O que chamamos de estilo não é, para o artista, uma representação subjetiva — uma escolha prévia intelectual, ou uma certa ideia do mundo —, nem uma percepção bruta que reproduziria objetivamente as coisas, não existindo este tipo de percepção, pois a percepção já estiliza: perceber é escolher, selecionar, entre as aparências, as que são emblemáticas de uma pessoa, de uma coisa ou de uma situação, como quando se reconhece alguém a partir de um de seus gestos, de seu caminhar, ou de tal ou qual atitude familiar
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O estilo prolonga e sistematiza este trabalho de divisão simbólica em partes, realizado pela percepção, isto é, pela corporeidade viva, sendo o emblema de uma maneira de habitar o mundo, adotando o artista um estilo como um sistema de equivalências pelo qual traduz uma relação com o mundo cuja particularidade única não se encontra em parte alguma, a não ser em um esquema corporal que ele tem em seu poder, como um ritmo de seu próprio corpo
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Ele só descobre seu estilo à medida que persegue obscuramente sua tarefa e elabora o material artístico; se o estilo é o que comanda o arranjo do quadro tão imperativamente quanto uma sintaxe ou uma lógica, é um sentido latente ou uma matriz da obra que escapa em grande parte a seu autor, ou que ele mesmo só encontra no ato, podendo ser conscientemente manipulado e reproduzido, mas não sem que a obra corra o risco de perder seu caráter original e espontâneo, tornando-se o segredo de fabricação, então, receita
Todo estilo consiste em retomadas incessantes, em modulações ou variações regulamentadas sobre formas similares, que não cessam de voltar e acabam tornando-se típicas, sendo todo estilo acumulação paciente de tais representações moduladas, prendendo-se a incansável paciência do estilo a que o artista sabe que tem de estabelecer lentamente um código, criar uma linguagem inédita para dizer um sentido novo
O estilo também não poderia reduzir-se a uma simples maneira ou a um certo modo exterior de acomodar um tema que teria sentido independentemente dele, sendo o sentido mesmo que nasce, dá forma e insufla seu dinamismo à obra: o estilo é a própria obra, não sendo a arte expressão de alguma coisa, mas expressão primordial, isto é, uma instituição de sentido, acontecimento de verdade e, mais precisamente, advento da verdade do mundo
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Embora a arte possa parecer às vezes estranha e desconcertante, nunca é estranha ao mundo, não é uma ficção ou um outro mundo para o qual se poderia evadir-se, não existindo para o pintor mais que um mundo, indefinidamente inacabado, sempre ainda a ser pintado, sendo todas as excentricidades do estilo apenas tentativas de responder às inesgotáveis e misteriosas solicitações das coisas
Este enfoque dado por
Merleau-Ponty, por mais novo e penetrante que seja, poderia ser questionado por não ser exclusivo ou demasiadamente a-histórico, já que durante séculos na história da pintura o estilo resultou da obediência a cânones, ideais estético-metafísicos ou convenções sociais, muitas vezes regras de conduta, de bom-tom ou de bom gosto
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Indubitavelmente, o sentido é a expressão do corpo, prolongamento e amplificação da percepção, sendo a operação expressiva do corpo iniciada por uma percepção mínima que se amplia em pintura e em arte, mas não se pode afirmar que o ato de pintar consista exclusivamente em concentrar o sentido ainda esparso na percepção para fazê-lo existir expressamente
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Se o pintor não fizesse mais que condensar a ordem perceptiva espontânea, recolher o nascimento das formas na carne do mundo, mostrar as invisíveis medidas do ser, a pintura estaria privada de referência à dimensão histórica do mundo, seria uma espécie de naturalismo do pré-objetivo, perderia o caráter fictício, simbólico, poético, mítico ou imaginário que deve à cultura e à linguagem de uma época, não sendo o pintor apenas um ser visual de olhar ingênuo e bruto, mas um ser sedimentado pela tradição, respondendo seu estilo tanto, e talvez mais, ao de outros pintores, a discursos, a ideias, a regras, quanto ao universo mudo das coisas percebidas
Cézanne disse que, a seu ver, o retorno à natureza deveria primeiro passar pelo Louvre, não podendo a dimensão não-histórica, a natureza, de uma obra deixar de ser relativa à sua situação na história, começando todos os pintores copiando, imitando o estilo de tal ou qual predecessor que admiram, e, se imitam a natureza, é uma natureza vista através do Louvre, de uma tradição, como preconizaram e fizeram Monet, Cézanne, Van Gogh, Picasso