4 Pessoa e cérebro

FUCHS, Thomas. In defense of the human being: foundational questions of an embodied anthropology. Oxford: Oxford University press, 2021.

Introdução

1. A pergunta inicial indaga se o que constitui uma pessoa se encontra no cérebro e se percepções, pensamentos, sentimentos e desejos aparecem nas imagens coloridas dos processos cerebrais, de modo que o amor, a felicidade ou a culpa sentidos por uma pessoa seriam em última análise estados neurais, pretensão que a neurobiologia, ao menos em sua interpretação atualmente dominante, sustenta, tornando-se para o neurobiólogo uma vista para dentro do crânio uma vista para o mais íntimo da pessoa, para seus desejos e medos, sua felicidade e seu sofrimento.

2. Para a neurobiologia, o cérebro se torna o novo sujeito, o pensador de nossos pensamentos e o fazedor de nossas ações, e a própria subjetividade passa a ser apenas uma ilusão útil, como quando se afirma que a experiência subjetiva é um formato biológico de dados, um modo altamente específico de apresentar informação sobre o mundo fazendo-a parecer conhecimento de um Ego, embora não existam selves no mundo.

3. Outra ilustração popular dessa visão é o experimento mental do cérebro num tanque introduzido por Hilary Putnam no debate mente-cérebro, segundo o qual, se fôssemos apenas cérebros numa solução nutritiva adequadamente estimulados por um computador, não notaríamos o fato, pois o cérebro alucinaria um sujeito e um mundo que se assemelhariam completamente ao nosso mundo experienciado, numa ilusão perfeita como o mundo gerado por computador do filme Matrix, e Metzinger também considera a percepção visual ordinária uma espécie de alucinação online, um filme em tecnicolor produzido pelo cérebro, que em princípio poderia ocorrer sem olhos e até num cérebro desencarnado num tanque.

4. O experimento mental do transplante de cérebro parece levar a resultado comparável, pois se o cérebro da pessoa A fosse transplantado para o corpo da pessoa B, não seria B que receberia um novo cérebro, mas A um novo corpo, já que onde está o cérebro deve estar também a pessoa, e esse simples fato, diz o neurocientista Gazzaniga, deixa claro quem somos.

5. John Locke, em seu Ensaio sobre o Entendimento Humano, define a pessoa como um ser pensante e inteligente que tem razão e reflexão e pode considerar a si mesmo como si mesmo, a mesma coisa pensante em tempos e lugares diferentes, consistindo consequentemente a identidade pessoal na continuidade da memória e da autoconsciência, na medida em que essa consciência pode se estender para trás a qualquer ação ou pensamento passado, até onde alcança a identidade daquela pessoa.

Crítica do Sujeito Cerebral

1. Na crítica deve-se primeiramente mostrar que a subjetividade não se encontra dentro do corpo, isto é, não pode ser identificada com o cérebro, e mais ainda vale para o conceito de pessoa que ele escapa a uma compreensão neurobiológica.

Subjetividade e Intencionalidade

1. A pergunta é se o cérebro é o locus da subjetividade e da consciência, e convém começar pela conhecida comparação de Leibniz em sua Monadologia, segundo a qual, supondo-se uma máquina construída para pensar, sentir e ter percepção, concebida como aumentada de tamanho mantendo as mesmas proporções de modo que se pudesse entrar nela como num moinho, ao examinar seu interior encontraríamos apenas peças que agem umas sobre as outras e nunca algo com que explicar uma percepção.

2. Isso ainda vale hoje, pois quem examina o cérebro de um ser humano encontra células nervosas e processos eletroquímicos, mas nunca o medo ou a dor da pessoa, suas sensações ou pensamentos, e nem neurônios, nem centros cerebrais, nem cérebros como um todo são sujeitos de uma experiência, pois o córtex visual é sem dúvida necessário para ver mas ele mesmo nada vê, porque ver, perceber e sentir são atividades de seres vivos, e cães, gatos e humanos veem algo, não seus cérebros, e quem tenta encontrar o ver dentro de um ser vivo já o perdeu de vista por olhar demasiado de perto.

