3.3 A causalidade circular

FUCHS, T. Ecology of the brain: the phenomenology and biology of the embodied mind. First edition ed. Oxford: Oxford University Press, 2018

3.3 A causalidade circular e integral dos seres vivos

1. A descrição das estruturas básicas do organismo exige analisar a causalidade específica da vida, pois nas biociências e neurociências ainda prevalece a noção de causalidade física monolinear, de causa seguida de efeito ou de estímulo seguido de resposta, ao passo que a causalidade própria dos organismos vivos como sistemas autopoiéticos autorreprodutores requer um conceito autônomo, o de causalidade circular, em associação com os modelos sinergéticos de Haken, no qual se distinguem duas formas de relação recíproca, a vertical, entre partes e todo no interior do organismo, e a horizontal, entre organismo e ambiente, relações circulares que ao longo do tempo se desdobram em dinâmicas espiraladas e que convergem na ideia de uma causalidade integral da vida.

3.3.1 Causalidade circular vertical

1. A organização vertical dos sistemas vivos pode ser descrita como hierarquia de diferentes níveis.

2. O nível superior é o do organismo como um todo.

3. O nível intermediário é o dos sistemas parciais e órgãos.

4. O nível basal é o das células.

5. O nível elementar ou micronível é o das partes materiais, como macromoléculas e átomos.

6. Entre esses níveis há sempre uma relação recíproca do todo com as partes, uma coemergência dinâmica no sentido de Thompson, em que organismo e componentes se produzem mutuamente num processo contínuo de reprodução, atribuindo o todo às partes funções específicas que restringem sua atividade independente, como no andar, em que diversos músculos devem atuar de modo altamente específico como agonistas e antagonistas e a excitabilidade inespecífica do tecido muscular precisa ser restringida e integrada num padrão superior, ou favorecendo o meio e a estrutura do organismo certos processos elementares, sobretudo nos processos basicamente caóticos do sistema imunológico e neuronal, influência estruturante do sistema vivo sobre suas partes que se denomina causalidade formativa ou descendente, do global para o local.

7. Essa forma de causalidade é frequentemente considerada problemática ou obscura, sobretudo por duas razões.

8. A primeira razão é que, como o todo consiste nas partes, causa e efeito não poderiam ser atribuídos a dois agentes distintos que atuam externamente um sobre o outro.

9. A segunda razão é que o efeito causal dos níveis superiores pareceria pressupor forças físicas desconhecidas contrárias às leis de conservação da energia ou seria eliminado pela navalha de Occam como dispensável para os efeitos causais efetivos.

10. Não é necessário, contudo, restringir a noção de causalidade às causas eficientes, segundo o modelo de bolas de bilhar que se chocam, pois as macroestruturas podem exercer efeitos formativos ou organizadores sobre os microelementos em que se realizam, à maneira da causa formal aristotélica, sem que surjam novas forças contrárias às leis físicas, já que, graças à sua forma e configuração, selecionam propriedades e comportamentos específicos de seus componentes e bloqueiam outros, conferindo-lhes propriedades emergentes como a capacidade reversível do ferro orgânico de incorporar oxigênio, estado extremamente improvável na natureza inorgânica que não requer milagre físico, mas apenas uma estrutura organizacional superior, a hemoglobina, que seleciona e arrasta ou escraviza seus elementos componentes, assim como, em geral, os processos moleculares da célula viva produzem reações e moléculas que desafiam em muitas ordens de grandeza as probabilidades naturais, mediante reações catalíticas que orientam e restringem a formação e o comportamento das moléculas.

11. Analogamente, os processos mentais, como atos corporificados e integrais de um organismo vivo, podem ser eficazes em seu comportamento físico, não atuando sobre os processos fisiológicos como força externa, mas exercendo neles e por meio deles influência formativa, como ao pronunciar uma frase, em que os músculos da língua e da laringe exibem padrões organizados de movimento cuja causa próxima ou eficiente é a liberação de acetilcolina nas placas motoras, sendo igualmente correto dizer que se movem assim porque se pronunciam essas palavras com intenção dirigida a seu conteúdo, porque que designa não uma causa eficiente, mas uma causa superior seletiva e formadora, já que os músculos, sempre prontos à excitação e capazes de contrair-se de muitas outras maneiras, são arrastados para uma dinâmica superior altamente seletiva, sendo a fala a causa organizadora e abrangente descendente realizada por uma dinâmica complexa e restringida de mecanismos fisiológicos ascendentes.

