A afirmação de Heidegger de que “apenas um deus ainda pode nos salvar” abre uma meditação sobre o perigo que ameaça nosso ser.
O perigo não é externo, mas emerge de nossa própria essência, sendo intrínseco ao próprio Ser e à sua verdade.
A época atual, a da técnica, é onde o Ser se dá como perigo para si mesmo. Para compreender esse perigo, é necessário primeiro determinar a essência da técnica.
A Essência da Técnica Moderna como 'Gestell' (Enquadramento)
A técnica moderna não é mero instrumento, mas um modo fundamental de desvelamento (aletheia) do que é.
Através de dispositivos técnicos (ex: usina hidrelétrica), a técnica desvela o mundo como 'reserva permanente' (Bestand), um estoque disponível para exploração e consumo.
Esse desvelamento tem o caráter de uma 'interpelação' ou 'provocação', que desafia a natureza a fornecer sua energia de forma calculável e controlável.
A essência da técnica é, portanto, um 'destino do desvelamento' (Geschick der Entbergung), um modo histórico pelo qual a verdade do Ser se envia ao homem.
O Homem na Era da Técnica: da Subjetividade ao 'Comissário da Reserva'
Enquanto na era da subjetividade o homem se desvelava como sujeito frente ao objeto, na era do 'Gestell' o próprio homem é integrado ao regime da reserva.
O homem se torna o 'ordenador da reserva', mas ao fazê-lo, ele mesmo se transforma em parte da reserva disponível (recursos humanos, engenharia genética).
Nesse ponto culminante do perigo, o homem, ameaçado em sua essência, se exalta paradoxalmente como 'senhor da terra'.
A Figura do 'Senhor da Terra' e suas Origens Bíblicas
A auto-exaltação do homem como senhor da terra não é de origem grega, mas bíblica.
No relato sacerdotal da criação (Gênesis 1), o homem é criado à imagem de Deus e recebe o mandato de dominar a terra e subjugá-la, implicando um gesto de violência.
Com a 'morte de Deus', essa vocação de domínio, outrora subordinada a Deus, é assumida pelo homem de forma absoluta e sem medida.
A Técnica como Realização da Vontade de Vontade
A essência da técnica moderna encontra um segundo fundamento no pensamento bíblico da criação e no conceito de vontade que ele implica.
A técnica organiza e é o órgão da 'vontade de vontade', uma vontade que só quer a si mesma e sua própria capacidade ampliada de querer.
Esta vontade, desvinculada da transcendência divina após a morte de Deus, cumpre violentamente a palavra bíblica, esgotando a terra e arrancando-a de seu círculo de possibilidades.
A Romanização de Aletheia e a Transformação da Verdade
O destino ocidental da verdade começa com sua tradução greco-romana: aletheia (não-ocultação) torna-se veritas (correção).
Essa transformação ocorre sob a égide do 'imperium', da esfera do comando e da dominação. O falso (falsum) passa a ser entendido como aquilo que faz cair, que engana, dentro de uma lógica de poder.
A Igreja Católica Romana aparece como a figura mais duradoura e perigosa desse 'imperium', ao dogmatizar a verdade e o falso.
A Determinação Cartesiana da Verdade como Certeza e seu Fundamento Teológico
A modernidade radicaliza a verdade como 'certeza' (certum), a partir de Descartes.
A certeza do ego cogito deriva sua garantia última da veracidade de um Deus criador, ideia clara e distinta nele impressa.
O erro é explicado como um mau uso da liberdade da vontade, que se estende para além do que o intelecto percebe com clareza.
Heidegger interpreta esse movimento como uma 'deteologização': a graça divina, que determina a vontade para o bem, é transferida para a clara e distinta percepção do intelecto.
Os Limites da Deteologização e a Necessidade de um Confronto com a Revelação
A deteologização (passagem de conceitos da teologia para a filosofia) não supera a teologia, mas a reintroduz sub-repticiamente na filosofia, marcando-a com o selo de sua origem.
Para um pensamento que busca a verdade do Ser, é insuficiente apenas retornar à aletheia grega. É necessário um confronto frontal com a revelação cristã, que marcou profundamente a história ocidental da verdade.
O pensamento de Nietzsche, como ápice da metafísica ocidental, é o lugar privilegiado para esse confronto.
Nietzsche: Ápice da Metafísica e Lugar do Confronto
Para Heidegger, Nietzsche consuma a romanização de aletheia. Sua metafísica da vontade de poder e do eterno retorno é a onto-teo-logia final, onde o ser dos entes é pensado como vontade e sua constância como retorno.
A justiça (Gerechtigkeit) em Nietzsche é interpretada por Heidegger como a última forma da verdade como correção (Richtigkeit), ajustada ao decreto da vontade de poder.
Heidegger vê aqui um pensamento ainda cristão, mesmo que no modo do 'anticristo', pois opera na lógica da justificação (iustificatio) e da autenticação da subjetividade.
Crítica à Leitura Heideggeriana de Nietzsche e do Cristianismo
A assimilação que Heidegger faz entre a justificação luterana e a justiça nietzschiana é problemática.
A justificação para Lutero é passiva, um dom da fé, e não uma autenticação ativa da subjetividade ou da vontade de poder. Sua certeza é a da salvação em Cristo, não a do ego diante do mundo.
Ao reduzir a doutrina cristã a um momento da história da verdade (aletheia), Heidegger executa uma 'descristianização' furtiva e infundada da filosofia.
Nietzsche além do Reverso do Platonismo: O Combate contra os Valores Judeus-Cristãos
A chave para Nietzsche não é simplesmente reverter o platonismo, mas reavaliar os valores 'judaicos-cristãos' dos quais Platão é visto como um precursor ('Platão é um judeu').
O símbolo dessa reavaliação é 'Roma contra a Judeia'. O 'romano' em Nietzsche é sinônimo de nobreza, estilo e força, oposto aos valores 'servis' associados a Jerusalém.
Portanto, o pensamento de Nietzsche é o lugar de um confronto com a revelação bíblica e o sistema de valores que ela instaurou, não apenas o fechamento da metafísica greco-romana.
A Nova Justiça e a Morte de Deus
O evento central para Nietzsche é a 'morte de Deus', que significa o fim da justiça divina, da bondade celestial e da moral imanente.
Diante desse vazio, a tarefa filosófica é procurar uma 'nova justiça', um novo 'peso' (Schwere) para as coisas, que torne a vida suportável e afirmável.
Essa nova justiça está intrinsecamente ligada à figura do super-homem e ao pensamento do eterno retorno, que deve invalidar a esperança cristã na ressurreição dos mortos.
Conclusão: O Ponto de Partida para o Confronto com a Revelação
Para compreender plenamente a essência da técnica, o perigo supremo e a figura do senhor da terra, é necessário engajar um debate com a revelação cristã.
Esse debate deve tomar como fio condutor o problema da justiça divina e sua contrapartida, a justificação.
O ponto de partida decisivo para elucidar o sentido positivo da morte de Deus e da nova justiça proposta por Nietzsche deve ser a ressurreição dos mortos, fundamento último da economia cristã da salvação e conceito que o pensamento do eterno retorno visa superar.