condição metafísica do indivíduo foi pensada por
Marx na extraordinária crítica dirigida contra Stirner nos anos 1845-1846, manuscrito de 429 páginas permanecido desconhecido até 1933, quando o marxismo já tinha o indivíduo por quantidade negligenciável, mero efeito de leis econômicas e sociais, gerando-se assim, ao ser finalmente lida de modo rápido e superficial, um contrassenso imediato: o marxismo viu nela a confirmação de sua crítica geral ao indivíduo, contrassenso facilitado pela ironia de
Marx contra a pretensão de Stirner de ser “o Único” dono do mundo inteiro como sua “propriedade”
Uma leitura mais atenta mostra que a crítica de
Marx é dirigida contra a definição do indivíduo pelo pensamento ou pela consciência, definição clássica que Stirner toma de
Hegel, opondo-lhe
Marx brutalmente sua definição a partir da vida, como “indivíduo vivo”, mudando tudo conforme se conceba o homem como sujeito pensante dominando o universo dos objetos reduzidos a suas representações, ou como ser vivo submergido pela vida e suas necessidades
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no primeiro caso chega-se às teses idealistas que Stirner leva ao extremo, segundo as quais Deus, o Estado, o Direito e o poder político não passam de representações da consciência que dependem de seu livre querer, podendo por isso a consciência, depois de considerá-los sagrados, “considerá-los como nada”, libertando-se de todo servilismo, fundando-se aí a revolução anarquista pregada por Stirner: nem Deus nem senhor
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quanto à propriedade, a consciência de Stirner pode considerar que o mundo inteiro lhe pertence e que é ela quem concede provisoriamente a outrem o direito sobre uma casa, conclusão ridícula da qual
Marx extrai a lição: o poder da consciência de se representar as coisas à sua maneira é apenas a máscara de sua total impotência sobre o plano da realidade, prosseguindo o mestre-escola Stirner seu caminho de estômago vazio depois de se persuadir de que é o Único dono de tudo
A crítica de
Marx é dupla: crítica do pensamento como tal e crítica da definição do homem por esse mesmo pensamento, sendo a consciência que se representa uma coisa como sendo o que é o próprio pensamento, pondo-a diante de si como objeto dotado de tal ou tal essência, e implicando toda representação de um ente a representação prévia de seu ser, isto é, do fato de que ele existe
O poder da consciência de conferir a uma coisa a significação de ser árvore ou homem é assim uma doação de sentido que confere a tudo que se representa a significação de ser tal coisa e, mais fundamentalmente, de ser em geral, mostrando a crítica abissal de
Marx contra Stirner, isto é, contra o pensamento, que a posição dessa significação de ser não concerne à realidade, não sendo o ser redutível a um sentido posto pela consciência
Levanta-se então o contrassenso maciço do marxismo, partilhado por todo objetivismo e pelo senso comum: já que as representações da consciência não podem definir a realidade, esta lhes preexistiria como realidade exterior do mundo, opondo-se à crença de Stirner de poder modificá-la mudando seu “ponto de vista”, primeiro como realidade exterior do mundo material independente do pensamento, segundo como realidade social com leis próprias que a pensée pode reconhecer mas não criar ou modificar arbitrariamente
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assim “santo Max” ou “santo Sancho”, como
Marx chama Stirner, pode mudar seu ponto de vista sobre as coisas, mas elas não mudarão por isso, e as leis da propriedade que ele “considera como nada” continuarão a proibi-lo de se apropriar, senão em pensamento, do bem alheio
Antes de opor as intuições decisivas de
Marx a esse realismo objetivista partilhado pelo marxismo e pela ciência do século XIX, observa-se sua extrema fraqueza: afirmar que a realidade não é redutível a uma representação da consciência é a tese defendida neste ensaio, mas a questão é saber qual é essa realidade irredutível às representações da consciência, pois conceber imediatamente o universo material como constituído de objetos já pressupõe o poder sem o qual não haveria objeto, a própria consciência entendida como pensamento
Quanto à realidade social e suas leis, seria vão explicá-las a partir das partículas microfísicas do universo material, nada tendo a física das partículas a dizer a seu respeito, sendo erro do materialismo de sempre identificar essa realidade social anterior ao pensamento com a “realidade exterior” do universo material, devendo-se antes conceber essa realidade social, com
Marx, como a da vida: a realidade da história é a dos indivíduos vivos, a realidade social é uma práxis subjetiva, a práxis social
Deve-se dirigir crítica radical contra o marxismo por ter afastado a definição idealista da realidade apenas para pô-la como realidade objetiva e material, permanecendo prisioneiro da dicotomia clássica Sujeito/Objeto em sua formulação mais ingênua: ou o sujeito cria o objeto, ou o objeto determina o sujeito, idealismo ou materialismo
Responder a essa questão, seja idealista seja materialista a resposta, é perder de vista o que constitui aos olhos de
Marx a essência da realidade verdadeira, a vida subjetiva dos indivíduos, que não é nem representação da consciência nem realidade material, nenhum objeto concebível
A consequência dessa decisiva errata teórica é tomar a crítica do indivíduo definido pelo pensamento, pelo poder da consciência de modificar livremente suas representações identificadas à realidade, por uma crítica do indivíduo vivo ele mesmo, quando a crítica do indivíduo pensante é para
Marx apenas a antítese que lhe serve para definir em toda sua força o indivíduo vivo, restando indicar por quais entidades abstratas este se encontra substituído no marxismo e como essa substituição de abstrações à vida conduz os regimes nela fundados à ruína