3. Assim, quando pesquisadores do cérebro afirmam que a consciência está sem dúvida localizada no cérebro, incorrem numa falha de categoria, pois são as pessoas que são conscientes, não os cérebros, e o fato de não podermos ver a consciência mas apenas pessoas conscientes não significa que a experiência se encontre num lugar oculto no interior.

4. A consciência não é de modo algum um objeto localizável para o qual se pudesse apontar como se aponta para uma pedra ou uma maçã, mas uma relação entre sujeito e mundo, uma percepção de algo, uma fala com alguém, um desejo de algo, isto é, um processo dirigido que abre um mundo, e essa relação intencional de sujeito e mundo não pode ser reificada nem trancada dentro do crânio, de modo que a comparação de Leibniz já mostra que a pergunta mesma é mal formulada.

5. Uma segunda objeção pergunta se a experiência subjetiva é afinal objetificável e se pode ser descrita em termos objetivos, por exemplo neurobiológicos, e Thomas Nagel mostrou que toda experiência subjetiva está atada a uma perspectiva centrada que não pode ser reconstruída numa descrição objetiva e física, perguntando como é sentir exatamente esta dor, experienciar este medo.

6. Pode-se descrever o fato de eu estar sentindo dor também de uma perspectiva de terceira pessoa, a saber, como determinado padrão de atividade neuronal em meu cérebro, mas não, pois mesmo a reformulação de que Thomas Fuchs está agora com dor já não expressa o fato de que é a minha dor e de que sou eu quem sofre com ela.

7. Mesmo que essa afirmação fosse confiavelmente verdadeira em todos os casos da perspectiva de terceira pessoa, por exemplo com base na observação simultânea de meus processos cerebrais, ainda faltaria a característica decisiva da subjetividade, a saber, que sou eu mesmo precisamente o Thomas Fuchs a quem o enunciado se refere, e isso valeria ainda mais para uma descrição exata de todos os processos físicos em meu cérebro, pois em nenhuma dessas descrições se encontraria a minha-idade ou a dorosidade de minha dor.

8. Entre os dois modos de falar sobre a dor há um abismo categorial, pois a realidade de minha dor é de um tipo fundamentalmente diverso da realidade de fatos objetivos físicos e, em certo sentido, é até mais real que estes.

Corporeidade

1. As objeções contra o neuroreducionismo mencionadas até aqui se baseiam na irredutível intencionalidade e subjetividade da consciência pessoal, mas o alcance do conceito de pessoa ainda não se esgotou, e o fato de que o curso de vida de uma pessoa não pode ser identificado com processos cerebrais se torna ainda mais evidente quando se olha além da consciência pura para a realidade viva da pessoa, que claramente repousa sobre sua corporeidade, não apenas no sentido de que a consciência pressupõe um corpo funcional, mas também no sentido de que as pessoas se realizam e se representam em seu corpo e de que podemos identificá-las por sua aparência física cada vez que as encontramos.

2. A maioria de nossas atividades está atada ao meio do corpo, pois para poder sentir, ouvir, ver ou falar obviamente não precisamos apenas de um cérebro mas de um corpo que sente, ouve, vê e fala, e não é que com isso usemos o corpo como mero instrumento externo, pois quando danço uma valsa não ponho meus membros em movimento de fora, mas eu mesmo sou quem dança, embalando-me ao ritmo da música e executando meus movimentos cinestesicamente.

3. Um dançarino, ator ou pianista experiente dificilmente teria a ideia de se identificar com sua cabeça ou cérebro, pois meu corpo possui sua própria intencionalidade operativa, e seus movimentos são significativos, propositais e adaptados ao ambiente sem que eu tenha de controlá-los de fora.

