Epifenômeno

JONAS, Hans. Poder o impotencia de la subjetividad. Barcelona: Paidós, 2005.

II. A tese da ineficácia do psíquico (o argumento do epifenômeno)

1. A tese do epifenômeno substitui a proibição física de causas psíquicas pela afirmação de que o próprio psiquismo carece de força causal, ajustando previamente a subjetividade à suposta inviolabilidade da determinação física e preservando o equilíbrio psicofísico mediante a completa subordinação do espírito ao corpo.

1. O argumento da tese do epifenômeno

a) Primazia da matéria diante do espírito

2. A matéria pode existir sem espírito, ao passo que a experiência conhecida não apresenta espírito sem matéria organizada, razão pela qual se atribuem à matéria autonomia e originariedade, enquanto o psiquismo é considerado condicionado, derivado e dependente de organismos, sistemas nervosos e cérebros.

3. A matéria organizada não seria apenas condição prévia da existência do espírito, mas também causa determinante de sua atividade e de todos os seus conteúdos, de modo que sensações, sentimentos e processos mentais poderiam ser extrapolados como efeitos fisicamente produzidos.

4. Aquilo que foi causado pelo substrato físico não possuiria causalidade própria, pois seria apenas expressão subjetiva do processo material, incapaz de agir sobre o que expressa, de retroagir sobre sua origem ou de determinar autonomamente seu desenvolvimento interior.

b) A integridade da determinação física

5. A determinação física é concebida como completa em sua própria esfera e fechada à intervenção de fatores heterogêneos, fazendo com que apenas a descrição neuromuscular da ação seja objetiva, enquanto a referência à vontade e à intenção é reduzida a transcrição simbólica de processos corporais.

6. A defesa da eficácia do espírito recebe o ônus de explicar como um produto do cérebro poderia emancipar-se de seu substrato e atuar retroativamente sobre ele, sobretudo como agentes não físicos poderiam provocar movimentos de partículas físicas.

c) O critério da parcimônia

7. A incapacidade de explicar a gênese da subjetividade a partir dos processos materiais pode ser acolhida mediante o ignoramus et ignorabimus, mas a hipótese de uma causalidade psíquica reversa exigiria admitir uma segunda obscuridade teórica, tornando-se menos parcimoniosa do que a explicação unilateral do cérebro para a consciência.

8. O conceito de epifenômeno evita postular transformação de energia física em energia não física, pois a consciência seria apenas aparência concomitante sem retirada de energia do sistema corporal e sem interferência no cálculo físico ulterior.

d) Superfluidade do fim subjetivo

9. Os fins subjetivos não exerceriam influência sobre o curso dos acontecimentos, pois sua presença consciente seria apenas reflexo do estado material do organismo, e a sucessão aparentemente orientada por eles procederia das mesmas condições físicas que já haviam produzido sua representação.

10. A explicação socrática da permanência diante da morte por meio das ideias de justiça, dever e finalidade seria rejeitada em favor de uma descrição exclusivamente naturalista baseada em ossos, tendões, músculos e nervos, pois somente a descrição física explicaria propriamente o acontecimento corporal.

e) O critério da simulabilidade

11. A possibilidade de simular mecanicamente os efeitos da conduta sustentaria que tais resultados não exigem subjetividade, conforme o princípio cartesiano segundo o qual comportamentos animais estereotipados poderiam ser reproduzidos por autômatos idealmente construídos.

12. Os efeitos especificamente humanos do pensamento racional, da linguagem e da adaptação livre a circunstâncias atípicas, antes considerados irredutíveis ao mecanismo, passaram a ser parcialmente modelados pela cibernética e pela teoria geral dos sistemas.

13. Aquilo que fosse perfeitamente imitado deixaria de ser mera simulação e passaria a constituir duplicação funcional, de modo que o original não poderia conter princípios adicionais além daqueles necessários para sua reprodução integral.

14. A economia explicativa favorece a hipótese epifenomenalista ao considerar supérfluos os conteúdos subjetivos que não sejam necessários à reprodução funcional da conduta, reduzindo a consciência e a finalidade psicológica a acompanhamentos inoperantes.

2. Crítica

15. A crítica deve começar de modo imanente, examinando tanto a coerência formal e conceitual do epifenomenalismo quanto sua explicação causal da subjetividade como aparência fictícia e faculdade impotente, para somente depois levar suas consequências conjuntas a uma redução ao absurdo.

a) Força da posição materialista

16. A pretensão materialista possui força considerável porque a permanência da matéria e a fugacidade do espírito são empiricamente evidentes, sobretudo na morte, quando desaparece a consciência enquanto os elementos corporais continuam existindo.

