Table of Contents
A objeção do solipsismo (2014)
1. A ameaça do solipsismo ao idealismo fenomenológico
2. Tentação do realismo transcendental e seu impasse
3. Pressupostos problemáticos da objeção
4. Decisão metodológica: o outro como sentido
5. Princípio da investigação: modos de doação
6. Primeira descrição fenomenológica do outro
7. Ambiguidades constitutivas da percepção do outro
8. Sentido objetivo do mundo e excedência do sentido
9. O eu, a linguagem e a implicação do outro
10. Retorno à tarefa fenomenológica
A objeção do solipsismo (2014)
Franck2014
1. A ameaça do solipsismo ao idealismo fenomenológico
A introdução do problema do outro coloca diretamente em questão o idealismo fenomenológico.
Ao definir a subjetividade transcendental como concreta, parece tornar-se impossível postular outro ego.
Com isso, o mundo objetivo torna-se fenomenologicamente impensável, comprometendo o próprio projeto filosófico.
A dificuldade não pode ser resolvida pela veracidade divina.
Tal solução recorre a uma metafísica já submetida à redução.
Além disso, pressupõe aquilo que deveria ser constituído: a subjetividade alheia.
Sob o nome do outro, está em jogo o ser da objetividade e, portanto, o ser da intencionalidade.
A questão é suficientemente essencial para levar
Husserl
a considerar uma possível retratação do idealismo transcendental.
2. Tentação do realismo transcendental e seu impasse
Husserl reconhece a tentação de admitir um mundo em si por trás das ideias constituídas no ego.
Tal posição buscaria uma via da imanência do ego à transcendência do outro.
Contudo, essa via não pode ser percorrida fenomenologicamente.
A própria redução delimita o campo do conhecimento transcendental à esfera da experiência transcendental própria.
Tudo o que é conhecido pertence sem resto ao ego transcendental.
O problema dos outros egos surge então como aporia interna.
Eles não podem ser meras unidades sintéticas de verificação em mim.
Seu sentido exige que sejam efetivamente outros.
3. Pressupostos problemáticos da objeção
A objeção do solipsismo envolve uma compreensão específica da constituição.
Constituir é sempre referido ao ego.
A partir disso, pareceria impossível pensar a transcendência.
O outro é compreendido como objeto excepcional.
Seu sentido pareceria contradizer o próprio sentido de constituição.
O outro passaria a carregar todo o peso da exterioridade.
Dessa forma, a análise do outro seria a análise da origem da transcendência e do mundo.
A objeção assume implicitamente leis da gramática lógica do sentido.
Ela mesma recorre à subjetividade transcendental para formular o paradoxo.
4. Decisão metodológica: o outro como sentido
Para romper o círculo, impõe-se a tarefa de uma explicitação fenomenológica concreta do alter ego.
Isso implica uma decisão fundamental.
O outro só pode ser um sentido.
Como todo sentido, ele só pode ter origem na subjetividade transcendental.
Essa decisão repete o gesto fundador da fenomenologia.
Todo objeto concebível é formação de sentido.
Surge, contudo, a suspeita de uma redução violenta do fenômeno do outro.
Denunciar essa violência pressuporia já um acesso ao outro.
Tal denúncia incorre no mesmo erro das teorias que substituem a doação encarnada por signos ou imagens.
Apenas uma análise intencional rigorosa pode legitimar a estranheza do outro.
A fenomenologia é a única instância capaz de dizer que o outro escapa ao seu alcance e fazer disso uma estrutura positiva.
5. Princípio da investigação: modos de doação
O único ponto de partida possível é o modo de doação do outro.
O outro é um noema constituído por noeses específicas.
Uma análise estática deve preceder a análise genética.
O outro só pode ser percebido.
Apesar da singularidade dessa percepção, ela não exige, inicialmente, novos princípios.
Tratar o outro como noema preserva a clausura egológica.
O outro não participa da constituição do ego.
Essa pureza monádica será posteriormente abalada, mas é mantida nesse estágio inicial.
6. Primeira descrição fenomenológica do outro
O outro é experimentado como existente em multiplicidades harmônicas de experiência.
Ele é dado como objeto no mundo.
Mas não apenas como coisa física.
O outro é experimentado como governando psiquicamente seu organismo.
Ele é dado como unidade psicofísica.
Simultaneamente, o outro é dado como sujeito do mundo.
Ele experiencia o mesmo mundo que eu.
Ele me experiencia assim como eu o experiencio.
Essa descrição introduz uma ambiguidade estrutural fundamental.
7. Ambiguidades constitutivas da percepção do outro
Primeira ambiguidade: objeto mundano e sujeito transcendente.
Como corpo no mundo, o outro é dado por adumbramentos.
Como sujeito do mundo, ele é dado de modo análogo ao modo como eu me dou a mim mesmo.
Segunda ambiguidade: corpo físico e dimensão psíquica.
O outro é corpo no espaço-tempo homogêneo.
Mas sua vida psíquica não pode ser diretamente acessada sem deixar de ser outra.
Terceira ambiguidade: corpo e carne.
Embora ainda não tematizada explicitamente, a distinção já está implicada.
A carne não se individua como o corpo físico.
Essas ambiguidades não se deixam unificar sob uma lei simples.
Elas configuram o núcleo da dificuldade fenomenológica.
8. Sentido objetivo do mundo e excedência do sentido
A descrição visa mostrar que o mundo é experimentado como intersubjetivo.
O sentido do mundo é objetivo.
Contudo, esse sentido objetivo pertence ao fenômeno do mundo para mim.
Cada outro possui seu próprio fenômeno do mundo.
Coloca-se então o problema decisivo.
Como pode haver em mim um sentido que me excede?
Como compreender essa excedência se todo sentido é produto da minha vida intencional?
9. O eu, a linguagem e a implicação do outro
A epoché produz um eu em solidão radical.
Essa solidão não é mensurável filosoficamente.
Contudo, ao dizer eu, todos os pronomes pessoais já estão implicados.
Husserl sugere que o sentido de eu varia de pessoa para pessoa.
Tal afirmação entra em tensão com a idealidade do sentido.
Se o sentido é ideal, ele é intersubjetivo e omni-temporal.
Compreender o eu exige o horizonte de um nós.
A possibilidade de dizer eu remete à morte própria e aos outros.
O eu aparece como estruturalmente expropriado de si.
Surge a questão da compatibilidade entre essa expropriação e a clausura egológica.
10. Retorno à tarefa fenomenológica
Husserl reafirma a necessidade de uma explicitação sistemática da intencionalidade relativa ao outro.
Somente assim as questões poderão ser formuladas e resolvidas com sentido.
A análise deve visar as intenções explícitas e implícitas.
Nelas, o outro se manifesta, é verificado e se confirma como existente.
Essa tarefa constitui o verdadeiro núcleo da Quinta Meditação.
Ela não é apenas uma teoria do alter ego.
Ela testa a possibilidade, o sentido e a coerência interna da fenomenologia.