4. Naturalmente isso também exige disposições neurais correspondentes, a saber, padrões de sequências de movimento no córtex motor, no cerebelo e nos gânglios da base, mas mesmo essas não controlam nem determinam meus membros como se fossem meros órgãos executores, pois as próprias funções neuronais estão embutidas na interação constante entre o movimento corporal, a reação e resistência do ambiente e a percepção cinestésica, tátil e visual.

5. O corpo, com seus sentidos e membros, é o verdadeiro jogador em campo, enquanto o cérebro atua como mediador que conecta e modifica continuamente essas interações de retroalimentação, e eu danço e me movo como ser vivo e corporal mediado por meu cérebro, mas não ponho meus membros em movimento a partir do cérebro como um homúnculo.

6. Minha corporeidade molda portanto fundamentalmente também meu modo pessoal de ser no mundo, pois encontrar-me como este corpo, ter esta forma e constituição, ser criança ou adulto, homem ou mulher, pequeno ou grande, saudável ou deficiente, é o ponto de partida de toda experiência de si e do mundo, e inversamente o desenvolvimento individual não se reflete apenas num caráter ou estrutura de personalidade psíquica, pois o corpo é também o portador e a expressão da biografia individual, tendo e conhecendo sua própria história.

7. É o que se pode chamar de memória corporal, pois desde o nascimento as experiências que a criança tem com pessoas e coisas se sedimentam como padrões de comportamento, habilidades e hábitos, e essa memória corporal, implicitamente eficaz em cada ação e comportamento, constitui o habitus individual de uma pessoa, seu modo pessoal de viver no mundo e de lidar com os outros.

8. A pessoa se forma em e através de seu corpo, aparecendo nele cada vez mais clara e individualmente, e seu ser é devir contínuo, e esse devir é cada vez mais um fazer, de modo que o corpo não é uma casca atrás da qual a pessoa se esconde e que é indicada apenas simbolicamente, mas as atitudes, o comportamento e os hábitos de uma pessoa são sempre simultaneamente atitudes, padrões de movimento e disposições de seu corpo, até o estilo característico da marcha, dos gestos e das expressões faciais, da articulação e da prosódia.

9. Reconhecemos uma pessoa por sua postura e comportamento, e sua corporeidade faz parte de sua personalidade, de sua identidade, não sendo apenas características internas, psicológicas ou mentais mas também o corpo individual que constitui a pessoa.

10. Somos portanto pessoas corporificadas também uns para os outros, pois não percebemos o outro como objeto material de cujos movimentos externos inferimos um habitante interior oculto como numa cápsula, mas o corpo é antes a aparência viva e animada da pessoa, e nele a pessoa se apresenta e se manifesta, pois em seu olhar vejo a outra pessoa mesma, ao tomar sua mão em saudação dou ao outro minha mão, e em suas palavras ouço a pessoa mesma.

11. Se a pessoa estivesse em algum lugar dentro do corpo, veríamos apenas olhares vazios e em vez de palavras ouviríamos apenas sons nos quais ninguém fala e que teríamos de supor sinais de um mundo interior inacessível, mas as pessoas são o fenômeno primordial, aquilo que se mostra e que está ele mesmo presente em sua aparência.

Interpessoalidade

1. A identificação de pessoalidade e cérebro se torna completamente absurda quando se considera a pessoa em sua relacionalidade constitutiva, isto é, em relações sociais, pois as relações familiares e de parentesco de uma pessoa, seus papéis sociais como gênero, profissão ou status, estão inseparavelmente ligados ao conceito de pessoa.

2. Não é por acaso que a palavra pessoa provém do mundo do teatro, pois como se sabe a persona antiga era a máscara ou papel teatral e, derivado disso, o papel de um indivíduo na sociedade, e quer essa relacionalidade seja entendida de modo radical, como em Buber ou Löwith, segundo os quais a pessoa só se torna pessoa como tal pela participação em relações sociais, quer seja simplesmente considerada traço-chave da pessoalidade, o conceito certamente não se restringe ao indivíduo, pois ser pessoa é ocupar um lugar num campo onde outras pessoas têm seus lugares.