17. A evolução favorece inicialmente a hipótese de um monismo material, pois começou como acontecimento puramente físico e somente depois, em formações surgidas da própria matéria, permitiu o comparecimento da subjetividade sem participação de um espírito previamente existente.

b) Primeira visão panorâmica dos argumentos contrários

18. A prioridade empírica e ontológica da matéria não implica a inutilidade do que dela resulta, pois a dependência causal de um efeito não o reduz necessariamente a aparência sem eficácia nem o impede de tornar-se novo início dentro da cadeia das condições.

19. O surgimento da subjetividade não pode ser explicado apenas a partir do conceito físico de matéria como simples extensão, pois a matéria capaz de produzir consciência deve significar algo mais amplo do que a construção conceitual elaborada pelas ciências naturais em oposição ao espírito.

20. A simulação permanece incompleta enquanto não reproduzir também a subjetividade que acompanha os efeitos corporais, comprovando apenas que certos resultados físicos podem ser obtidos por mecanismos puramente físicos, e não que os mesmos resultados ocorram sem participação do espírito nos casos em que a consciência está presente.

21. A hipótese epifenomenalista excede a prioridade material ao introduzir consequências que entram em contradição com princípios gerais do ser e do pensar, revelando seu caráter artificial e sua incapacidade para resolver o problema psicofísico.

3. Crítica imanente do conceito de epifenômeno

22. O epifenômeno designa a aparência psíquica que acompanha unilateralmente determinados processos físicos cerebrais, enquanto estes permanecem autônomos e a consciência derivada se apresenta como produto totalmente heterônomo de uma realidade alheia.

a) O primeiro enigma ontológico: criação da alma a partir do nada

23. A consciência apareceria sem marcar diferença no desenvolvimento do processo cerebral que a produz, pois seu surgimento ocorreria sem intervenção, despesa ou modificação causal do substrato físico, como simples aparência do funcionamento material.

24. A origem do epifenômeno equivaleria a uma criação a partir do nada, porque nada seria causalmente empregado para produzi-lo, embora sua existência represente algo novo e distinto da inexistência, contrariando precisamente o princípio físico de conservação que a teoria pretende proteger.

b) O segundo enigma ontológico: a inoperância daquilo que foi provocado fisicamente

25. Aquilo que teria surgido sem custo causal também precisaria permanecer sem consequência, pois qualquer eficácia da consciência modificaria o processo físico acompanhado e violaria a autonomia material que o epifenomenalismo procura assegurar.

26. A consciência acrescentaria uma diferença descritiva à realidade, mas nenhuma diferença dinâmica, existindo como presença real sem transformar o restante das coisas nem participar da determinação do organismo consciente.

27. A ausência de efeitos daquilo que foi fisicamente provocado constitui o segundo enigma ontológico, pois contradiz o princípio natural segundo o qual nada pode existir sem consequências e todo efeito deve participar do encadeamento causal.

c) O enigma metafísico: a existência de uma ilusão em si

28. A impotência da consciência precisaria valer tanto externamente, em relação ao corpo, quanto internamente, em relação à autodeterminação do pensamento, pois qualquer causalidade entre conteúdos mentais permitiria ao psiquismo seguir caminho próprio e romper o paralelismo com o processo cerebral.

29. Poder e impotência da subjetividade devem valer conjuntamente para dentro e para fora, pois admitir poder interno e impotência externa dividiria artificialmente a consciência e a separaria do mundo e do próprio corpo cuja união a teoria deveria explicar.

30. O epifenômeno converte a sucessão consciente em projeção contínua do substrato cerebral, comparável às imagens cinematográficas que parecem derivar umas das outras, embora cada quadro seja produzido separadamente pela fonte de projeção.

31. A continuidade do pensamento seria apenas continuidade da atividade cerebral que escreve sucessivamente os signos da consciência, sem permitir que o próprio texto subjetivo prossiga por força própria.

32. Nenhum pensamento engendraria outros pensamentos nem qualquer estado de consciência conteria causalmente o seguinte, fazendo com que todo pensar e toda autodeterminação sejam enganos internos que acompanham a ilusão externa de determinar o corpo.

33. A ilusão epifenomênica careceria de beneficiário, vítima, finalidade e função, pois seria produzida sem servir ao organismo, sem compensar qualquer esforço e sem contribuir para a adaptação ou para o desenvolvimento da realidade.

34. A existência de uma ilusão em si, cuja própria distinção entre verdade e engano é parte do engano, constitui o enigma metafísico absoluto do epifenomenalismo.

d) O enigma lógico: aparência aparente para si mesma

35. A analogia da tela ou do espelho explica apenas a sucessão dos conteúdos conscientes, mas não a própria subjetividade como dimensão permanente em que esses conteúdos aparecem, pois a tela subjetiva também precisaria ser produto aparente dos estados cerebrais.

36. Caso a consciência como espaço de aparecimento seja reflexo difuso da atividade cerebral global, ainda seria necessário explicar o sujeito para o qual esse reflexo aparece e o ato pelo qual a aparência é reconhecida como aparência.

