A salvação não está na ação humana empírica, pois a ação depende do possível, e o possível depende do ser, e o pensamento que descobre a essência não é o que conduz à salvação, mas a salvação só pode vir do próprio ser, ou seja, da técnica, não como fenômeno, mas como essência.
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Ao pensar a técnica para além de suas aparências, pode-se ver novamente a diferença do ser e dos entes e a pertença do homem ao ser, e a técnica não é o que salva porque se transforma milagrosamente, mas o fato de que, através dela, o homem é apropriado ao ser.
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O homem não se salva pela contemplação, mas recebe a salvação quando, no extremo desamparo, é tocado pelo ser, e a salvação no fundo do abismo está ligada ao que Heidegger chama de Ereignis, o evento de apropriação que escapa à história da metafísica e abre uma dimensão não histórica.
O pensamento do Ereignis não é um misticismo, mas leva o princípio da fenomenologia heideggeriana à sua conclusão, pois só se pode “tornar visível” o que se mostra “a partir de si mesmo” se, por si mesmo, isso se volta para nós, nos olha, e o olhar fenomenológico não é o doador de sentido, mas recebe todo o sentido da clareira do ser.
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O primeiro olhar não é o olhar pelo qual inspecionamos os entes, mas o clarão ou “relâmpago” do Ereignis que rasga a noite do mundo tecnológico, e a essência não é o que apreendemos, mas o que nos apreende, e nós somos os “olhados” no olhar.
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A técnica, ela mesma, é “ainda olhar”, e a fenomenologia, ao investigar as condições de uma possível arte de viver, abandona a neutralidade para enfrentar a ameaça radical da tecnicização do mundo e da instrumentalização do pensamento.
O questionamento do Heidegger tardio torna-se mais explicitamente ético ao indagar como viver com a técnica, sendo necessário evitar toda atitude evasiva que consista em condená-la como “obra do diabo” ou em refugiar-se em uma torre de marfim.
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É preciso usar os aparelhos e as máquinas, mas manter sempre distância deles, nunca esquecer de ter consideração por eles, permanecendo sempre aberto ao seu “segredo”, ou seja, à essência oculta da técnica.
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A serenidade para com as coisas, que significa deixar os objetos da técnica serem para que possam ser recebidos em sua própria essência, mostra que a ontologia é indissociável de uma ética situada para além de toda moral normativa.
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A ética de Heidegger não consiste em preservar unilateralmente o ser dessa “morada” que a técnica tende a destruir, mas em que os humanos possam viver com uma “força igual” uma vida e um pensamento duplos, inclinados tanto para o universo tecnologicamente arranjado quanto para o mundo pensado como a casa de uma morada mais original.