3. Pessoas só existem no plural, e a identidade pessoal não repousa numa interioridade autossuficiente mas é necessariamente de natureza relacional, pois não preciso procurar muito longe os outros, encontro-os em minha experiência, a saber, nos padrões de relação, modos de reação e preferências que compõem minha personalidade, e de modo algum estamos trancados dentro de nós mesmos.

4. A natureza intersubjetiva da pessoa vale em igual medida para a característica muitas vezes tida como prova especial da individualidade de alguém, a saber, a autoconsciência, que é também uma conquista que requer comunidade e interação com outros, pois como escreve Jaspers eu só existo em comunicação com o outro, e uma consciência isolada seria sem comunicação, sem pergunta e resposta, portanto sem autoconsciência, devendo reconhecer-se no outro si.

5. Isso já vale para o desenvolvimento na primeira infância, pois no curso do primeiro ano de vida o bebê aprende primeiro a captar que os outros são como eu, imitando-os e comunicando-se com eles pré-linguisticamente, e reconhecer-se assim nos outros é precondição da capacidade de tomar a perspectiva dos outros e de autorrefletir que as crianças adquirem no curso de novas interações práticas e linguísticas, aprendendo a ver a si mesmas pelos olhos dos outros.

6. Essa dinâmica interativa se reflete permanentemente na estrutura da pessoalidade, na medida em que uma autoconsciência desenvolvida internalizou as relações com outros mas ainda contém a intersubjetividade como momento constitutivo, porque a relação consigo implica a capacidade de ver a si mesmo da perspectiva do outro generalizado e de falar consigo como outro falaria com você.

7. Nesse sentido Platão já entendia os pensamentos como a conversa interior da alma consigo mesma, que se dá sem voz, e a mobilidade de perspectiva e a capacidade de refletir são assim o resultado de um movimento originalmente interativo, por assim dizer um reflexo organizado de experiências de interação.

8. Nesse aspecto a estrutura básica da pessoalidade não deve ser entendida de modo puramente individualista ou substancialista mas apenas como estrutura dinâmica e aberta, pois a autoconsciência é uma fala consigo que sempre inclui implicitamente outros, e é óbvio que essa estrutura complexa, autorreferencial e intersubjetiva da consciência de si escapa a uma redução a atividades cerebrais locais, mesmo que a pesquisa cerebral goste de falar de modelos de si, módulos de si e áreas cerebrais correspondentes.

Crítica do Localizacionismo

1. A crítica anterior ao sujeito cerebral se dirigia à falha de categoria de identificar uma parte com o todo, a saber, o cérebro com a pessoa, que Bennett e Hacker chamaram de falácia mereológica, e o psiquiatra Erwin Straus certa vez o resumiu dizendo que é o homem que pensa, não o cérebro, mas resta perguntar o que então vemos nas coloridas imagens de neuroimagem em que certas estruturas mostram atividade neuronal aumentada e se elas ao menos não nos mostram os correlatos materiais de nossos processos mentais.

2. Aqui se trata de uma segunda falácia de localização, a saber, a identificação de atividades conscientes com processos cerebrais locais, como se no córtex visual se produzissem supostamente as percepções visuais, na amígdala o medo, no lobo temporal as memórias, havendo sempre novas áreas para todos os tipos de fenômenos psíquicos, dor, luto, empatia, alegria maliciosa, preconceito racial, engano consciente e até traços de personalidade.

3. Esse programa de pesquisa se baseia primordialmente em neuroimagem que representa in vivo, por assim dizer, as atividades cerebrais específicas, e as imagens sugestivas da atividade cerebral ao perceber, ao sentir ou ao pensar tornam demasiado fácil identificar tais atividades com processos neuronais locais.

