GRONDIN, J. Le Tournant dans la pensée de Martin Heidegger. Paris: PUF, 1987
[…] o que impulsiona a preocupação [Sorge]? Como o Dasein é caracterizado como o ser para o qual esse mesmo ser está em jogo em seu ser, a resposta é óbvia: o sentido da preocupação não pode ser outro senão o ser do Dasein, uma concepção que devemos especificar agora. A preocupação é, mais precisamente, sobre o poder-ser (Seinkönnen) do Dasein. Quando o homem lida com o ser em geral, é sempre o seu poder-ser que está em questão. O ser do Dasein é um ser de tensão. Em outras palavras, o futuro constitui o ser do Dasein. O sentido da preocupação reside no futuro e, consequentemente, como veremos, no tempo.
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A compreensão da estrutura tensional do Dasein exige a tematização deste ente a partir do futuro enquanto possibilidade existencial, recusando-se a definição do porvir como um instante pendente de realização na cronologia.
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Oposição à ontologia da simples presença ou Vorhandenheit.
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Crítica à redução do futuro a um presente que ainda não é.
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Inadequação da objetivação do poder-ser em um momento vindouro.
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A descoberta de uma concepção originária do tempo fundamentada na facticidade do Dasein opera uma mudança de paradigma em relação à ontologia clássica ao deslocar o peso ontológico do presente para o futuro.
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O privilégio concedido ao futuro não implica a negligência das demais dimensões temporais, rejeitando-se a hierarquização piramidal e a oposição entre momentos características da ontologia da substância.
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A simultaneidade essencial das dimensões temporais revela que o Dasein vive seu passado como um ter-sido ou Gewesenheit que condiciona constitutivamente seu poder-ser e exige a apropriação da facticidade de seu arremesso.
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Substituição do termo passado por ter-sido para indicar a atualidade do ter-sido-projetado.
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Recusa da concepção do passado como algo situado atrás ou fora do sujeito.
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Possibilidade de assunção do passado pela memória explícita ou seu esquecimento na inautenticidade.
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Vínculo entre o esquecimento existencial e o esquecimento do ser na história da metafísica.
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O horizonte da presença constitui-se como o ponto de encontro repleto de sentido entre o projeto passado e a projeção do poder-ser, onde o instante surge impregnado pelo cuidado e não como um agora fugaz entre dois não-seres.
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Etimologia alemã de Gegenwart como aquilo que aguarda adiante.
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Influência da experiência do tempo dos primeiros cristãos na concepção do jovem Martin Heidegger.
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Manifestação do tempo como apelo de um kairos e não como chronos anônimo.
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O fenômeno unitário da temporalidade ou Zeitlichkeit define-se pela interligação originária onde o ter-sido nasce do futuro e libera a partir de si o presente.
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A unidade da trindade temporal reside no processo de autotemporalização, cuja descrição exige uma terminologia elusiva para evitar a reificação do tempo como um ente simplesmente dado e afirmar sua condição como clareira do ser.
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Recusa em tratar a temporalidade como objeto da ontologia da substância.
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Paralelo com a prudência aplicada por Martin Heidegger à exposição de Immanuel Kant sobre os limites da clareza.
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Necessidade de ilustração fenomenológica para responder à questão do sentido do ser.
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A redefinição heideggeriana da compreensão desloca o foco do processo cognitivo intelectual para uma competência existencial prática de saber-fazer e autoorientação, apropriada posteriormente por Hans-Georg
Gadamer para desafiar a metodologia tradicional das ciências humanas.
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Análise da locução alemã que vincula o entender ao ser capaz de realizar algo.
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Exemplificação com habilidades práticas de cozinheiros ou professores em contraste com a teoria.
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Caráter reflexivo que implica o autoentendimento em todo ato de compreender.
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Definição de interpretação ou Auslegung como desdobramento das possibilidades da existência.
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Crítica à tradição epistemológica de Wilhelm
Dilthey.
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Fusão entre compreender e aplicar significado à situação específica.
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A fundamentação da compreensão prática em Hans-Georg Gadamer recorre ao conceito aristotélico de phronesis para sustentar que a sabedoria reside na atualização concreta do bem na ação e envolve necessariamente o autoconhecimento do agente.
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Polêmica de Aristóteles contra a ideia abstrata do bem em
Platão.
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Distinção entre a aplicação situacional e o relativismo ético.
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Valorização da proximidade e atenção do sujeito como modo de conhecimento.
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Pertinência do conhecimento interessado para as ciências humanas e sociais.
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Manutenção da reflexividade heideggeriana fora da hermenêutica da existência preocupada.