Nome de Wittgenstein evocado duas vezes por Heidegger como figura distante, sem esforço de engajamento direto.
Duas vezes bem atestadas em textos de Heidegger, além de alusões em conversas com membros do Círculo de Viena.
Pensamento de Heidegger, por sua vez, é evocado com certa precisão em escritos de Wittgenstein.
Situação constitui simetria na assimetria, marcada por distância aparentemente intransponível entre dois pensadores estranhos um ao outro.
Um dos mal-entendidos mais profundos e obscuros do nosso tempo reside na clivagem não questonada entre os caminhos de pensamento de Wittgenstein e Heidegger.
Poucos trabalhos contemporâneos se deram ao trabalho de medir verdadeiramente o intervalo entre essas duas empresas decisivas do pensamento.
Nesse intervalo jogam-se, talvez ainda a nossa revelia, alguns dos enjeux maiores da genealogia da modernidade.
O mais perigoso contrassenso poderia ser o que concerne à profunda mutação ocorrida, em nosso tempo, na própria essência ou aître da verdade.
Ambos os pensadores sentiram os sobressaltos do nihilismo consumado, mas de maneiras distintas e em estilos incomparáveis.
Heidegger, em um dos Seminários do Thor, evoca Wittgenstein como paradigma da ontologia moderna da objetividade.
Objetivo é contrastar a experiência grega da verdade como aletheia (desocultamento) com a perda dessa experiência na modernidade.
Para ilustrar essa perda, Heidegger atribui a Wittgenstein uma tese ontológica: Wirklich ist, was der Fall ist (É real o que é o caso).
Frase é referência ao aforismo inicial do Tractatus Logico-Philosophicus: Die Welt ist alles, was der Fall ist.
Heidegger interpreta esta frase como expressão máxima da objectividade factual, da Vorhandenheit, onde o real se esgota na pura factualidade.
Julga este princípio fantasmagórico, como pretensão quase alucinatória da subjetividade transcendental moderna.
Pretensão de um sujeito metafísico que reduz o sentido de ser do ente em seu conjunto ao que pode ser fixado e determinado a priori e a posteriori.
O objetivo heideggeriano é mostrar o abismo entre a parousia grega do ente em sua plenitude mundana e a comparência e designação do ente moderno à objetividade do objeto.
Objetividade esta essencialmente determinável por uma subjetividade que é a da ciência natural moderna e da metafísica da subjetividade que a sustenta.
Wittgenstein é assim apresentado como assinatura histórica desse empobrecimento ontológico e dessa pretensão espectral.
Questão crucial: Wittgenstein merece essa atribuição e esse papel sem maiores considerações?
Papel conviria melhor a um Carnap ou à ideologia científica do Círculo de Viena, a qual o próprio Wittgenstein combatia.
A verdade dos aforismos do Tractatus é de ordem totalmente diversa da verdade das proposições das ciências naturais.
A verdade que interessa a Wittgenstein é da ordem do que não pode ser dito, mas apenas mostrado no seu próprio mostrar-se silencioso.
Pertence ao laconismo de uma verdadeira sigética, a do elemento místico (Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen).
Se a figura de Wittgenstein tem lugar na história do Ser, não é no lugar que Heidegger lhe pensou poder designar.
Posição de Wittgenstein em relação a Heidegger emerge em contextos de discussão com membros do Círculo de Viena.
Wittgenstein tomou posição sobre aspectos do pensamento de Heidegger, como a conferência Que é Metafísica? (1929) e seus temas (Ser, Nada, angústia).
Discordava da polêmica de Carnap contra as pseudo-proposições metafísicas, que programava sua eliminação.
Wittgenstein, longe de condenar Heidegger, parece reconhecer-lhe um mérito paradoxal, partilhado com Kierkegaard.
Mérito de ter tentado fazer sinal em direção ao que não pode ser dito, mas apenas tacitamente mostrado: o elemento místico.
Em nota de entrevista com Moritz Schlick (30 dez. 1929), Wittgenstein declara:
Compreende o que Heidegger quer dizer com Ser e Angústia.
Identifica no homem um impulso (Trieb) de lançar-se contra os limites da linguagem.
Exemplifica com o espanto de que algo exista (em vez de nada), espanto inexprimível como pergunta e sem resposta.
Tudo o que podemos dizer a priori é não-sentido, mas não deixamos de nos lançar contra esses limites.
Este ímpeto é também o visado por Kierkegaard (como tendência a lançar-se contra o paradoxo).
Define: Este ímpeto de lançar-se contra os limites da linguagem é a Ética.
Na Ética, tenta-se sempre dizer algo que não toca a essência da coisa e não pode alcançá-la.
Quanto à tendência, ao ímpeto, isso faz sinal para algo.
Cita santo Agostinho: Então, miserável verme, não queres dizer não-sentido? Diz então, vamos, não faz mal!
Crítica fundamental de Wittgenstein a Heidegger é, portanto, de fundo e de estilo.
Crítica: Heidegger também cedeu à tendência de lançar-se contra os limites da linguagem.
Ou seja, cedeu à tentação de falar da Ética, ou do que é ético, falando do Ser ou da angústia.
Sua empresa (Ser e Tempo) teria sucumbido, à sua maneira, à mesma tentação a que o autor do Tractatus sucumbira.
Tentação de tentar dizer o que não se pode dizer, o que deveria permanecer calado, o que só pode ser mostrado em silêncio.
Refere-se ao que está nos limites da linguagem: algo do limite interno do mundo, do que é ao mesmo tempo Ético e Místico.
Discussão específica sobre expressões como Es nichtet ou Das Nichts nichtet aparece em ditados a Waismann.
Em outro contexto, no seminário sobre Heráclito com Eugen Fink, Heidegger evoca um pensamento de Wittgenstein em forma de parábola.
Contexto é a dificuldade da implicação irremissível na circularidade do círculo hermenêutico.
Questão: deve-se sair dele ou entrar nele resolutamente, com um salto originário e sem reservas (como preconiza Ser e Tempo)?
Respondendo à sugestão de um participante (Não deveríamos antes entrar no círculo?), Heidegger recorda inopinadamente a posição de Wittgenstein.
Parábola de Wittgenstein: A dificuldade em que se encontra o pensamento assemelha-se à de um homem numa sala, de onde quer sair. Tenta primeiro pela janela, mas é alta demais. Tenta então pela chaminé, mas é estreita demais. Ele só teria que se virar para ver que a porta nunca deixou de estar aberta.
Posição de Wittgenstein parece inversa à de Heidegger, mas apenas em aparência, suscitando reflexão sobre a natureza do acesso ao que já está aberto.