Ecologia do cérebro

FUCHS, T. Ecology of the brain: the phenomenology and biology of the embodied mind. First edition ed. Oxford: Oxford University Press, 2018

1. A concepção de uma ecologia do cérebro, desenvolvida a partir de um precursor alemão intitulado O cérebro, um órgão relacional, já em sua quinta edição, e agora inteiramente revista e ampliada para o público internacional, assinala o papel decisivo do Umwelt para a compreensão do cérebro humano como órgão de relação, interação e ressonância com o próprio corpo, com o ambiente imediato do organismo e com o ambiente social e cultural do mundo da vida, relacionalidade essencial que vale igualmente para a mente corporificada, à semelhança do mergulhador imerso num meio envolvente que ao mesmo tempo o sustenta e oferece resistência flexível ao seu movimento.

2. Uma abordagem ecológica do cérebro exige antes de tudo um conceito autônomo de vida, pois as neurociências negligenciaram amplamente que o cérebro é primariamente um órgão do ser vivo e não da mente, e também as ciências da vida estão longe de apreender a vida como fenômeno próprio, dotado de auto-organização e interioridade irredutíveis a meros processos físicos, ao passo que as abordagens corporificadas e enativas fizeram avançar consideravelmente a compreensão do organismo vivo, condição indispensável para superar o curto-circuito direto entre cérebro e mente ainda predominante nas neurociências.

3. Num momento de crescente número de publicações sobre cognição corporificada e enativa, impõe-se precisar o foco particular dessa ecologia do cérebro, destacando alguns de seus aspectos centrais.

4. O tradicional problema mente-cérebro é reformulado como duplo aspecto do ser vivo, ao mesmo tempo corpo vivido ou subjetivo e corpo vivo ou objetivo, configurando um problema corpo-corpo já apontado por Evan Thompson em Mind in Life, mas aqui com maior ênfase na mediação entre ambos os aspectos, sobretudo nas funções transformadoras e integradoras do cérebro, cuja investigação requer uma dupla abordagem que combine a fenomenologia da subjetividade com a biologia ecológica e a filosofia da vida.

5. Embora as abordagens corporificadas e enativas se apoiem geralmente na interação sensório-motora entre corpo e ambiente ou, na tradição fenomenológica, no ser-para-o-mundo corporal de Merleau-Ponty, dimensão sem dúvida crucial da corporificação, não se deve esquecer que o lugar primário da autoconsciência é o próprio corpo, pois a consciência basal ou o sentimento de estar vivo emerge no interior profundo do organismo e só depois, em níveis superiores de integração, se dirige ao ambiente.

6. Falta até hoje uma explicação detalhada de como o cérebro funciona como órgão mediador tanto na interação sensório-motora com os objetos quanto na interação social com os outros, explicação que se elabora mediante análises do cérebro como órgão de mediação, transformação e ressonância e cujo conceito central de consciência como integral estendido das relações em curso entre cérebro, corpo e ambiente, embora não inteiramente novo, permanece distante da neurofilosofia dominante e exige fundamentação abrangente, em que se torna particularmente importante uma crítica rigorosa dos conceitos representacionalistas da neurociência e da neurofilosofia atuais.

7. A causalidade peculiar do organismo vivo é concebida como causalidade circular tanto na dimensão vertical, com causação ascendente e descendente no interior do organismo, quanto na dimensão horizontal, com laços de interação que se estendem ao ambiente, o que conduz ao conceito de uma causalidade integral do ser vivo e serve de base a uma concepção libertarista do livre-arbítrio entendida como liberdade corporificada.

8. A abordagem ecológica aplica-se também ao desenvolvimento social e culturalmente sustentado do cérebro humano, especialmente na primeira infância, em que a intercorporeidade e a interafetividade fornecem a base para a incorporação de hábitos e habilidades e para formas superiores de intersubjetividade, inclusive a aquisição da linguagem por meio de práticas corporificadas compartilhadas.

9. Uma concepção ecológica do cérebro traz consequências para a psiquiatria e a medicina psicológica, hoje dominadas por paradigmas reducionistas dos transtornos mentais, pois o paradigma do cérebro como órgão relacional pode fundamentar uma abordagem holística que considera a subjetividade e a intersubjetividade dimensões decisivas para o diagnóstico, a etiologia e o tratamento, sem o risco de recair num quadro dualista.

10. O cérebro revela-se, assim, não como órgão que produz a mente à maneira de uma glândula que segrega suas secreções, mas como órgão que medeia as relações corporais, emocionais e mentais com o mundo, estando os processos da vida e da experiência da vida inextricavelmente ligados, pois não é o cérebro, mas o ser humano vivo quem sente, pensa e age.