Crítica da Neuroimagem

1. Mas a evidência das imagens é enganosa, pois primeiramente as técnicas não medem a atividade neuronal mesma mas apenas parâmetros indiretos, como na ressonância magnética funcional o aumento do fluxo sanguíneo e do consumo de oxigênio em certas áreas do cérebro.

2. De fato não se trata de imagens do cérebro, mas de visualizações de construtos estatísticos formados a partir dos valores médios obtidos de geralmente cerca de 10 a 20 sujeitos de teste, já que é quase impossível obter resultados significativos individualmente devido às diferenças extremamente pequenas de atividade.

3. Além disso, a atividade de base do cérebro é determinada previamente e subtraída dos valores medidos para garantir que apenas os níveis de atividade localmente aumentados apareçam na imagem, e naturalmente não está de modo algum claro se os fenômenos experienciais investigados correspondem efetivamente às estruturas cerebrais mais ativas.

4. O cérebro é inegavelmente especializado regionalmente, isto é, diferentes áreas e centros cumprem diferentes funções, mas ao mesmo tempo toda outra região do cérebro, onde nada parece acontecer durante a imagem funcional, está ativa e participando de modos diversos da experiência global.

5. O que as imagens realmente mostram e o que acontece no cérebro quando experienciamos algo exige na verdade interpretação cuidadosa, e além disso os registros feitos na pesquisa cerebral são criados em situações de laboratório, e as relações entre os processos de consciência e o contexto ambiental, junto com sua sequência temporal, são em geral ignoradas.

6. Esses aspectos, relacionalidade, intencionalidade e temporalidade, são porém características essenciais da consciência, e se tomarmos todas essas limitações metódicas em conjunto, os dados sobre as atividades metabólicas locais do cérebro podem até certo ponto revelar sua especialização funcional, mas não podem fornecer mais que indicadores para processos psicológicos, pois figuradamente só se vê a fumaça e não o fogo, e da fumaça apenas um instantâneo.

7. Assim, se pesquisadores do cérebro afirmam que são capazes de ler pensamentos no cérebro, deve-se primeiro afirmar que processos metabólicos não são pensamentos, e é verdade que hoje é tecnologicamente possível atribuir a distribuição específica da atividade cerebral a certas categorias de objetos, cores ou coisas semelhantes em que uma pessoa está pensando em determinado momento.

8. Para isso os objetos são primeiramente apresentados à pessoa repetidamente e então os dados coletados na ressonância são mediados por processamento computacional intensivo de modo que é altamente provável que se deduza de padrões de atividade um entre vários conteúdos de pensamento alternativos, e o mesmo vale para a possível diferenciação de operações simples de pensamento como somar versus subtrair, afirmar ou negar.

Pessoalidade como Subjetividade Corporificada

1. Não encontraremos nossas experiências no cérebro, nem mesmo correlatos neuronais suficientes para elas, por mais indispensável que seja a atividade cerebral, e cabe então perguntar como se deve entender adequadamente a relação entre pessoa e cérebro.

2. Dissemos que o ser humano pensa, sente, percebe e age, não o cérebro, e o ser humano é primeiramente um organismo vivo, um ser de carne e osso, o que corresponde também ao entendimento clássico da pessoa como unidade de corpo e mente, pois pessoas só existem como sujeitos corporificados, isto é, como seres vivos.

3. Para as neurociências atuais, porém, o corpo desempenha papel muito subordinado, permanecendo uma espécie de veículo fisiológico para o cérebro, no qual o mundo interior incorpóreo da consciência supostamente surge, mas esse cerebrocentrismo negligencia as inter-relações e circuitos em que o cérebro está situado, como se se examinasse o coração sem a circulação ou os pulmões sem o ciclo respiratório.

