FUCHS, Thomas; BREYER, Thiemo; MUNDT, Christoph (ORGS.). Karl Jaspers’ philosophy and psychopathology. New York: Springer, 2014.
5. Mitologias cerebrais
A crítica de Jaspers ao reducionismo numa perspectiva atual
Resumo
Karl Jaspers fundou a psicopatologia como ciência dotada de objeto e metodologia próprios sobre a recusa do reducionismo naturalista, que pretende reconduzir os fenômenos mentais e as doenças mentais ao substrato orgânico cerebral, sustentando contra ele que as anormalidades psíquicas têm caráter significativo e gestáltico, inesgotável por listas de sintomas tomadas como reflexos diretos de perturbações neurobiológicas, e opondo às mitologias cerebrais de sua época, com sua localização precipitada das funções mentais e sua absolutização da pesquisa causal, uma abordagem compreensiva baseada na revivência, na empatia e na relação interior do terapeuta com o paciente como semelhante, crítica cuja atualidade se confirma diante do atual paradigma neurobiológico da psiquiatria, embora a psicopatologia se tenha tornado insuficiente ao restringir-se ao domínio da subjetividade consciente, só podendo recuperar sua relevância se superar o subjetivismo da compreensão e conceber os próprios processos biológicos como social e historicamente constituídos.
5.1 Introdução
1. Jaspers é o fundador incontestado da psicopatologia como ciência com objeto e metodologia próprios, fundação apoiada essencialmente na recusa do reducionismo científico-natural que buscava reconduzir os fenômenos e transtornos mentais ao substrato orgânico do cérebro, reducionismo que corresponde ao anseio científico por explicações, mas privilegia a pergunta pelo porquê em detrimento da pergunta pelo quê e negligencia a descrição e a compreensão cuidadosas das variações patológicas da vida psíquica, ao passo que a psicopatologia parte do pressuposto de que também as anormalidades mentais possuem caráter gestáltico e significativo e não se esgotam numa lista de sintomas como reflexos de perturbações neurobiológicas, começando, diferentemente da neurologia, que correlaciona déficits isolados a lesões localizadas, onde a estrutura holística do psíquico e a constituição da experiência do mundo e de si como um todo se perturbam, o que exige uma apresentação fenomenológica da estrutura inteira do mundo vivido, só a partir da qual, compreendida a doença mental como modificação da constituição do mundo, se pode buscar sobre base metodologicamente segura as causas físicas, biográficas ou de outra ordem.
2. A psicopatologia do século XIX caracterizava-se pela disputa entre os partidários da abordagem psíquica, como Heinroth e Ideler, que buscavam as causas das doenças mentais num desvio da própria psique, frequentemente interpretado em termos morais ou religiosos, e os da abordagem somática, como Jacobi, Nasse e Friedreich, que negavam que a psique ou a mente pudessem adoecer e atribuíam a doença mental a efeitos físicos, de modo que ambas as escolas deixaram de conceber o adoecer mental segundo suas próprias estruturas, pela tentativa de realizar a experiência e o comportamento do paciente, e o trataram apenas como sintoma de causas psíquicas ou somáticas, ignorando igualmente a dimensão fenomenológica.
3. Já na introdução da Psicopatologia geral Jaspers se opõe à abordagem somática de seu tempo e à redução de tudo à fisiologia cerebral, propondo uma psicopatologia que em seus conceitos, métodos e perspectiva geral não se escravize à neurologia e à medicina com base no dogma de que o transtorno psíquico é transtorno cerebral, formulado por Griesinger em 1861, dogma que leva os psiquiatras a supor que o conhecimento exato do cérebro bastaria para conhecer a vida psíquica e suas perturbações, a abandonar os estudos psicopatológicos como não científicos e a atribuir validade apenas aos processos cerebrais, à constituição, à fisiologia e aos experimentos de uma psicologia objetiva que exclui tanto quanto possível a vida psíquica.
4. A crítica jaspersiana dirige-se com igual severidade à abordagem psíquica da psicanálise freudiana, na qual vê uma tendência especulativa e ideológica de desmascarar as experiências conscientes como ilusões e autoenganos, crítica que, embora desconheça a dimensão hermenêutica da psicanálise e as possibilidades de compreensão ampliada que ela abre, nasce do mesmo impulso de afirmar a psicopatologia e a experiência primária do doente mental como campo independente de conhecimento fenomenológico e de defendê-lo contra o reducionismo biológico e psicológico, limitando a descrição ao que está presente na consciência dos pacientes, sem especulações, teorias fundamentais ou postulados, e opondo-se a toda absolutização de métodos de pesquisa como únicas objetividades válidas, em favor da compreensão significativa contra o biologismo, o mecanicismo e a técnica, de modo que, no espírito husserliano do retorno às coisas mesmas, a psicopatologia deve abandonar o mundo teórico secundário de um suposto ser verdadeiro e voltar à realidade plenamente presente.
