Para
Dasein e
Da-sein, proposta de traduzir como
être-le-là (ser-o-aí), seguindo sugestão de Heidegger em carta a Jean
Beaufret.
Être-le-là permite evidenciar o -là que o ser humano tem a ser, sua dimensão topológica de abertura (Erschlossenheit) e instancialidade (In-ständigkeit) à verdade do Estre.
O Da- de Dasein não é antropológico, mas topológico: nomeia o lugar (Stelle) ou localidade (Ortschaft) da verdade do Ser.
Être-le-là é o modo de ser do humano como aquele que tem a ser o tempo e lugar onde há Ser, verdade e ingresso no mundo do ente.
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Esquema do
Entwurf (esboço projetivo) e sua permanência através da
Kehre.
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Entwurf não é projeto psicológico ou intencional, mas abertura ontológica de uma direção, ligada à temporalidade e à estrutura ex-stática do être-au-monde.
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Être-le-là é sempre já jogado (geworfen) numa condição prévia (Geworfenheit) que esboça a possibilidade de todo seu lançar-se.
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A realização do tournant revela que o Entwurf do être-le-là responde a um Zuwurf (lançamento-concedido) proveniente do próprio Ser.
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Propõe-se traduzir Entwurf por esquisse projective ou esquisse jetée, enfatizando seu aspecto topológico e não subjetivo.
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Esse esquematismo pertence ao Zeit-spiel-raum (espaço-de-jogo do tempo) dos Beiträge, aberto pelo Événement da história do Estre.
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Tradução da
Kehre (o giro, a virada) e seus derivados.
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Termo tournant já consagrado nas traduções francesas é mantido para abranger a variedade de usos.
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Verbos derivados de kehren são traduzidos por derivados de tourner (retornar, desviar, voltar, etc.).
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Die Kehre im Ereignis torna-se le tournant dans l'Événement.
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Das Sichkehren des Seyns é traduzido por la volte de l'Estre, para captar a figura de dança, o girar sobre si mesmo.
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Tournant deve ser entendido topologicamente, como virada do caminho e como momento crítico de uma história-aventura.
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O tournant do caminho do pensamento é, antes, o Tournant da história do Estre, o Tournant dans l'Événement.
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Dificuldade intransponível de traduzir
Ereignis e seu duplo registro etimológico.
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Opção por traduzir das Ereignis por l'Événement, mantendo a ressonância temporal e histórica imediata.
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É necessário retirar a noção do registro da événementialité (crônica) para o da éventualité e do Immémorial.
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Etimologia dupla de
Ereignis (antigo
Eräugnis):
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De eräugen (mostrar, fazer ver, tornar manifesto), ligado a Auge (olho), grego augē (clarão do olhar). Ereignis como o que se mostra, o que revela, podendo ser a Maravilha.
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Associação popular com eigen (próprio), aneignen (apropriar). Ereignis como apropriação, ajuntamento.
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Heidegger conjuga os dois registros: o Événement do Ereignis é ao mesmo tempo revelação (desvelamento da verdade do Estre) e aí-apropriamento do être-le-là humano ao Ser.
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O Ereignis não se mostra, mas ereignet: acontece de modo singular, inaparente, apropriando.
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Propõe-se expressões como éventualiser e aí-appropriant para tentar captar o duplo movimento.
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Dificuldade central: traduzir
die Wesung des Seyns (a westência do Estre).
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Expressão característica do tournant nos Beiträge, selando a assinatura do livro.
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Wesung é um neologismo formado do radical do verbo antigo wesen com o sufixo -ung, indicando processo de efetuação.
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Não se encontra nos dicionários; em Verwesung (decomposição) indica perda do Wesen.
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Filologicamente, poderia ser análogo a ousia ou essentia (nomes de ação).
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Porém, Heidegger arranca Wesung da esfera da ousia e da essentia metafísicas.
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Deve ser entendido a partir do sentido verbal e etimológico que Heidegger restitui a Wesen.
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Sentido heideggeriano de
Wesen, distinto da tradição metafísica.
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Wesen, em Heidegger, não é essentia (quididade), oposta à existentia.
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Deriva do verbo antigo wesen, com raiz indo-europeia *wes- (sânscrito vásati), significando permanecer, habitar, demorar-se, residir.
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Aparentado a wahren (durar, permanecer).
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Em
Introdução à Metafísica, Heidegger identifica três raízes do verbo
ser:
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*es- (viver),
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*bheu-/*bhi// (brotar, crescer),
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*wes- (habitar, demorar-se), presente em wesen, gewesen, anwesend, abwesend.
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Wesen significa originariamente o demorar-se e durar como presença, o vir à presença e sair dela.
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Questão do Wesen des Seyns não é questão da essência do Ser, mas do séjour, demeure, habitation do Ser, seu modo de desdobramento durativo.
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Diferença decisiva: Das Seiende “ist”. Das Seyn aber “west”. (O ente é. O Estre, porém, *west).
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Proposta de tradução:
die Wesung des Seyns por
l'aîtrée de l'Estre.
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Aîtrée é neologismo francês, formado com sufixo -ée (como em durée, entrée) sobre o radical do antigo vocábulo aître.
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Aître (do latim atrium) significa pátio, lar, casa, mansão, lugar de habitação; por metonímia, a casa toda com suas dependências.
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Etimologia popular confunde aître com âtre (lareira), revelando experiência imemorial da habitação.
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Em aître ressoam as noções de séjour, demeure, habitation, ligadas à etimologia de wesen.
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Permite pensar topologicamente: a aîtrée de l'Estre é o movimento, o processo movimentado da dispensação do Estre no Ereignis.
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O Estre *aître (em vez de simplesmente être), desdobra o espaço e a duração de seu próprio séjour.
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O être-le-là humano é o lugar (o aître) onde o Estre pode ter aître.
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Consequências da tradução de
Wesen por
aître.
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Das “Wesen” des Daseins em Ser e Tempo (p.42) deve ser lido como L'“aître” de l'être-le-là réside dans son existence, e não como essência.
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A frase Das Seyn west als Ereignis torna-se L'Estre aître comme Événement.
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O clivagem ist/*west// (é/*aître) corresponde à diferença ontológica.
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Deve-se falar, portanto, do aître da verdade, do aître do homem, do aître da técnica, do aître da linguagem, e não de suas essências.
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Exemplo: das Wesen der Technik (o aître da técnica) não é seu gênero ou essência metafísica, mas o modo como ela aître, impera, como Gestell, na dispensação da verdade do Ser.
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O
aître da linguagem como
casa do Ser.
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A linguagem não é uma faculdade acrescentada ao homem; é a casa do Ser, na qual o homem, habitando, ex-siste.
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Pensar o aître da linguagem a partir da correspondência ao Ser, como habitação do aître do humano.
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Mesmo quando a metafísica oculta seu aître, a linguagem permanece ontológica, lugar propício à topologia do Estre.
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Considerações finais sobre a tradução e os recursos das línguas.
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Resposta à observação de
Beaufret sobre os
limites do francês: Heidegger vê nela um indicativo para aprender mutuamente.
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Os limites de uma língua, quando levados ao extremo, revelam-se seu tesouro mais precioso, sua ressource última.
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Reconhecer a língua em seu lugar não é transportá-la, mas nos transportarmos ao lugar onde ela tem seu aître: recolhimento no Ereignis.
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A tarefa do tradutor é essa experiência do limite como recurso, no aprendizado recíproco e no pensamento produtivo.