Galileu realizou o que, como fenomenólogo, denomino o ato arqui-fundador da ciência moderna e, ao mesmo tempo, o ato arqui-fundador do mundo moderno — esse mundo ao qual pertencemos, no qual acreditamos ingenuamente, do qual somos todos filhos, habitantes sem distância crítica. Pois o espírito crítico só pode surgir de uma reflexão sobre esse ato arqui-fundador que determinou nosso destino no início do século XVII.
Esse ato nasceu de uma decisão intelectual. Galileu considerou que é preciso conhecer o universo em que vivemos, pois desse conhecimento decorre a ética, nosso dever-ser e nosso dever-fazer. Mas esse conhecimento do universo tem como condição essencial a rejeição de todas as outras formas de conhecimento, em particular aquelas decorrentes das qualidades sensíveis. Trata-se, portanto, de substituir o conhecimento sensível pelo conhecimento verdadeiro, a geometria, que é o conhecimento das figuras dos corpos extensos, ou seja, situados no espaço. Fenomenologicamente, esses dois tipos de conhecimento apresentam, do ponto de vista de sua cientificidade e racionalidade, uma oposição completa. O conhecimento sensorial varia de um indivíduo para outro, de tal forma que, do ponto de vista da ciência, só pode gerar proposições singulares, aleatórias, subjetivas e contingentes. Se eu afirmar a proposição “o céu é azul”, trata-se de uma proposição singular, pois amanhã haverá nuvens, o céu estará cinza ou terá uma cor totalmente diferente para um daltônico. A humanidade, no entanto, fundamentou um conhecimento em proposições desse tipo. O conhecimento geométrico, por sua vez, suscita proposições racionais e verdadeiras, do tipo “em um círculo, todos os raios são iguais”. Os raios são iguais hoje, serão amanhã e para sempre. A geometria é, assim, o modo exclusivo de conhecimento do universo material, que se compõe de corpos estendidos no espaço.
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Temos, portanto, o direito de levantar duas questões: o que é a ética e o que é o ser humano? Essas questões são fundamentais. Se, de fato, concebermos a vida como a vida dos indivíduos vivos, ou, ao contrário, se a considerarmos como um sistema inerte, as consequências obviamente não são as mesmas do ponto de vista ético. A maioria dos pesquisadores que estudam as ciências da matéria e as chamadas ciências humanas deseja aplicar as metodologias, as normas e os pressupostos do conhecimento galileano. Ora, considero que não há possibilidade de um fundamento para a ética nesse campo do conhecimento físico-matemático do universo material. O estudo desse campo é, sem dúvida, perfeitamente legítimo, desde que se limite a ele; mas é altamente provável que as partículas microfísicas ou as moléculas não sejam habitadas por nenhum desejo, nenhuma ambição profissional, nenhum reconhecimento social, nenhuma sede de poder, etc. Galileu e Descartes estavam, portanto, certos ao afirmar que, na matéria, não há nada que se assemelhe à sensibilidade.