5. Em conformidade com os paradigmas psiquiátricos dominantes de sua época, a crítica principal de Jaspers visava ao reducionismo biológico, confronto cujo exame aprofundado permite avaliar sua atualidade para a psiquiatria e a neurociência contemporâneas.
5.2 A crítica de Jaspers ao reducionismo biológico
5.2.1 O viés somático
1. No final do século XIX a psiquiatria conformava-se ao paradigma científico-natural triunfante em toda a medicina desde 1850, concentrando-se na busca de causas somáticas das doenças mentais por meio da neuroanatomia, da neuro-histologia, da neurofisiologia e da neuropatologia e na crença de poder atuar sobre as perturbações mentais por terapias somáticas, enquanto a maioria dos psiquiatras considerava a psique e a psicologia suplantadas pela fisiologia, a ponto de Meynert, discípulo de Griesinger, rejeitar a expressão doenças mentais e falar apenas de uma clínica das doenças do prosencéfalo.
2. Por volta de 1900 a euforia inicial da abordagem somática começou a vacilar, pois muitos resultados esperados não se produziram, a descoberta da sífilis como causa da paralisia progressiva não pôde ser estendida a outras psicoses e o paradigma somático não ofereceu explicação satisfatória para a maioria dos transtornos mentais nem tratamentos eficazes, difundindo-se entre os psiquiatras, como Jaspers recordaria, a consciência de uma estagnação da pesquisa e o pessimismo terapêutico, situação com que ele se deparou ao elaborar em Heidelberg seu novo sistema de psicopatologia.
3. O viés somático que ameaça a psiquiatria pressupõe implicitamente que a realidade efetiva da existência humana é um evento somático e que o homem só é compreensível em termos somáticos, sendo a menção à psique mero tapa-buraco teórico sem valor científico, atitude que leva à identificação precipitada de fatos morfológicos ou fisiológicos com experiências mentais e a construções aventurosas que Jaspers chama de mitologias cerebrais, reformulando fatos científico-naturais em enunciados sobre a psique, a pessoa ou as doenças mentais numa extensão indevida do domínio de validade do mundo físico e ignorando a independência do domínio mental, que só se revela a uma compreensão de orientação humanística, já que a medicina somática trata o indivíduo apenas como criatura natural, examinando seu corpo como o de um animal, ao passo que a psicopatologia se confronta com o indivíduo como criatura da cultura, sendo as doenças mentais, diferentemente das afecções cerebrais e nervosas que também acometem os animais, especificamente humanas, de modo que a psicopatologia é não apenas biologia, mas também ciência humana.
5.2.2 A localização do mental
1. Na crítica ao reducionismo somático, Jaspers opõe-se especialmente a toda tentativa precipitada de localizar processos mentais em áreas cerebrais e de tomar processos cerebrais conhecidos como bases diretas de eventos psíquicos particulares, já que todas as tentativas de localização desde o século XVIII se basearam no pressuposto irrefletido de que a organização da vida psíquica corresponderia à estrutura do cérebro, pressuposto inverificável e sem sentido, pois o heterogêneo não pode coincidir e um pode no máximo servir de expressão metafórica do outro, permanecendo a realidade temporal e processual do mental incomensurável com a espacialidade da forma cerebral.
2. Tais construções somáticas carecem de base real, pois não se conhece nenhum processo cerebral específico paralelo a um fenômeno psíquico específico, e a localização das áreas sensoriais no córtex e das afasias no hemisfério esquerdo significa apenas que esses órgãos devem estar intactos para que certo evento psíquico seja possível, à semelhança da necessidade de funcionamento intacto do olho ou do aparelho motor, igualmente instrumentos essenciais.
3. Os déficits correlacionados a lesões cerebrais localizáveis não provam a localizabilidade da função correspondente, pois as localizações estabelecidas pelo estudo de lesões indicam apenas centros de perturbação e não centros de desempenho, revelando-se o localizado apenas como instrumento da mente e não como a própria mente, de modo que se conhecem apenas fatores condicionantes da vida psíquica e nunca a causa, mas apenas uma causa, do evento psíquico, cuja realidade pode depender de infinitas relações entre muitas partes sem localizar-se essencialmente num centro, já que todo psíquico é sempre evento total, não composto de funções parciais, servindo-se das funções como instrumentos cuja afecção torna impossível o evento em sua totalidade, e funções psíquicas elementares localizáveis são desconhecidas.