12. O mesmo vale para a atividade neuronal nas áreas motoras e em outras áreas do cérebro, que transcorre de modo determinado porque se pronunciam essas palavras, abrangendo conscientemente o arco intencional da frase no tempo e antecipando, em termos husserlianos, protendendo, as palavras seguintes, de modo que intenções e protensões corporificadas organizam sua implementação física com o potencial de alcançar um estado futuro ainda inexistente, e os processos mentais, como realizações da vida, são eficazes no comportamento do ser vivo sem atuar externamente sobre processos cerebrais, podendo-se falar de causalidade implicacional, pela qual, ao pensar ou falar, o ser vivo realiza processos organizados que implicam atividades neuronais e musculares ordenadas, como moléculas de água arrastadas por um redemoinho que delas se compõe e cujos movimentos implica sem atuar sobre elas, de modo que a causa completa da fala não é a língua nem o cérebro, mas o próprio sujeito, e em toda ação consciente o ser humano como um todo atua como causa formadora, seletiva e organizadora.

13. O todo vivo afirma-se não por impacto direto, mas de modo restritivo e mediado através de suas partes, e a ausência de controle central compulsório corresponde à natureza autônoma e ao mesmo tempo altamente interligada das subunidades, cuja atividade descentralizada e conectada cumpre suas funções e contribui para a vida do organismo como um todo, de modo que as partes e os processos parciais atuam sobre a preservação e o funcionamento do sistema inteiro numa causalidade possibilitadora ou ascendente, do local para o global.

14. A conexão de ambas as relações causais configura uma causalidade circular ou recíproca vertical entre todo e partes ou entre os níveis hierárquicos do sistema, estrutura que caracteriza, por exemplo, a relação entre genes e organismo, pois a estrutura genética do núcleo celular seleciona e controla a composição dos órgãos e funções celulares especializados de modo ascendente, enquanto a configuração e a função globais do organismo contribuem para definir quais genes da célula individual adquirem relevância para seu desenvolvimento e regulação, campo da epigenética, de modo descendente.

15. A causalidade circular vertical caracteriza também as funções cerebrais, como na dor, em que estímulos nocivos periféricos levam, pelo processamento central, a uma reconfiguração do sistema nervoso correspondente à sensação dolorosa, mas a disposição global de atenção e emoção decide se o estímulo é admitido como dor ou reprimido por vias inibitórias descendentes, como no soldado em combate cuja excitação emocional silencia uma ferida, ou nos estados emocionais, que podem ser modificados farmacologicamente por influências químicas locais no metabolismo dos transmissores, de modo ascendente, ou pela psicoterapia, por uma percepção modificada da situação pessoal num encontro diádico favorável, de modo descendente, assim como o medo pode ser influenciado por sedativos ou por uma conversa tranquilizadora, de modo que o cérebro funciona como transformador da causalidade circular vertical, convertendo estados abrangentes de alto nível, como o direcionamento intencional, e microestados de baixo nível, como os neuroquímicos, e tornando cada um eficaz no outro nível hierárquico.

3.3.2 Causalidade circular horizontal

1. A segunda forma de causalidade vital surge, de um lado, dos múltiplos efeitos de retroalimentação no interior do organismo que ocorrem não hierarquicamente entre níveis, mas num mesmo nível, como as relações recíprocas entre células ou órgãos e a cascata de coagulação sanguínea, e, de outro, dos laços de retroalimentação e ciclos funcionais entre organismo e ambiente, cuja relação circular consiste no nível basal no metabolismo, parte da regulação geral da homeostase sob condições ambientais cambiantes, metabolismo horizontal ligado a processos verticais formativos que assimilam a substância absorvida e a transformam em substância do organismo vivo.

2. A relação entre percepção, movimento e ambiente funciona igualmente de modo circular, pois a reação do organismo a estímulos externos recebe resposta do ambiente, que por sua vez atua sobre o organismo até que a relação entre indivíduo e ambiente alcance novo equilíbrio, funcionando o cérebro também aqui como transformador entre estímulos sensoriais e ações motoras ligados em laços de retroalimentação que se estendem ao ambiente, nos quais intervêm igualmente processos verticais de controle, já que o organismo não recebe os estímulos apenas passivamente, mas seleciona por si, por exemplo pela atenção, os recortes adequados do ambiente, de modo que influências eferentes do sistema nervoso central sobre os órgãos sensoriais periféricos codefinem o que é visto, ouvido ou tocado.