4. A razão disso é que as neurociências não têm conceito de organismo vivo e ainda estão presas à metáfora computacional da mente, como se a consciência pudesse saltar de processos computacionais neuronais se fossem suficientemente complexos, e o que falta aqui já foi reconhecido no século XIX por Ludwig Feuerbach.

5. Feuerbach afirmava que não é nem a alma que pensa e sente nem o cérebro, pois o cérebro é uma abstração fisiológica, um órgão removido da totalidade, separado do crânio, do rosto e do corpo como um todo e fixado para si, mas o cérebro só é um órgão do pensamento enquanto está conectado com uma cabeça e um corpo humanos.

6. Assim, só a pessoa viva pode pensar e sentir, e nas últimas duas décadas se desenvolveu nas ciências cognitivas e neurais uma nova direção que traz essas inter-relações para o primeiro plano, o paradigma da cognição corporificada, que considera a subjetividade corporificada em todo o organismo e embutida no ambiente, de modo que a consciência não está localizada no cérebro mas se estende pelo corpo percebido até o ambiente relevante para nós em cada caso.

Cérebro, Corpo e Ambiente

1. A experiência consciente se baseia em duas interações contínuas, a saber, entre cérebro e corpo e entre cérebro, corpo e ambiente, e toda consciência se baseia primordialmente na interação constante do cérebro com o resto do organismo, isto é, nos sinais dos membros, músculos, coração, circulação e intestinos, e não menos no meio bioquímico do sangue e do líquido cefalorraquidiano em que o cérebro está embutido.

2. Sinais desses sistemas periféricos são processados no tronco encefálico, no diencéfalo e nos centros cerebrais superiores, enquanto inversamente sinais neuronais e neuroendócrinos regulam constantemente a periferia e o meio interno do corpo, e essa interação circular do cérebro e de todo o organismo forma a base de uma experiência corporal de fundo que sempre nos acompanha, quer estejamos percebendo, pensando ou fazendo algo.

3. Trata-se do sentimento da vida mesma, com a tonalidade de bem-estar ou mal-estar, prazer ou desprazer, frescor ou exaustão e outros humores básicos que já contêm uma auto-experiência pré-reflexiva, um como é de algo.

4. Os sentimentos primordiais de estar vivo refletem o estado atual do corpo ao longo de dimensões variadas, por exemplo na escala que vai do prazer à dor, e se originam no nível do tronco encefálico e não do córtex cerebral, e é verdade que nossa atenção se concentra sobretudo em percepções, imaginações ou pensamentos, o que pode nos levar a crer que essas funções são a atividade efetiva da consciência, mas todas as realizações intencionais superiores permanecem sempre embutidas na auto-experiência corporal basal.

5. A manutenção da homeostase, isto é, do meio interno e portanto da viabilidade do organismo, é a função primária da consciência, como se manifesta no instinto, na fome, na sede, no desejo ou na aversão, e pode-se também formular que processos de vida e processos de experiência estão inseparavelmente ligados, pois como seres conscientes somos ao mesmo tempo seres vivos e corporificados.

6. Do mesmo modo as emoções, que estão no cerne de nossa experiência subjetiva, estão ligadas à interação entre o cérebro e o resto do organismo, mediada primordialmente via hipotálamo, e humores e sentimentos são do ponto de vista biológico sempre estados de todo o organismo, que incluem quase todos os subsistemas do corpo, sistema nervoso central e periférico, sistema hormonal, coração, circulação, respiração, vísceras e músculos de expressão facial e gestual.

7. Não é possível experienciar ansiedade sem sentir uma tensão corporal ou tremor, sem a batida do coração ou falta de ar, e o mesmo vale para raiva, alegria ou tristeza, pois todo sentimento está inseparavelmente ligado a mudanças na paisagem corporal, e sem essa ressonância corporal não poderíamos experienciar sentimentos em sentido pleno, de modo que mesmo nossa consciência basal e nossos sentimentos não repousam de modo algum apenas em processos neuronais no neocórtex mas se estendem a todo o corpo.