4. A totalidade da vida mental não pode ser montada a partir de funções parciais localizáveis, e igualmente sem sentido é localizar no cérebro a consciência ou a mente como um todo, pois não pode haver uma sede fundamental da psique, noção ligada à absolutização dos processos cerebrais como substância da pessoa e à tomada de todo acontecer humano como acontecer cerebral, quando do ponto de vista fenomenológico as doenças cerebrais são apenas uma entre muitas causas de perturbação psíquica e a ideia de que todo psíquico é ao menos parcialmente condicionado pelo cérebro, embora correta, é geral demais para significar algo, sendo a única coincidência experienciável de mente e corpo a dos eventos de expressão, nos encontros corporais concretos em que se percebe diretamente na aparência corporal do outro sua psique, ao passo que, uma vez separados corpo e mente, jamais se volta a encontrar sua coincidência.
5.2.3 O conhecimento causal não deve ser absolutizado
1. A crítica de Jaspers ao paradigma biológico liga-se à sua conhecida contraposição entre psicologias compreensivas e explicativas, atribuindo de um lado papel significativo às explicações causais na psicopatologia e opondo-se de outro à absolutização do conhecimento causal, para a qual todo transtorno mental seria apenas sintoma de um processo cerebral pesquisável e todo interesse psicológico, por exemplo pela esquizofrenia, se tornaria obsoleto assim que suas causas somáticas fossem descobertas, posição à qual o psicopatólogo fiel a seu dever primário contrapõe o primado da compreensão, oposição que se estende à prática terapêutica, pois a necessidade de causalidade funda-se sobretudo no anseio pelo maior poder terapêutico, motivação justificada na medida em que intervenções médicas atuam diretamente sobre causas materiais acessíveis, mas problemática porque o conhecimento causal do incompreensível pode influenciar decisivamente a terapia por medidas nas quais a psique necessitada de ajuda não precisa tomar parte ativa.
2. Em contraste com essa terapia causalmente eficaz mas absolutamente impessoal, Jaspers defende a terapia pela influência pessoal sobre as reflexões e resoluções interiores do doente, pois o pensamento causal e descritivo, eficaz com base no conhecimento geral, tende a desviar do encontro concreto com o paciente individual, tratado apenas como caso de aplicação de um princípio geral, ao passo que a abordagem compreensiva se funda na revivência, na empatia e na relação interior do terapeuta com o paciente como ser humano, já que o pensamento causal incide sobre o estranho, o incompreensível e o manipulável e a compreensão do sentido incide sobre o próprio sujeito no outro, encontrando o homem sadio que mantém sua psique aberta, no doente, aquilo que ele potencialmente é, e nesse encontro a mais intensa apresentação do inteiramente individual.
5.3 A relevância atual da crítica de Jaspers
1. A disputa de Jaspers com o reducionismo de sua época antecipa posições presentes nos paradigmas biológicos dominantes da neurociência e da psiquiatria atuais, que, embora muito mais sofisticados que a rudimentar teoria localizacionista de 1900, mantêm o mesmo pressuposto primário de atribuir ao mental significado apenas sintomático e de tratar todo conhecimento psicológico ou fenomenológico como descrição provisória do que realmente ocorre, processos materiais no nível neuronal, conferindo à neurociência prioridade sobre a fenomenologia e a psicologia na descrição de experiências e comportamentos, segundo o princípio de que o homem só é compreensível em termos somáticos.
2. A advertência de Jaspers de que não se conhece nenhum evento físico no cérebro que possa ser considerado contrapartida idêntica de um evento psíquico mórbido permanece válida na era das técnicas de imagem, pois no cérebro não se descobrem experiências conscientes, mas apenas processos ou correlatos neuronais a elas atribuídos, atribuição em que a neurociência pode incorrer em localização precipitada e numa nova frenologia, já que a atividade de certos módulos neuronais constitui condição necessária de uma função quando ativada por ela ou quando sua lesão a prejudica, sem que se possa concluir que esses módulos sejam condições suficientes da função, que pode envolver regiões cerebrais inteiramente diversas, exigindo funções mais complexas a integração de redes e centros diferentes e espacialmente dispersos, de modo que se conhecem apenas fatores condicionantes e nunca a causa do evento psíquico.
3. As diferenças necessárias na relação entre processos cerebrais singulares e a estrutura inteira da psique são frequentemente negligenciadas na expectativa de uma explicação biológica universal, como já em 1925, quando Karl Kleist rejeitou a abordagem de Jaspers.
4. Segundo Kleist, todos os processos psíquicos se fundiriam com os orgânicos quando se compreendesse melhor que as conexões significativas da vida psíquica, tão valorizadas por Jaspers, são acompanhadas sem exceção por sintomas neuropatologicamente explicáveis.
5. A afirmação de Kleist, no entusiasmo de sua formulação, de que todo processo mental compreensível seria neuropatologicamente explicável é ironicamente partilhada por um psiquiatra atual.
