GREISCH, Jean. Ontologie et temporalité. Paris: PUF, 1994
O primeiro existencial que vem concretizar a constituição do aí é o afeto (Befindlichkeit, Vezin traduz: disposibilité). Em alemão, a expressão sich befinden conota “encontrar-se” no sentido espacial (“encontro-me em Paris”), mas também no sentido de indicação de uma disposição interior: “encontrar-se” de bom ou mau humor, “sentir-se” “bem” ou “mal”. Além do fato de que em 1924 Heidegger usou esse termo para traduzir o termo affectio em Santo Agostinho, a tradução por “afeto” encontra sua justificativa nessa passagem natural do “encontrar-se” ao “sentir-se”. É apenas o segundo sentido, não locativo, que nos interessará aqui, já que Heidegger afirma de imediato que o título ontológico do afeto conota do ponto de vista ôntico algo perfeitamente familiar, que experimentamos em todos os momentos: o humor, a “tonalidade ”(Stimmung, Gestimmtsein) graças à qual estamos mais ou menos em acorde ou desacorde em uma situação específica (SZ:134).
Ambos os termos apresentam problemas formidáveis de tradução e interpretação. Vários comentaristas têm insistido fortemente que o termo Stimmung não tem equivalente literal em francês. É ainda mais importante pensar sobre o que ele quer dizer. Ainda que, como nota Michel Haar, “para traduzir verdadeiramente Stimmung … seria necessário saber, de alguma forma, somar numa só palavra: vocação, ressonância, tom, ambiência, acorde afetivo subjetivo e objetivo - o que é obviamente impossível“, esta impossibilidade linguística não exime da tarefa de trazer para o conceito a diversidade de todos estes significados.
A ligação que já tínhamos vislumbrado entre “mundo ambiente” e “ambiência” começa agora a tomar forma: é bem a ambiência, ou as ambiências, que caracterizam a nossa relação quotidiana com aqueles que nos rodeiam, feita de pessoas e coisas, que deve agora ser submetida à descrição fenomenológica. Cada situação tem uma determinada “ambiência” e dizer: “Falta ambiência 'aqui'” é ainda descrever uma “ambiência”, isto é, uma “atmosfera”. Ora, o paradoxo singular é que o mesmo termo alemão Stimmung também pode designar uma realidade “objetiva”, quer dizer a atmosfera de um lugar, de uma paisagem, de uma pintura (pense-se na pintura “atmosférica” de Caspar David Pinturas de Friedrich, por exemplo) e um fenômeno puramente “subjetivo”: o humor.
Na realidade, este tipo de esquema não poderia ser mais enganador, na medida em que sugere dividir o fenômeno entre um polo “objetivo” e um polo “subjetivo”, visto que estamos na presença de um fenômeno existencial que antecede à distinção entre objetivo e subjetivo. É por isso que provavelmente é melhor falar, neste contexto, de ser pático ou de uma existência pática. Toda a dificuldade da descrição fenomenológica reside precisamente no fato de que se trata de caracterizar uma relação com o mundo que precede a distinção entre objetivo e subjetivo. Pois, para ser uma coisa muito familiar e bem conhecida (quem não compreende espontaneamente o sentido do enunciado: “O chefe está de mau humor hoje”?), o fenômeno em questão nunca foi jamais descrito verdadeiramente por ele mesmo, e onde foi tentado, a análise foi pesadamente hipotecada por categorias ontológicas e psicológicas inadequadas. O que é afeto realmente, não sabemos ainda.
Aqui, nos deparamos com uma primeira decisão crucial: sim ou não, vamos dar aos afetos um verdadeiro significado ontológico? Ou vamos considerá-los, como parece natural, meros “estados mentais” subjetivos que nada nos ensinam sobre o ser, nem mesmo sobre o nosso própria maneira de ser? Na ótica heideggeriana, nenhuma hesitação é permitida. Se a finalidade da analítica existencial é esclarecer os múltiplos sentidos do existir, dito de outro modo, o sentido do “sum”, então devemos dizer que o afeto representa uma dimensão fundamental do “sou”. Os afetos, longe de serem simples “estados d'alma” de interesse puramente psicológico, têm o poder de revelação ontológica, em um sentido mais fundamental do que aquele do simples conhecimento. “Aí ser ou não aí ser” é agora a questão. Se amputamos a existência desta dimensão, ela se tornará incompreensível. Assim, por exemplo - este é o primeiro exemplo no texto - sentir-se “abatido” não apenas nos diz algo sobre nós mesmos, mas do ser. O ser tem o poder de nos abater, de nos pesar, de se revelar como um fardo (SZ:134).
O Hüttenexemplar (Exemplar da Cabana) comenta esta frase em uma nota marginal no sentido de uma problemática posterior, onde a tendência a ontologização dos afetos é ainda mais radicalizada: portar o fardo significa então “assumir a carga de seu pertecnimento ao ser mesmo”. Nesta interpretação, o parentesco semântico entre o termo Stimmung e a noção de Stimme, de voz, torna-se extremamente importante. Há uma “música das coisas” com a qual estamos mais ou menos sintonizados. Num importante estudo dedicado à noção de Stimmung, Leo Spitzer lembra a velha ideia de uma harmonia musical do mundo com a qual se trata de ressoar. Por trás dos deslizes semânticos, ele percebe mudanças culturais. Enquanto o pensamento antigo pensa junto as noções de “temperamentum” e de “concentus seu harmonia”, o pensamento moderno dissocia ainda mais os valores da Stimmung, do acorde e do temperamento. De um mundo “encantado”, passa-se então para um mundo cada vez mais “desencantado”.
Em tudo isso, a oposição conhecimento / afeto precisa ser examinada de perto, por suas questões ontológicas. A marca do conhecimento é a “distância cognitiva”, da qual a relação sujeito / objeto é a expressão canônica. A intencionalidade cognitiva pode ser descrita como o ato de um sujeito buscando alcançar um objeto. O afeto, por outro lado, envolve um modo totalmente diferente de compreensão. Poderíamos dizer que o que vem primeiro é o fenômeno do “contato”. Estamos tão perto da coisa que ela não pode assumir o rosto de um “objeto”. Nesse sentido, o afeto é uma manifestação básica de nosso ser-no-mundo que precede qualquer relação cognitiva.