8. Passando agora às interações sensoriomotoras com o ambiente, base de nosso ser no mundo, toda percepção e ação também requer o corpo, mas não apenas como aparelho de transmissão de sinais ou execução de movimentos, também porque só o corpo sensível e móvel transmite a unidade de percepção e movimento.

9. Jakob von Uexküll falou do círculo funcional sensoriomotor, pois o que um ser vivo percebe depende sempre de seu movimento e vice-versa, o que vale para os movimentos da mão que toca um objeto assim como para o escaneamento de objetos com o olhar em movimento, pois no ver a movimentação atual ou possível do próprio corpo é sempre levada em conta.

10. Percebemos ativamente, isto é, olhamos, escutamos, apalpamos, e a percepção não é portanto mero estado interno do cérebro mas uma interação corporal contínua com o ambiente.

11. As ações são ainda mais corporificadas, pois quando falo isso não se baseia apenas num programa motor em meu cérebro mas também na retroalimentação constante dos músculos da garganta, em ouvir minha própria voz e nas reações dos ouvintes, e falar, assim como agarrar ou dançar, não é habilidade ou atividade do cérebro mas de um sujeito corporificado.

12. Em geral o cérebro e suas redes fornecem por assim dizer laços abertos, que são então fechados pelo corpo e por objetos adequados no ambiente para formar o respectivo círculo sensoriomotor.

13. A experiência consciente surge portanto apenas no sistema abrangente de organismo e ambiente, pelo jogo de muitos componentes aos quais pertencem o cérebro e todo o corpo com seus órgãos, sentidos e membros, assim como os objetos adequados do ambiente, e o cérebro é o órgão que medeia essas interações, em suma, um órgão de mediação e relação.

14. Mas no próprio cérebro não há experiência, não há consciência, não há pensamentos, e para comparação pode-se pensar em outra função vital central, a respiração, perguntando se podemos encontrá-la dentro dos pulmões, e certamente não, pois a respiração não é localizável em nenhum lugar único, sendo todo o processo em que o organismo absorve o ar ambiente, o transforma e o devolve, um processo de troca e circular que não seria possível sem o ambiente, os órgãos respiratórios, a circulação sanguínea e o metabolismo do oxigênio e do gás carbônico em todo o organismo, e o pulmão também é um órgão relacional que só pode cumprir sua função embutido em processos circulares.

15. O mesmo vale para a consciência, que não se encontra num lugar único, não é uma imagem interna do mundo no cérebro mas é ela mesma o processo vivo de nossa interação corporificada com o mundo, e o cérebro é indispensável para a experiência consciente porque todos os processos circulares mencionados se ligam nele, comparável aos trilhos que convergem numa estação ferroviária central.

16. Sem a estação central o tráfego ferroviário certamente entraria em colapso, como a experiência consciente sem cérebro, mas, continuando a comparação, o tráfego ferroviário não é gerado pela estação nem pode ser nela localizado, pois o tráfego usa o sistema de trilhos com suas muitas conexões, cruzamentos e seu ponto central de coordenação na estação para que tudo corra o mais suavemente possível e as pessoas cheguem a seus destinos, e do mesmo modo a atividade da consciência representa o integral ecológico de toda a relação entre cérebro, organismo e ambiente, pois a consciência é ser no mundo.

Transplante de Cérebro

1. Por fim, a corporeidade orgânica do sujeito lança também luz crítica sobre o experimento mental do transplante de cérebro, pois a identificação implícita da pessoa com o cérebro se baseia na suposição de que sua identidade consiste em nada mais que suas disposições psicológicas, memórias e conhecimentos armazenados nas estruturas neuronais do cérebro, pressupondo assim o argumento do transplante uma visão cartesiana e desencarnada da pessoa.