6. Segundo Maier, os conceitos fundamentais de aprender, pensar, imaginar e perceber se tornarão compreensíveis, como os desvios dos padrões fisiológicos de processamento, como perturbações das funções cerebrais representáveis por imagem médica como estados e processos do cérebro, de modo que os transtornos psíquicos se converterão cada vez mais em transtornos das funções cerebrais, sem diferença fundamental em relação a outras doenças do sistema nervoso central.
7. Tais pontos de vista mostram as consequências de uma abordagem biológica reducionista, pois, se ansiedade, compulsão, depressão ou esquizofrenia forem essencialmente apenas transtornos neurobioquímicos, a psiquiatria se tornará ramo especializado da neurologia, os psiquiatras especialistas em cérebro e a psicopatologia se esgotará numa lista de sintomas concebidos como meros reflexos de perturbações do substrato biológico, sem que se atribua significado ou sentido próprio aos fenômenos mentais e aos processos da doença, tratados como os acidentes vasculares e as síndromes neurológicas de déficit.
5.4 Limites da posição de Jaspers
1. A crítica de Kleist atinge ao mesmo tempo um ponto problemático da posição jaspersiana, a retirada do fundamento primeiro da psicopatologia para o refúgio da subjetividade consciente, pois, na tentativa de demarcar a esfera fenomenal da psicopatologia e conter as explicações causais do mental, Jaspers entrega toda a esfera do inconsciente e do substrato orgânico ao princípio científico-natural da causalidade.
2. Segundo Jaspers, a investigação causal penetra cada vez mais fundo nos fundamentos extraconscientes da vida psíquica, enquanto a psicologia do sentido permanece por definição na consciência e termina onde esta termina, só podendo o extraconsciente ser encontrado no mundo como algo somático.
3. O dualismo jaspersiano entre compreender e explicar provém de um dualismo em última instância cartesiano entre psíquico e corporal, no qual a corporeidade permanece estranha a toda compreensão, de modo que as conexões significativas da vida psíquica correm o risco de ser tratadas pelos neurobiólogos como epifenômenos superficiais, e Jaspers nem buscou motivos compreensíveis nos processos inconscientes e na formação dos sintomas, como fizera a psicanálise, nem pôde, por seu dualismo, conceber ou postular o efeito dos processos mentais sobre os neurológicos, persistindo a subjetividade como cidadela inexpugnável cujo estudo os psicopatólogos fenomenológicos podiam prosseguir à vontade, mas sob o risco de perder relevância para o desenvolvimento da psiquiatria diante do crescente domínio das explicações causais, de modo que a perda da experiência psicopatológica hoje diagnosticada por toda parte tem ao menos parte de suas raízes nos pressupostos dualistas da psicopatologia jaspersiana.
4. A dicotomia entre explicar e compreender mostra-se hoje insustentável nessa forma por duas razões, primeiro porque, ao menos desde A estrutura das revoluções científicas de Kuhn, se impôs na teoria da ciência a visão de que a dimensão causal e explicativa das ciências está submetida a paradigmas historicamente cambiantes que incorporam estruturas socioculturais de pensamento compreensíveis apenas por comparação hermenêutica, e segundo porque a descoberta da neuroplasticidade, isto é, dos efeitos de experiências subjetivas e intersubjetivas, como nos processos psicoterapêuticos, sobre a estrutura neural, evidenciou que causas e significados, o explicável e o compreensível, só são compreensíveis em constante interação, perdendo a distinção dicotômica de Jaspers sua seletividade diante de uma relação circular entre influências da psique e influências de seu substrato cerebral, a ser descrita biológica e hermeneuticamente.
5. Os avanços da neurociência e da psicofarmacologia impeliram recentemente a psiquiatria para as explicações causais, sem que um modelo naturalista unificado dos transtornos mentais esteja à vista, e justamente a dependência do cérebro em relação ao mundo psicossocial abriu, num movimento dialético de retorno do pêndulo, nova apreciação de seu caráter de órgão histórica e socialmente constituído e portador de sentido, que traduz incessantemente processos biológicos e experiências intersubjetivas uns nos outros, tornando a neurobiologia e a psiquiatria cada vez mais dependentes da integração de abordagens filosóficas, biográfico-hermenêuticas, socioculturais e sistêmicas, pois, sendo o cérebro o órgão das traduções ou transformações recíprocas entre esferas da realidade acessíveis apenas sob aspectos diversos, não pode ser adequadamente apreendido num único paradigma, cabendo à compreensão hermenêutica a nova e abrangente tarefa de possibilitar a comunicação entre as perspectivas e linguagens hoje incomensuráveis com que se busca apreender científica e clinicamente o adoecer mental, de modo que a psicopatologia só recuperará a importância legitimamente reivindicada por Jaspers se transcender o subjetivismo da compreensão e compreender também os processos biológicos cerebrais como social e historicamente constituídos.