37. A regressão conduz à ideia de que o sujeito da aparência seja epifenômeno do próprio epifenômeno, tornando o eu uma ilusão dos fenômenos psíquicos e a alma uma ilusão capaz de possuir ilusões.

38. A articulação linguística do epifenomenalismo desemboca numa representação imaginária diante de um espectador imaginário, na qual cenário, conteúdo e sujeito coincidem como aparência que aparece apenas para si mesma ou como nada refletido em nada.

39. O conceito extremo de epifenômeno não é compatível com lógica acessível, pois substitui o problema psicofísico por algo intrinsecamente inconcebível, embora essa dificuldade ainda produza suspeita teórica mais forte do que uma refutação conclusiva.

4. O argumento atenta contra o conceito de natureza que pressupõe

40. O epifenomenalismo contradiz a teoria da natureza em cuja defesa foi concebido, pois transforma a consciência em exceção inexplicável aos princípios causais e de conservação que pretendia tornar invioláveis.

41. Nada pode surgir gratuitamente nem permanecer sem consequência, de modo que a matéria teria de investir algo na produção da consciência e a diferença entre sua existência e inexistência deveria manifestar-se de algum modo no desenvolvimento da realidade.

42. A consciência precisa introduzir alguma diferença transitiva no curso das coisas, ainda que o modo dessa eficácia permaneça desconhecido, para que o custo de sua gênese não desapareça e o equilíbrio da totalidade seja preservado.

43. O princípio determinista impede admitir algo produzido a partir de nada ou desvanecido em nada, razão pela qual a solução epifenomenalista se torna autocontraditória ao proteger a inviolabilidade causal mediante uma relação causal inteiramente excepcional.

44. A hipótese epifenomenalista oculta uma ignorância mais grave do que a interação psicofísica, pois precisa explicar como algo pode surgir sem dispêndio e existir sem valor causal em um mundo concebido integralmente como interação.

45. A hipótese, por ser fundamentalmente negativa, tende a tornar-se irrefutável, pois exige que a tese contrária seja previamente demonstrada, convertendo sua própria ausência de comprovação em vantagem indevida.

46. A defesa da interação psicofísica suporta o ônus sempre prorrogável de mostrar sua compatibilidade concreta com o conhecimento físico, mas a negação da interação assume encargo ainda maior ao ter de demonstrar como uma causalidade unilateral sem reciprocidade pode ser compatível com o conceito geral de realidade.

5. Crítica a partir das consequências: redução ao absurdo

47. A aceitação do epifenômeno produz consequências destrutivas para o conceito geral de ser, para o pensamento que pretende conhecê-lo e para a própria teoria epifenomenalista, tornando necessária uma redução ao absurdo de seu alcance ontológico e epistemológico.

a) Absurdidade de um ser enganoso

48. Um ser cuja contribuição mais elaborada fosse produzir uma fantasmagoria estéril da consciência não seria indiferente, mas ativamente absurdo ou perverso, pois criaria aparência de vontade, finalidade e interesse sem permitir que qualquer dessas dimensões tivesse eficácia real.

49. Um automatismo corporal silencioso seria apenas hipótese estranha, mas não contraditória; a contradição surge quando o mecanismo é acompanhado de uma música subjetiva que finge orientar movimentos já integralmente determinados.

50. O epifenômeno converte a natureza em comédia do interesse, fazendo surgir um ser ao qual se atribui poder, finalidade e responsabilidade inexistentes, embora essa representação não beneficie nem prejudique qualquer participante real.

51. O espírito enganador de Descartes ainda preservava sujeitos reais, intenção maliciosa e possibilidade de prazer no engano, enquanto a natureza epifenomenalista seria eternamente surda e, ao mesmo tempo, produziria gratuitamente um discurso cujo sentido mais próprio consiste em poder ser ouvido.

52. A atribuição desse absurdo à natureza para evitar seus enigmas recai contra a própria teoria, pois transforma o conceito de ser em caricatura cujo único aspecto surpreendente seria a possibilidade de ser levada a sério.

b) Absurdidade de uma teoria que arruína as teorias

53. A consequência decisiva não é apenas a deformação da natureza, mas a autodestruição da própria ideia de teoria, pois o epifenomenalismo nega ao pensamento o poder necessário para formular, julgar e sustentar qualquer doutrina verdadeira.

54. Ao declarar o pensamento causalmente impotente, o epifenomenalismo elimina sua própria condição de teoria independente e reduz suas proposições a efeitos cerebrais que não podem reivindicar validade racional.

55. Diferentemente do paradoxo do cretense mentiroso, que ainda pode introduzir uma exceção circunstancial, o epifenomenalismo formula uma sentença geral sobre o pensar e é integralmente engolido por ela.

56. A redução ao absurdo é dupla, porque a hipótese atribui à natureza a produção de uma fantasmagoria inútil e simultaneamente torna impossível o conhecimento teórico com que pretende descrever essa mesma natureza.