2. Mas como se viu, a ipseidade consiste primordialmente num sentimento corporal de fundo pré-reflexivo, que não se baseia em processos neuronais no córtex cerebral mas no processo vital de todo o organismo, e o embutimento do cérebro em processos bioquímicos, neuroendócrinos e humorais de autorregulação vital não pode ser entendido segundo o padrão do processamento digital de informação num computador, sendo porém desses processos circulares e vivos que resulta a auto-experiência basal.

3. O que é pressuposto no experimento mental do transplante, a saber, a continuidade da autoconsciência fenomênica após o transplante de cérebro, é portanto tudo menos evidente, e não sabemos o mínimo sobre quais seriam as consequências de uma separação de cérebro e corpo e portanto de uma interrupção da continuidade da vida e da experiência.

4. É altamente duvidoso que as funções conscientes se regenerassem afinal após o tronco encefálico ter sido separado da medula espinhal e reimplantado num novo corpo, e para um transplante bem-sucedido os complexos laços de retroalimentação entre cérebro e corpo também teriam de ser precisamente restaurados no nível vital e sensoriomotor.

5. E mesmo então graves perturbações da auto-experiência seriam de esperar, porque as reações endócrinas, autonômicas, interoceptivas e emocionais de todo o corpo estranho já não corresponderiam às disposições neuronais do cérebro, e uma severa autoalienação e desorientação até confusão psicótica seria a consequência mais provável.

6. Além disso, toda habilidade corporal baseada na memória corporal processual, caminhar, agarrar ou falar, sem falar de tocar piano ou outras habilidades complexas, está atada a coordenações cérebro-corpo altamente sutis e teria toda de ser reaprendida, e por fim pensemos nos efeitos perturbadores sobre a experiência de identidade que se esperariam de repente ter uma forma corporal estranha, uma voz diferente, um rosto estranho e as reações alienadas de amigos e conhecidos.

7. Todos esses fatores permitem apenas concluir que um transplante de cérebro não preservaria a identidade da pessoa, mas no melhor caso criaria um novo indivíduo severamente perturbado que não teria continuidade clara nem com o doador nem com o receptor do transplante, pois a pessoa está corporificada no organismo como um todo, e uma separação de cérebro e corpo não preservaria mas destruiria a pessoa.

Conclusão

1. Se a neurobiologia quer olhar para dentro da pessoa, está olhando no lugar errado, não que processos neuronais sejam dispensáveis para a experiência consciente, pelo contrário, mas eles não são o lugar onde encontramos a consciência e a ipseidade de uma pessoa, pois uma pessoa sente, vê, pensa e age, não o cérebro, não a mente ou a consciência.

2. Não somos cérebros nem mentes mas seres vivos, corporificados e visíveis em nossos corpos, e não há uma segunda versão de nós mesmos existindo em nossos cérebros ou em nossas mentes.

3. O cérebro não tem estados mentais nem consciência, porque o cérebro não vive, sendo apenas o órgão de um ser vivo ou de uma pessoa viva, e experimentos mentais sobre um cérebro num tanque ou um transplante de cérebro podem ser postos de lado, pois só um cérebro conectado a um corpo sensciente e móvel é capaz de servir como órgão central para processos mentais, porque só pelas interações constantes de cérebro, corpo e ambiente as estruturas da experiência consciente podem ser criadas e estabilizadas.

4. É portanto errado identificar o sujeito ou a pessoa com o cérebro e buscar ali o pessoal, pois o que constitui as pessoas essencialmente é sua corporeidade, sua vitalidade e seu estar em relações, e essas relações vivas, intencionais e sociais com o mundo não são produtos do cérebro nem nele se encontram.

5. Sem dúvida as capacidades da pessoa assim como a realização dessas capacidades como expressões conscientes de uma vida estão estreitamente atadas a funções cerebrais, e o cérebro é portanto condição crucial da possibilidade da existência pessoal no mundo, mas a pessoa não é uma parte do corpo, e sim a unidade de corpo e mente, o ser humano vivo, pois pessoas têm cérebros, não são seus cérebros.