Filosoficamente, a transmissão de um saber consiste no ato pelo qual toda evidência constitutiva desse saber é repetida e reatualizada por quem, fazendo dela sua própria evidência, o compreende e adquire, repetição dupla, teórica e prática, envolvendo também o pathos em que se sustenta o ato cognitivo
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a reconhecimento de uma dimensão de imanência radical em que se cumpre essa repetição originária permite compreender a transmissão dos saberes primitivos, como as trocas entre mãe e filho, a aquisição dos movimentos corporais e os fenômenos de imitação, exemplificados também na relação entre analista e analisando
Toda repetição teórica de um ato de evidência é identicamente uma repetição patética de sua autoafecção, denominando-se contemporaneidade essa repetição em que consiste toda transmissão e aquisição de saber, tornando-se contemporâneo de uma verdade quem entra em relação com ela, seja a de Cristo na cruz seja as leis da adição aritmética
Essa contemporaneidade tem temporalidade e onitemporalidade próprias, podendo-se tornar contemporâneo de um evento ocorrido há vinte séculos ou de toda verdade racional, sendo a temporalidade desse processo a do êxtase no caso da verdade teórica, e a inextática do pathos no caso da verdade prática
Segue-se que a transmissão do saber não se reduz a uma teoria formal separável do conteúdo cognitivo, sendo idêntica à efetuação fenomenológica concreta desse conteúdo na repetição, o que torna a ideia de uma pedagogia autônoma equívoca, pois a teoria pura da comunicação é a própria filosofia primeira, sendo absurdo um “pedagogo ignorante”, um círculo quadrado
O saber que a Universidade deve transmitir, na correpetição entre mestre e aluno, é a cultura, isto é, a autorrealização da vida sob a forma de seu autoacréscimo em relação a todas as suas possibilidades
Sendo a cultura esse autocumprimento da vida, é essencialmente prática, constituída em primeiro lugar por saberes práticos — arte, ética, religião —, sendo a ética coextensiva à cultura, exemplificada a dança como forma ética da marcha, e a arte como cultura da sensibilidade, força outrora dirigindo o olhar e os costumes dos povos, incluindo os ritos sagrados
Quanto à religião, sua importância no devir dos povos, como no Egito onde penetrava toda a vida cotidiana, decorre de seu enraizamento na essência da vida, na experiência do sagrado como situação ontológica última cuja contraprova é a angústia da morte, ligando-se em toda cultura o culto dos mortos à religião, e originando-se a arte no sagrado, o que explica o declínio da pintura ocidental a partir do século XVIII e seu renascimento nas grandes obras místicas do século XX, como as de Kandinsky, Klee e Rothko
Se arte, ética e religião constituem as formas fundamentais de toda cultura, coloca-se a questão de que significa um ensino que as ignora, sendo os valores de objetividade e neutralidade invocados pela Universidade moderna e democrática impossíveis sem uma teoria geral dos valores, revelando-se as escolhas de programas como escolhas contra a ética, contra a vida
O espaço de onde a vida foi excluída como condição do saber objetivo é o espaço galileano, sendo essa exclusão a condição de morte dupla: a abolição da separação Universidade/mundo, e a expulsão sistemática de toda cultura de dentro da Universidade tornada microcosmo do mundo técno-científico
A Universidade galileana resultou de longo processo cujo início se marca pela existência de duas faculdades principais, filosofia e teologia, surgindo desde a época de Galileu as ciências modernas, criando-se em 1706 a Academia de Montpellier, instaurando-se a dicotomia entre ciências, visando o conhecimento objetivo despido de propriedades sensíveis, e letras, visando a própria vida transcendental
História, literatura, línguas e filosofia sempre se referem implicitamente ao modo de aparição de seu objeto, isto é, à subjetividade, sendo mesmo os dados históricos ditos objetivos, como colheitas ou índices demográficos, sempre uma história da práxis e de sua angústia, tendo a literatura por desígnio o desvelamento da essência da vida através de procedimentos estéticos, tornando-se essa relação consciente de si na filosofia
A dicotomia entre ciências e letras funda-se na diferença ontológica radical entre o ente desprovido da capacidade de se experimentar a si mesmo e o que porta em si essa capacidade, a subjetividade transcendental ou o Ser enquanto Vida, sobre a qual se funda a humanitas do homem, não falando as ciências nunca do homem senão como átomos, moléculas ou processos biológicos
O imperialismo do princípio galileano traduz-se pelo recuo progressivo das disciplinas literárias, exemplificado pela redução drástica das horas de filosofia no ensino secundário, cuja eliminação enquanto teoria geral dos saberes marca a recusa do princípio técno-científico de se submeter a qualquer crítica externa
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no ensino superior, introduzem-se disciplinas científicas nas antigas faculdades de letras, como métodos estatísticos, sem que se conceba reciprocamente formação filosófica ou histórica para juristas ou médicos
A subversão interna de cada disciplina literária substitui seu objeto último, a humanidade transcendental do homem, por substitutos objetiváveis, como a consideração linguística que ocupa a análise literária, ou as abordagens psicanalítica, sociológica e política que reduzem a obra à sua significação social, prescrevendo-se nas classes de francês a substituição de romances e poemas por artigos de jornal ou documentos profissionais
