c) Metafísica.
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Na ciência, o homem chega a assegurar-se do necessário. As coisas devem passar-se como se disse: seu movimento é conhecido, seu ritmo fixado, seu número descoberto. O homem toma assim poder e soberania sobre o mundo; ao elevar-se, ele domina; por abstrações sucessivas, ele abraça, ele tende a abraçar a totalidade do real.
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Em Física, ele negligencia os casos particulares para interessar-se pelas coisas da natureza, como tais, (a cada espécie de substâncias, corpóreas.)
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Em Matemática, ele se dedica a uma realidade cuja existência é essencialmente racional: o quântico.
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Metafísico, ele vai considerar não mais o “móvel” como tal, não mais o “número” como tal, mas o “ente” como tal: o só “fato de ser” se encontra doravante sob seu olhar, submetido a uma observação sistemática. Pois esse “fato de ser” tem suas leis, que o exame pode tentar descobrir. Desprendendo de tal ou tal existência particular seu interesse imediato, o metafísico se dedica à existência sob todas suas formas, em todos seus departamentos, para verificar a hipótese, descobrir a norma, em suma explorá-la “cientificamente” mantendo-se ao ponto de vista que escolhe, à exclusão dos outros.
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A teoria “física” porta sobre o ente móvel, e sobre sua mobilidade precisamente. A teoria “matemática” porta sobre o ente quântico -(e portanto eventualmente sobre o material), mas enquanto “quântico”. O saber metafísico porta sobre o existente como tal, ou seja, quaisquer que sejam os seres, sobre as leis do ser.
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O físico toma em mãos o estudo de um corpo: o ferro, o carbureto, a tintura de iodo, o bombardeamento atômico.
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O matemático não tem nada nas mãos — nenhum corpo, — ele manipula realidades desprendidas, como tais, de toda espécie de corpo (e significadas no quadro negro por símbolos).
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O metafísico não tem nada em mão, também; é a toda realidade porém que se apega, e a propósito de tudo que experimentando a existência ele empreende seu estudo.
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Esse estudo será científico, ainda que a um nível diferente das outras ciências, se reunir as duas condições que além de sua diferença de níveis permitem aos físicos e aos matemáticos dizerem-se igualmente “sábios”: a saber o processo apodítico (demonstração que faz prova, por via de discursus), e a firmeza da conclusão que resulta (por outras palavras a aproximação de duas ideias ou de dois fatos, cuja silogização se torna assim fecunda, permitindo uma descoberta específica daquilo que se com-prende desse modo).