Expressão die Topologie des Seyns (a topologia do Estre ou topologia do Seer) aparece no texto poético-filosófico Aus der Erfahrung des Denkens (1947).
Contexto é constituído por anotações poéticas sob indicação sazonal de verão, registrando experiência do pensar.
Quatro versos centrais apresentam a noção de topologia do Estre com densidade conceitual máxima.
Tradução meditada dos versos explicita sua carga semântica.
O caráter de dicção poética do pensar ainda está velado.
Onde ele se mostra, equivale, por longo tempo, à Utopia de um entendimento semi-poético.
Porém, o dizer poético que pensa é na verdade a Topologia do Estre.
A qual diz a este (ao Estre) a localidade de sua essência (aître).
Contexto de alta densidade concerne à íntima proximidade entre Dichten (dizer poético) e Denken (pensar).
Atividade do poeta (Dichtung) é um mostrar, um trazer à luz.
Atividade do pensador é igualmente um mostrar, uma Aufweisung, um fazer-signo e dar-a-ver.
O caráter de dicção do pensar é o ponto de junção desta intimidade entre poesia e pensamento.
Este caráter, ainda velado, ao se mostrar vale apenas como Utopia (ausência de lugar, atopia) para um entendimento semi-poético.
Contra esta longa Utopia, ergue-se em verdade, no dizer poético pensante, a Topologia do Estre.
Função da Topologia do Estre é especificada de modo laconico nos versos.
Função: Ela diz ao Estre a localidade de sua essência.
O dizer conjunto dos poetas e pensadores é aquilo que, na história do Ser e na essência da linguagem, acolhe o Estre.
Em um falar ainda grego, Topo-logia do Estre entrelaça topos (lugar) e logos (recueil, discurso, recolhimento).
Extrema raridade da expressão Topologie des Seyns (aparentemente um hapax) não diminui sua importância, antes a amplifica.
Referências esparsas, como em Gedachtes, confirmam seu estatuto como alto lugar no caminho do pensar heideggeriano.
Ligação é estabelecida com a temática do topos, do lugar, da localidade do Ser (die Ortschaft des Seins).
E também com a Contrée do Ser (die Gegend des Seins), a essência do Estre (das Wesen des Seyns) e a vigência do Estre (die Wesung des Seyns).
Estes conceitos são centrais nos Traités impubliés e no pensamento do Ereignis.
Temática poderosa do caminho do pensar, dos Holz- e Feldwege, das Wegmarken, é mais que uma metáfora.
A obra mesma do pensar se apresenta como Erörterung: descoberta de lugares, reconhecimento dos lugares da Contrée do Ser.
Toda a pensamento do Ser e do Estre como Ereignis, todo o caminho de pensar de Heidegger com suas inflexões e a complexidade da Kehre, inscreve-se numa Topologia do Estre.
A Topologia do Estre, mesmo nomeada uma única vez, nomearia a totalidade da aventura do pensamento heideggeriano.
Nomeia a tarefa de reconhecimento da coisa do pensar, tarefa inaugurada mas nunca dada por acabada.
Coerente com o lema Wege, nicht Werke (Caminhos, não obras).
Múltiplas temáticas heideggerianas devem ser interrogadas na perspectiva desta topologia do Estre.
Temática dos fundos e subsolos, dos princípios de fundo (Grundsätze) e fundos iniciais.
Temática das estruturas de sedimentação da tradição aberta à sua des-truição.
Temática da dimensionalidade do tempo.
Temática da constituição onto-teo-lógica da metafísica e da diferença ontológica.
Temática dos movimentos giratórios da Kehre, dos voltas e desvios, das reviravoltas, mutações e metamorfoses na história do Ser e na movimentação do Ser como Ereignis (uma verdadeira tropologia do Ereignis).
Perspectiva topológica permite ver todo o pensamento de Heidegger como iniciação à imemorial Topologia do Estre que se constitui na essência da linguagem.
Adágio da Carta sobre o Humanismo: a linguagem é a linguagem do Ser, como as nuvens são as nuvens do céu.
O que se diz em toda língua é recolhido e dito pelo Dito dos poetas e pensadores.
Ensaios como Gelassenheit, Zur Seinsfrage, Zur Sache des Denkens, Acheminement à la parole, a própria Carta sobre o Humanismo, são peças mestras desta interpretação topológica.
Pensamento do lugar (Ort), do espaço (Raum) e da Contrée (Gegend, Gegnet) é central para uma pensamento requerido por uma Topologia do Estre.
Desenvolvimentos encontram-se desde a analítica existencial da espacialidade do ser-aí em Ser e Tempo.
Séries de ensaios posteriores desenvolvem esta dimensão topológica.
Exemplos: A Arte e o Espaço, Observações sobre Arte – Plástica – Espaço, Construir, Habitar, Pensar, …poeticamente habita o homem…, A Origem da Obra de Arte, a conferência de Atenas (1967).
Reflexões sobre como a abertura de um lugar pode dar lugar ao desdobramento de um espaço onde advém um mundo à luz de uma contrée são partes integrantes da Topologia do Estre.
Esta topologia é aparentada à
arquitetônica do céu de que fala
Hölderlin.
Importância decisiva conferida por Heidegger ao termo
topologia é atestada por sua distinção operatória no diálogo com Ernst
Jünger.
Distinção entre topografia do nihilismo (mérito de Jünger) e topologia do nihilismo (tarefa própria de Heidegger).
No texto Zur Seinsfrage, o modo de pensar em ação é explicitamente topológico.
Este modo de pensar topológico ressort manifestamente à Topologia do Estre.