No fragmento de Anaximandro, fala-se de como os entes se fazem mutuamente justiça e expiação da injustiça [dike kai tisin tes adikias], segundo a ordem do tempo.
Heidegger comenta e articula diferentemente esse aparecimento da justiça [dike] e da expiação [tisin], em termos de articulação [Fügung], gonzos, ajuntamentos e juntas [Fugen], mantendo à distância nossas representações juridicamente morais.
O que o fragmento parece dizer é que os entes, enquanto tais, estariam essencialmente na adikia, na injustiça.
No entanto, adikia, no contexto ontológico do Dito de Anaximandro, refere-se antes a um estado em que as coisas entram em desajuntura e saem fora de seus gonzos [aus den Fugen]: Fora da ajuntura [aus der Fuge] que decentemente deveria ser a sua.
Sob essa luz, a Justiça seria então justamente die Fuge: o ajuntamento ou a ajuntura, mas também der Fug: a conveniência e a decência – segundo as quais os entes, tendo consideração uns pelos outros, aparecem e vêm à presença durante o tempo de seu séjour passageiro, depois devem dar lugar a outros.
A Justiça não é mais Gerechtigkeit, mas sim Fuge e Seynsfuge, em estreita relação com a sextupla fuga (ou ajuntura) [die sechsfache Fuge] segundo a qual se ajunta e articula o pensamento do Ereignis nas Contribuições à Filosofia.