3. Por meio desses ciclos funcionais, os eventos físicos externos e seus transdutores sensoriais e neuronais tornam-se portadores de relações significativas entre organismo e ambiente, pois os múltiplos processos de transmissão, como os da percepção visual, considerados isoladamente consistem apenas em cadeias causais de eventos físicos singulares, já que ondas luminosas não têm cor e ondas sonoras não são música nem palavras, mas em contato com o organismo vivo tornam-se portadores de processos perceptivos em que se vê a cor de uma árvore ou se ouve um violino, transformando-se os microprocessos entre ambiente e organismo, num nível superior, em processos de atribuição de sentido e, por fim, em percepções e movimentos integrais.

3.3.3 Causalidade integral e sua base nas capacidades

1. A conexão entre causalidade vertical interna e horizontal externa conduz a uma noção de causalidade integral, pela qual o organismo vivo, em conjunção com um ambiente complementar, realiza desempenhos que contribuem para a continuação de sua vida, como perceber, desejar ou agarrar algo, caminhar em direção a uma meta, falar ou escrever, atos de vida que não se referem apenas a processos parciais do organismo, como a absorção de oxigênio pela hemoglobina, a secreção de ácido gástrico ou o reflexo patelar, mas engajam o organismo como um todo, revelando-se o ser vivo em seu duplo aspecto de corpo físico e corpo vivido, como ser que sente, percebe, deseja e age.

2. Essa causalidade funda-se numa constituição disposicional do organismo vivo, caracterizável pelo conceito aristotélico de capacidade, dýnamis, isto é, as disposições inatas ou adquiridas do organismo para a realização ativa, enérgeia, de seus desempenhos em contextos ambientais adequados, de modo que a capacidade designa uma forma de potencialidade integral que o organismo possui como tal e que não pode ser decomposta em processos parciais, ainda que para cada capacidade existam correlatos orgânicos especiais, sobretudo estruturas nervosas centrais e órgãos receptores e efetores pertinentes.

3. Atos de vida como perceber, sentir ou agir dependem de macroestruturas complexas e integrais que são os organismos e desaparecem abaixo de certa escala, deixando de ser identificáveis em microprocessos físicos, assim como as disposições comportamentais ou capacidades correspondentes, mas as ciências da vida e da cognição evitam conceitos antropomórficos como capacidade e adotam termos cibernéticos como programa, regulação ou controle, definindo-se o programa como informação codificada ou pré-ordenada que controla um processo rumo a um fim prescrito, de modo que programas genéticos no núcleo celular e programas perceptivos, avaliativos ou motores no cérebro controlariam as funções orgânicas, eliminando tudo o que é vivido e intencionalmente dirigido, como sentir, desejar, querer, perceber e agir, ao passo que o termo capacidade implica que esses aspectos não podem ser separados dos atos de vida, sob pena de identificar o comportamento de um ser vivo com o de máquinas pré-programadas como torpedos.

4. As capacidades, como a de escrever, formam-se pelo desenvolvimento das estruturas orgânicas correspondentes, como mãos, tendões, músculos e sistemas nervosos periférico e central com padrões neuronais de ativação adequados, e por sua inserção em relações superiores entre organismo e ambiente que implicam atribuições específicas de sentido a objetos como caneta, papel e palavras, de modo que reúnem subsistemas e órgãos, em causalidade vertical, em unidades cooperativas disponíveis para diferentes funções, que se atualizam quando surge uma situação adequada, cooperando as subunidades verticalmente ligadas e conectando-se em retroalimentação horizontal com contrapartes complementares do ambiente, para que o organismo realize o ato de vida unificado, como agarrar uma caneta e escrever uma carta, numa combinação integral, vertical e horizontal, de causalidade interligada.

5. A capacidade de escrever uma carta não é capacidade do cérebro, embora este seja requisito substancial, mas de um sujeito corporificado cujo ambiente oferece canetas, papel, palavras e textos, de modo que as capacidades funcionam como chaves para as fechaduras certas do mundo circundante e o dotam de significados e affordances, como algo a agarrar ou algo com que escrever, só podendo ser descritas em termos de relação entre organismo e ambiente, já que as capacidades perceptivas e motoras organicamente ancoradas formam laços abertos que se conectam a contrapartes adequadas do ambiente, realizando-se no momento do encaixe uma percepção ou ação, como quando, ao perceber uma árvore, o conhecimento disposicional da árvore se realiza em contato com o objeto real e a dýnamis se converte em enérgeia, criando-se com base nas capacidades existentes uma nova coerência situacional entre organismo e ambiente, pois o corpo, sistema de poderes motores e perceptivos, é, segundo Merleau-Ponty, um agrupamento de significados vividos que tende ao seu equilíbrio.