A mesma eliminação da cultura afeta o estudo das línguas, reduzido à prática imediata: as línguas antigas, carregadas de cultura literária, são abandonadas, e o ensino de línguas vivas cai no sociologismo, privilegiando estereótipos midiáticos sobre Shakespeare, Dante,
Pascal,
Goethe, Dostoiévski ou Mandelstam, tornando-se a literatura inglesa disciplina optativa na agregação
A filosofia, tendo por tema a humanidade transcendental do homem e capaz de fundar um verdadeiro humanismo, é despojada de seu objeto próprio pelo projeto galileano quando a mise-hors-jeu metodológica da subjetividade recebe significação dogmática com o positivismo, condenando a filosofia à morte
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além do recuo já mencionado, a filosofia é subvertida internamente ao se reduzir a uma reflexão sobre o saber científico, tornando-se epistemologia ou história das ciências, ocupando no CNRS a quadragésima quinta e última seção, permanentemente ameaçada de supressão
No extremo dessa negação dogmática, a filosofia é eliminada em proveito da psicologia positiva, surgindo o behaviorismo no início do século XX ao eliminar a consciência, substituindo-a pelo comportamento que, contudo, implica uma subjetividade transcendental para lhe conferir sentido, revelando a psicologia “científica” seu pressuposto materialista último ao explicar o humano pelo que não é humano
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é impossível, contudo, explicar o subjetivo a partir do biológico, pois o vínculo entre um dado biológico e um dado psíquico escapa por princípio, citando-se
Freud sobre os “estados latentes da vida psíquica”: “Eles nos são, no momento atual, perfeitamente inacessíveis por seus caracteres físicos; nenhuma representação fisiológica, nenhum processo químico pode nos fornecer uma ideia de sua natureza”
Na Universidade atual coexistem sob a rubrica “psicologia” uma psicologia científica do comportamento e um ensino de psicanálise sem justificativa teórica dessa justaposição, sendo a psicanálise o substituto inconsciente da filosofia, reprisando sua tarefa sem ruptura consciente com o objetivismo galileano, o que resulta numa psicologia bastarda, meio subjetiva, meio objetivista
A psicologia, como protótipo das novas “ciências humanas”, tem seu equivalente na sociologia que reivindica o mesmo título de cientificidade, não podendo prescindir de uma base transcendental, a intersubjetividade, tarefa realizada pelo sociólogo francês Tarde através da elucidação do fenômeno da imitação
A sociologia científica, ao pôr de lado a subjetividade transcendental, hipostasia a sociedade e seus processos com leis autônomas, afirmação decisiva de Durkheim, denunciada por
Marx em sua polêmica contra Proudhon como absurda, tendo essa sociologia, retomada por um marxismo que ignora
Marx, ocultado definitivamente a de Tarde
Essa sociologia objetivista dobra-se, no marxismo tornado leninismo, de uma ideologia política e uma ética contestável, pensando-se a relação Sociedade/Indivíduo como causalidade externa que leva o indivíduo a se vincular às tarefas políticas para se identificar ao destino do mundo
Essa sociologia “científica” tem importância decisiva para a Universidade, retirando de cada disciplina seu objeto próprio: a história sociologizante já não é a dos indivíduos viventes mas das estruturas transcendentes, e a filosofia deixa de ser situada numa teoria dos saberes para se tornar mera história das ideias
Sendo o universo ideal função da sociedade, a Universidade que se identifica com ele torna-se também produto dela, exigindo a sociologia durkheimiana e leninista a supressão da demarcação Sociedade/Universidade, com quatro consequências: subordinação política como totalitarismo, subordinação econômica invertendo a teleologia vital, subordinação técno-científica expulsando a cultura, e uma quarta consequência que confere às democracias modernas sua fisionomia própria
A eliminação da subjetividade transcendental nunca é completa, subsistindo a vida sob formas rudes — instintos elementares, força física brutal, pensamento reduzido a esquemas ideológicos — que constituem a existência social refletida e pervertida pelos meios de comunicação, substituindo-se assim o estudo dos grandes escritores pelo do ambiente social
A cultura tem caráter autorreferencial, nenhuma obra maior se explicando a partir de uma realidade social imediata, sendo mais fácil, contudo, constituir um dossiê sobre atualidade, bastando mestres não qualificados, dos quais mais de trinta por cento, segundo relatório, jamais estudaram as matérias que lecionam
A modificação do conteúdo do saber transmitido dobra-se de uma mudança do modo de transmissão, opondo-se à repetição na contemporaneidade a comunicação de informações factuais, superficial, cujo modelo é a comunicação midiática, sobretudo televisiva, cuja quintessência é comunicar a si mesma, tornando-se sua forma seu próprio conteúdo, e o “evento” aquilo que pode ser televisionado, marcado pela extrema pontualidade e superficialidade da atualidade
Quando o sociologismo politiqueiro propulsiona o conteúdo da sociedade para dentro da Universidade, a comunicação midiática entra em concorrência com o modo tradicional de transmissão dos saberes, cedendo lugar às “ciências da comunicação”, segundo a fórmula “a verdadeira pedagogia é a tevê”, passando professores a ensinar pesquisas de opinião, estereótipos e a “nova civilização da imagem”, tornando-se tão receptivos e fúteis quanto seus telespectadores
A verdade concreta desse movimento resume-se em que o poder intelectual e espiritual tradicionalmente assumido pelos clérigos e intelectuais foi arrancado deles por novos mestres, servidores cegos do universo da técnica e dos meios de comunicação, os jornalistas e os políticos
Permanece então em aberto o que resta da cultura, e com ela da humanidade do homem