Descartes duvidava tanto das verdades sensíveis quanto das racionais, como mostra a hipótese do Gênio Maligno e a experiência do sonho, em que tudo pode ser ilusório exceto a angústia experimentada, que existe tal como é sentida, qualitativamente, fundando-se aí o fundamento inabalável buscado por
Descartes, chamado aqui de vida, já que todo vivente, mesmo o ver vivo, é sempre pathos
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cita-se
Jaspers a propósito de um pathos da certeza matemática ligado à coerção lógica, e Spinoza e Malebranche a respeito da necessidade do círculo, contrapondo-se a essas certezas a irredutibilidade da afetividade — angústia, medo, alegria, tristeza
Supõe-se que toda cultura, desde as origens da humanidade, seja determinada pela vida e não pela razão, reunindo as produções da vida, suas respostas pathéticas à angústia, à sensibilidade nas obras de arte, à ética como prescrições da própria vida e à religião como tradução de uma experiência fundamental do vivente, não havendo vida sem vivente nem vivente sem vida vivida por ele, sendo essa passividade fundamental um traço fenomenológico concreto
A exclusão da vida fenomenológica pelo ato proto-fundador de Galileu, ao fundar o saber moderno como conhecimento geométrico-matemático, destina o mundo assim concebido a uma inculturação cada vez mais total e radical, hipótese que coloca a questão de saber se existe propriamente uma cultura científica
Ilustra-se essa tese com o exemplo da visita ao sítio de Eleutera, na junção do Peloponeso e da Ática, cuja beleza fabulosa — um vale seco cercado por um muro de pedras louras, restos de uma antiga fortaleza banhada de luz grega — é rompida pela visão de uma linha elétrica de alta tensão a transpor o muro
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essa linha elétrica, produto da técnica moderna deduzida exclusivamente da concepção galileana, é concebida sem qualquer consideração pelo efeito que produz sobre a sensibilidade de quem a contempla, sendo esse saqueio do mundo pela técnica moderna, filha primogênita da ciência moderna, fundado em direito e imune a qualquer crítica
Relata-se um segundo exemplo, a visita ao mosteiro de Dafni na Grécia, onde operários derrubavam de escadas os mosaicos das paredes e da cúpula, mosaicos feitos de tesselas de vidro ou pedra colorida cuja luz refratada produzia efeitos extraordinários, recobrindo todo o nártex e a cúpula do mosteiro
Extrai-se desse fato o ensinamento de que não se tem direito de destruir as obras de arte, observando-se o empobrecimento progressivo dos materiais artísticos ao longo da história ocidental, dos mosaicos às fresco, destas à pintura sobre madeira e desta à pintura industrial, o que torna incerta a durabilidade futura de obras como as telas de Van Gogh
Os mosaicos de Dafni, do século XI, haviam sido corretamente restaurados no passado por reparos sucessivos guiados por uma sensibilidade estética atenta a restituir cor ou fragmento perdido, mas a ciência atual, alheia a essa sensibilidade, reduz sua abordagem à datação por carbono 14, decidindo eliminar tudo que não seja obra da mão original do artista
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essa prática elimina na Europa inteira as restaurações sucessivas, deixando por vezes quase nada da obra original, como na capela pintada por Giotto em Roma da qual só resta um olho, e como nos mosteiros iugoslavos visitados durante seis anos, cuja arte mística hoje se encontra recoberta de cimento
Coloca-se então a dupla questão do que é a ética e do que é o ser humano, observando-se que a maioria dos pesquisadores das ciências da matéria e das ditas ciências humanas aplica os métodos e pressupostos do saber galileano, embora não haja fundamento possível para a ética nesse campo físico-matemático, já que partículas microfísicas e moléculas não são habitadas por desejo, vontade ou busca de reconhecimento
Retomando o exemplo da destruição dos mosaicos de Dafni e da datação por carbono 14, observa-se que nenhum tratado científico jamais afirmou que só deve subsistir numa obra de arte o que provém da mão do criador original, confundindo-se aqui ciência com cientificismo, catástrofe que atribui à ciência o que ela jamais disse
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lembra-se que a maior parte dos templos japoneses, de madeira, já queimou e foi reconstruída, de modo que eliminar tudo que não seja mão original equivaleria a suprimir quase todas as obras existentes, cabendo somente à sensibilidade, à vida enquanto sensibilidade, decidir o que conservar
Não havendo lugar para a ética no universo galileano, contrapõe-se a situação anterior ao advento do saber físico-matemático, quando existiam religiões, formas de arte extraordinárias e uma ética rigorosa, exemplificada pelo mandamento radical de Moisés “Não matarás” (Deuteronômio, 5,17), cuja enunciação só pode provir da vida, jamais de sistemas inertes que nada veem, sentem ou sabem
Voltando à questão do que é um indivíduo vivente, distinguem-se duas respostas filosóficas clássicas: a que parte do mundo, fundando o princípio de individuação (principium individuationis) nas categorias de espaço, tempo e causalidade, como no exemplo de uma caneta singularizada por estar aqui e agora e por corresponder ao arquétipo de sua função
Os indivíduos humanos costumam também crer que sua individualidade responde a essas condições — nascidos em tal lugar e momento, de tal mãe e tal pai, homem ou mulher, conforme a carteira de identidade — mas nem o lugar no espaço, nem a posição no tempo, nem a conformidade a um arquétipo bastam para individualizar, propondo-se então, como defendido em ensaio anterior sobre o Cristianismo, que só há indivíduo na vida
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a vida é o que se experimenta a si mesma à maneira da angústia num sonho, prova de si singular na qual o indivíduo é esse Si que se experimenta a si mesmo, ipseidade transcendental nascida unicamente na vida transcendental, hipóteses fundamentais tanto para a sociologia quanto para a psicologia
Do ponto de vista da ciência, isto é, dos processos inertes, nenhum indivíduo pode aparecer onde não há sentir, dado que um indivíduo só aparece nessa autoafecção de um Si, o que expõe a insuficiência do princípio de individuação retomado pelas ciências biológicas no caso da clonagem, capaz quando muito de produzir um autômato desprovido de Si, já que o Si só existe experimentando-se a si mesmo, jamais podendo “experimentar o outro” apesar da intersubjetividade
Concluindo, embora essas considerações justifiquem os esforços de interdisciplinaridade, exige-se uma reflexão prévia sobre os prolegômenos que tornam possível e conferem sentido a qualquer objeto empiricamente dado, sendo somente nesse retorno à questão, nesse recuo a que se deve dar sentido sistemático e radical, que a pesquisa se torna possível