3.3.4 A formação das capacidades pela memória corporal

1. A ligação entre causalidade vertical e horizontal modifica-se e amplia-se nos seres humanos ao longo da biografia por processos de aprendizagem e memorização, nos quais os padrões perceptivos e comportamentais recorrentes extraídos das interações horizontais com o ambiente se sedimentam como esquemas sensoriais, motores, emocionais e outros no substrato mnêmico do organismo, sobretudo no cérebro, formação da experiência que afeta primariamente as estruturas da memória implícita ou corporal, sistema de habilidades, hábitos e disposições corporificados adquiridos pela prática e pela repetição, distinto da memória autobiográfica que permite recordar experiências passadas específicas, pois a memória corporal não reproduz experiências anteriores como lembranças, mas as contém como experiência ou habilidade sob a forma de capacidades perceptivas e comportamentais sem consciência de sua origem, abrangendo a aprendizagem motora habitual ou memória procedural, como andar de bicicleta ou dançar valsa, e capacidades perceptivas, cognitivas e emocionais, como reconhecer objetos, orientar-se numa casa ou cidade familiar e exibir reações emocionais adquiridas, funções baseadas sobretudo em sistemas cerebrais subcorticais como os gânglios da base, o cerebelo e o sistema límbico, incluindo a amígdala no condicionamento clássico e o núcleo accumbens no condicionamento operante.

2. A aprendizagem implícita faz com que interações repetidas com o ambiente se sedimentem em disposições, habilidades e conhecimentos, ampliando o organismo seu conhecimento implícito e suas capacidades não pelo preenchimento de um depósito de informação, mas pela mudança de sua estrutura disposicional orgânica num processo de crescimento e desenvolvimento, de modo que a concepção computacional da mente e do cérebro, segundo a qual a aprendizagem grava bits de informação em bancos de memória de onde podem ser recuperados à vontade, não se ajusta à interação dinâmica com o ambiente que ocorre quando habilidades e hábitos corporais são reencenados, pois, embora essa memória se baseie em padrões específicos de ativação neural derivados da experiência anterior, sobretudo em regiões subcorticais, ela não implica memória representacional, fornecendo o cérebro não mapas ou modelos internos da realidade externa, mas os laços abertos de interações potenciais, que só se fecham em ciclos funcionais completos com as contrapartes ambientais às quais o corpo se conecta, sem lugar para representações separadas.

3. O termo representação sugere que as atividades cerebrais poderiam, ao menos em princípio, separar-se do ciclo, como se reconstruíssem ou modelassem por dentro o que está fora, mas no acoplamento sensório-motor atual com o ambiente não há um dentro separado capaz de mapear, reconstruir ou representar o fora, e num processo circular contínuo nenhum segmento pode representar ou substituir outro, sendo o desempenho realizado pelo sistema cérebro-corpo-ambiente como um todo.

4. Se a memória designa não um depósito interior estático, mas a capacidade do ser vivo de atualizar disposições adquiridas em aprendizagens anteriores, essa capacidade está ligada ao acoplamento dinâmico contínuo entre corpo e ambiente, como mostra a tentativa de localizar apenas com o olhar as teclas para digitar uma palavra num teclado sem letras, impossível mesmo para um digitador experiente por falta de conhecimento representacional da posição das letras, ao passo que, pousados os dedos sobre as teclas, eles projetam sua capacidade sobre o teclado e escrevem a palavra imediatamente, sem pensar, conhecimento corporificado de saber-como sem saber-que cuja memória reside nas mãos sobre o teclado ou, mais precisamente, é propriedade disposicional emergente do sistema inteiro de organismo e teclado conectados, de modo que, não estando no cérebro, a memória corporal não é termo metafórico, mas designa com precisão o corpo em conexão com o ambiente como portador de capacidades e, portanto, da memória do hábito e da habilidade.

5. Essa memória converte a relação circular entre organismo e ambiente num desenvolvimento espiralado ao longo do tempo, pois cada interação modifica, ainda que minimamente, a estrutura e a disposição do organismo, que passa a perceber o ambiente e a reagir a ele de modo modificado, ligando organismo e ambiente específico num processo de coevolução contínua em que o sistema inteiro se reconfigura a cada interação, de modo que o presente de um organismo vivo não pode ser plenamente descrito sem recurso à história de suas experiências.

