GRONDIN, Jean. Le tournant herméneutique de la phénoménologie. Paris: PUF, 2003.
Trata-se da terceira configuração bem discernível do projeto hermenêutico de Heidegger. Se é verdade que o último Heidegger deixou de falar de hermenêutica, não deixa de ser verdade que sua explicação com a história da metafísica se situa muito claramente na continuidade de suas primeiras pesquisas hermenêuticas. O que é, de fato, essa explicação com a história ou o “destino” da metafísica, senão uma explicitação (Auseinander-setzung), no sentido de uma Auslegung interpretativa e explicativa, que se propõe a esclarecer os pressupostos da compreensão metafísica do ser que marcou uma época? Nesse sentido, a explicação de Heidegger com a história da metafísica encarna uma radicalização e continuação magistral do projeto de explicação que se iniciou sob o título de Ser e tempo (mesmo que o último Heidegger não possa deixar de reconhecer que SZ permanecia, apesar dele, sob a influência de um pensamento ainda demasiado metafísico).
O que dificultou a consideração dessa continuidade do projeto hermenêutico de Heidegger foi, é claro, a interrupção repentina do projeto de SZ, pouco depois da publicação de sua primeira parte, mas também o uso por Heidegger de um vocabulário totalmente novo, inédito, após SZ. Mas não se pode ignorar a continuidade subjacente. Aliás, ela pode ser reconhecida a partir da primeira frase de SZ. Heidegger dizia que a questão do ser “havia caído no esquecimento hoje”, “embora nosso tempo considere um progresso reafirmar a ‘metafísica’” (SZ 2). A “metafísica” ainda designava aqui apenas a filosofia popular dos anos 1920, que procurava propor “visões de mundo” e da qual Heidegger queria se distanciar [16]. Ele se propunha a relançar a questão do ser de uma maneira muito mais radical. Em toda a SZ, trata-se, portanto, de despertar essa questão, mas no terreno do Dasein, onde se coloca, onde se esconde, a questão do ser. Foi assim que nasceu a hermenêutica de SZ na forma de uma Analítica da existencialidade da existência. Seu objetivo declarado era mostrar que o esquecimento (do ser) encontrava seu fundamento em uma temporalidade inautêntica do Dasein, em uma relação inautêntica do Dasein com seu ser. Ao esquecimento, inautêntico porque resultante de uma fuga diante da questão do ser, Heidegger opôs o ambicioso projeto de uma repetição (Wieder-holung), franca e resoluta, da questão do ser. Ora, o “segundo” Heidegger descobre bem cedo que o esquecimento do ser, a Seinsvergessenheit, decorre de uma história muito mais complexa e subterrânea. É que o esquecimento do ser faz parte do próprio sistema da “metafísica”. É, portanto, toda a metafísica e, consequentemente, nossa história ocidental que se caracterizaria por um esquecimento do ser em grande escala, esquecimento que se traduz principalmente por uma inteligência do ser como “presença permanente” (beständige Anwesenheit), que prepara o terreno para uma inteligência do ser como pura disponibilidade (pure Verfügbarkeit). Essa compreensão puramente “técnica” do ser em seu conjunto constitui a antecipação (hermenêutica, necessariamente) que é constitutiva de toda a metafísica. É precisamente essa antecipação, esse Vorgriff, que a hermenêutica da história da metafísica se propõe tornar perceptível, ou mesmo superar (überwinden), ou, como Heidegger dirá mais tarde, abandonar a si mesma (sich selbst iiberlassen). A explicação de Heidegger com a história da metafísica não era menos do que uma ambiciosa hermenêutica da história do pensamento metafísico, seguindo o fio condutor do esquecimento do ser.