Remissão referencial

HAUGELAND, John. Dasein Disclosed: John Haugeland's Heidegger. Edited by Joseph Rouse. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2013:6-8

Imagine, por exemplo, que as regras do xadrez não fossem explicitamente codificadas, mas fossem observadas apenas como um conjunto de normas conformistas — “como se deve agir” em situações de jogo de xadrez. Assim, é adequado (socialmente aceitável) mover o rei em qualquer uma das oito direções, mas apenas uma casa por vez. Para que isso seja uma norma, os jogadores e os professores/censores devem ser capazes de “distinguir” (responder de maneira diferenciada, dependendo de) qual peça é o rei, o que são as casas e as direções, o que conta como um lance e assim por diante. De acordo com outras normas, o rei começa em uma determinada casa, deve ser protegido sempre que atacado, não pode atravessar uma casa ameaçada, pode fazer “roque” sob certas condições e assim por diante. O ponto importante é que é o mesmo rei, a mesma classificação instituída, que está envolvido em cada norma: portanto, as próprias normas estão inter-relacionadas, pois dependem da mesma classificação de circunstâncias. Chamamos de “papel” uma classificação que está envolvida em muitas normas inter-relacionadas (por exemplo, o papel do rei no xadrez). Muitas normas também estão relacionadas por meio da classificação de casas, jogadas, ameaças, outros tipos de peças e assim por diante; obviamente, na verdade, todas as normas e papéis do xadrez estão entrelaçados em um conjunto profundamente interdependente.

Heidegger expõe esses argumentos em termos dos equipamentos e utensílios da vida cotidiana, mas o resultado é o mesmo. Martelos, pregos, tábuas, furadeiras, chaves de fenda, parafusos e cola estão todos ligados em um (grande) nexo de funções entrelaçadas, instituído pelas normas da prática da carpintaria, e é isso que os torna o que são. Considere o que distingue nosso uso de ferramentas dos usos que os macacos às vezes fazem de gravetos, ou as formigas ou pulgões. Não é que as pessoas usem as coisas de maneira mais inteligente ou mais eficaz, nem que as utilizemos apenas para criar outras coisas, embora tudo isso possa ser verdade. A principal diferença é que as ferramentas têm usos próprios — para cada ferramenta, há “para que ela serve”. Se um macaco usa um galho para pegar bananas, seja de forma inteligente ou não, seja com sucesso ou não, ele não o utilizou, em nenhum sentido, de forma adequada ou inadequada. Você ou eu, por outro lado, podemos usar uma chave de fenda adequadamente para apertar parafusos ou de forma inadequada para riscar grafites na parede do metrô; de qualquer forma, a adequação é independente da nossa inteligência ou sucesso. Usa-se mal (ou abusa-se) de uma chave de fenda para riscar paredes — não é para isso que servem as chaves de fenda. Um macaco não poderia usar mal um graveto, não importa o que fizesse.

[7] Ser uma chave de fenda, assim como ser um rei de xadrez, é ser aquilo que desempenha um determinado papel em relação a outras coisas com papéis interdeterminados. Essas relações de papéis que se definem mutuamente são constitutivas do equipamento ou do material como tal. Embora Heidegger distinga e nomeie diversas variedades (especialmente nas seções 15-17 de SZ), precisamos apenas de seu termo genérico, “referência”: 1) ]

Em sentido estrito, nunca “existe” um equipamento. … Na estrutura [essencial ao equipamento] reside uma referência de uma coisa a outra. . . . O equipamento sempre se coaduna com sua [própria] equipamentalidade ao pertencer a outros equipamentos: caneta, ponta, tinta, mata-borrão, mesa, lâmpada, móveis, janelas, portas, sala. (SZ 68)2)

A totalidade de todos os objetos, juntamente com as relações de referência, é chamada de “nexo de referência de significado”, mas, como o termo ‘objetos’ é entendido de forma ampla o suficiente para incluir praticamente tudo com o que normalmente trabalhamos, lidamos ou nos preocupamos (exceto outras pessoas), essa totalidade equivale, na verdade, ao mundo cotidiano.

O mundo cotidiano, é claro, não é o universo nem o planeta Terra, mas sim o “mundo” da vida e dos assuntos diários — o mundo que tem o mundo dos negócios e o vasto mundo dos esportes como partes especializadas. 3) Trata-se essencialmente de um produto cultural, ao qual as normas dos conformistas que nele vivem conferem — e instituem — um caráter determinado:

O próprio qualquer um… articula o nexo de referência do significado. (SZ 129)

[8] Essa é uma tese central de Ser e Tempo, que me atrevo a resumir em um slogan memorável: toda constituição é instituição. 4)

1)
Verweisung (traduzido por Macquarrie e Robinson como “referência ou atribuição”); o sentido do alemão é, grosso modo, “ser enviado ou direcionado, por uma coisa ou a partir dela, em direção a outra”, para o qual o inglês carece de um equivalente adequado. Mas as nuances no original são, na melhor das hipóteses, um guia; a priori, é tão provável que nenhuma palavra alemã seja exatamente adequada quanto que nenhuma palavra em inglês o seja. O sentido filosófico é, em última instância, determinado não por dicionários ou etimologias, mas por exemplos e pelas próprias doutrinas. [Em trabalhos posteriores, Haugeland traduziu ‘Verweisung’ e ‘verweisen’ como ‘atribuição’ e ‘atribuir’, em vez de ‘referência’. — Ed.
2)
Dewey apresenta um argumento semelhante: “Uma ferramenta é uma coisa específica, mas é mais do que uma coisa específica, pois é uma coisa na qual está incorporada uma conexão, um vínculo sequencial de natureza. Ela possui uma relação objetiva como sua própria propriedade definidora. … Sua relação primária é com outras coisas externas, como o martelo com o prego e o arado com o solo” (1925, 103).
3)
Compare Welt, sentido 3 (SZ 65), e Umwelt (SZ 66).
4)
A visão posterior de Haugeland rejeita esse slogan. A instituição social não é suficiente para a constituição de entidades como entidades de natureza inteligível (por meio de uma compreensão de seu ser), pois elas são constituídas como entidades apenas pela possibilidade de que pelo menos algumas pessoas assumam a responsabilidade de permitir que tais compreensões socialmente instituídas permaneçam responsáveis perante as próprias entidades. Ver especialmente “Verdade e Finitude” e “Intencionalidade Autêntica”, bem como “Deixar Ser”, mais adiante neste volume.—Ed.