6. A incorporação de experiências permite ao organismo vivo ou ao ser humano adaptar-se ao ambiente experimentado e antecipar interações possíveis, podendo o organismo inteiro ser visto como uma espécie de pressuposição implícita sobre o mundo, já que a história filogenética da aprendizagem está inscrita em sua estrutura genética e a constituição de seus órgãos e sistemas sensoriais, motores e nervosos contém uma antecipação do mundo em que deve viver, definindo suas capacidades básicas e seu nicho ecológico, princípio filogenético que o cérebro humano transfere à ontogênese pela capacidade de incorporar em suas estruturas plásticas a história individual de aprendizagem, de modo que as capacidades e disposições da pessoa evoluem de maneira complementar aos ambientes em que cresce e pressupõem situações futuras semelhantes.

3.3.5 Resumo

1. A inserção do cérebro no organismo e em seu ambiente pressupõe uma compreensão da vida baseada não na causalidade linear, mas na circular, já que os organismos vivos, como sistemas autopoiéticos, se diferenciam do meio e ao mesmo tempo se interligam com ele, produzindo suas fronteiras uma descontinuidade fundamental entre dentro e fora na qual a causalidade física se quebra e não pode prolongar-se linearmente no organismo, que por sua estrutura interna produz o recorte do ambiente que se torna significativo e eficaz para ele, substituindo-se a causalidade linear pela ligação específica entre estímulo e resposta ou entre percepção e reação, de modo que os organismos não são determinados pelas influências físicas do mundo circundante, mas respondem a partir de seu centro aos estímulos percebidos reconfigurando o sistema inteiro.

2. A relação com o ambiente descreve-se como causalidade circular horizontal e a relação entre os níveis hierárquicos do organismo como causalidade circular vertical, funcionando o cérebro como órgão de mediação ou transformação tanto no ciclo funcional entre organismo e ambiente quanto no ciclo funcional entre todo e partes do organismo.

3. Ambos os ciclos funcionais se interligam nas capacidades dos seres vivos, que designam a aptidão do ser vivo como um todo para realizar desempenhos específicos e possibilitam uma forma singular de causalidade integral da vida, funcionando como chaves para as fechaduras certas do ambiente, já que se formaram filogenética e ontogeneticamente nele e por meio dele, servindo o cérebro como órgão central dessa formação na medida em que as experiências repetidas são incorporadas ao sistema neuronal plástico, de modo que, surgida a oportunidade adequada, o organismo realiza suas capacidades, unindo-se verticalmente os processos intraorgânicos e horizontalmente organismo e ambiente numa unidade cooperativa.

4. Como disposições gerais, as capacidades não funcionam de modo determinante, mas possibilitador e orientado para situações futuras, de modo que os desempenhos não se realizam rígida e mecanicamente, mas se ajustam flexivelmente às exigências da situação concreta, como mostra a mesma frase escrita num papel e repetida em letras maiores num quadro, que exibe os mesmos traços pessoais embora mobilize grupos musculares inteiramente distintos, ou a percepção que reconhece uma melodia tocada em tons ou instrumentos diferentes, mesmo numa transposição nunca ouvida, leis descobertas pela psicologia da Gestalt que remetem à singularidade da causalidade da vida, não fundada na determinação completa, mas permitindo a integração flexível de organismo e ambiente numa forma e unidade sempre renovadas.

5. Ainda que processos parciais das funções baseadas em capacidades possam ser descritos fisicamente num nível elementar, sua redução à causalidade de eventos físicos ou neuronais é impedida, pois nem as capacidades nem as estruturas mnêmicas e cerebrais correspondentes podem ser explicadas sem referência genética a contextos anteriores de aprendizagem e sem referência funcional a um desempenho possível, sendo a capacidade um laço aberto disponível cujas extremidades indicam aspectos complementares do ambiente e que só se realiza em conexão com eles, razão pela qual é infrutífero localizar esquemas motores ou outros mecanismos parciais no cérebro sem compreendê-los desde o início como conectados pela função abrangente, já que os fragmentos reunidos não formam um círculo, mas é o ciclo funcional que se serve dos mecanismos parciais e dos aspectos complementares do ambiente, inerente à capacidade como laço potencial ou aberto que se fecha num círculo real no desempenho efetivo, sendo as capacidades sempre disposições do ser vivo como um todo e sua realização na situação pertinente atividade do ser vivo como um todo.