A hermenêutica do espaço se insere na hermenêutica da mundanidade, exigindo para sua compreensão um estudo prévio do ser-no-mundo, estrutura fundamental do Dasein.
O ser-no-mundo é um fenômeno unitário que articula uma pluralidade de momentos, cuja elucidação segue a ordem de três perguntas: o que é o mundo, quem está no mundo, o que significa ser-em.
Como o ser-no-mundo é o próprio Dasein, é necessário deixá-lo se apresentar tal como se dá na cotidianidade, sem impor ideias externas sobre a existência.
O Dasein deve ser tematizado em sua indiferença quotidiana, em seu ser-médio, onde aparece inicialmente ao olhar fenomenológico.
A primeira tarefa é descrever fenomenologicamente o mundo cotidiano, o mundo ambiente com o qual o Dasein é tão familiar que o silencia.
É preciso delimitar previamente o que se busca, distinguindo quatro sentidos do conceito de mundo.
Sentido ôntico-categorial: a totalidade dos entes presentes no mundo.
Sentido ontológico-categorial: o ser dessa totalidade.
Sentido ôntico-existencial: aquilo no que o Dasein fático vive.
Sentido ontológico-existencial: o a priori da mundanidade em geral, pelo qual todo mundo é mundo.
A investigação deve estabelecer o caráter existencial do mundo usual e da mundanidade como tal, reatando com certa significação do κόσμος grego.
O método para atingir o fenômeno do mundo consiste em destacar a mundanidade do ente que o Dasein encontra no mundo ambiente mais próximo.
A preposição “Um-” em Umwelt não significa exclusivamente “ao redor”, mas também “para”.
O espaço só é compreensível a partir da mundanidade, pois o espaço está no mundo, e não o mundo no espaço.
Essa hierarquia já engaja a redução da espacialidade à temporalidade extática.
Como o Dasein encontra o ente no mundo cotidiano? Não primariamente como objeto de conhecimento.
O conhecimento pressupõe o ser-no-mundo e é uma modificação da preocupação cotidiana.
Formalmente, o conhecimento implica uma relação sujeito-objeto que só é possível na abertura prévia do ser-no-mundo.
A contemplação teórica surge de uma deficiência da preocupação prática, abstendo-se da produção e manipulação para um puro permanecer junto ao ente.
A ontologia tradicional, ao tomar o conhecimento como fio condutor, falha em apreender o fenômeno do ser-no-mundo.
O mundo ambiente, cujo paradigma é o mundo de trabalho do trabalhador manual, é onde o Dasein se preocupa com as coisas no uso que faz delas.
O Dasein está sempre disperso em modos determinados de ser-em, lançado entre entes intramundanos com os quais tem sempre múltiplas ocupações.
Os gregos tinham um termo adequado para as coisas: πράγματα, aquilo com que se lida na πρᾶξις preocupada, mas ontologicamente as determinavam como “coisas puras”.
Heidegger nomeia esse ente como Zeug, utensílio, sendo necessário exibir sua utensilidade para atingir a mundanidade.
Um utensílio nunca está sozinho, mas pertence a um complexo organizado por uma estrutura de remissão.
O utensílio é essencialmente “algo para…”, com modos de “ser-para” como serviço, contribuição, utilização.
Em sua estrutura de ser-para há uma remissão de algo a algo.
O complexo organizado deve estar previamente descoberto para que cada utensílio apareça individualmente.
Isso implica uma crítica das descrições cartesiana e husserliana da percepção, que se apoiam no exemplo de um objeto isolado.
O ser-à-mão é a determinação ontológico-categorial do ente encontrado próximo no mundo ambiente.
O utensílio se mostra no manejo, não em um olhar desinteressado.
A preocupação está voltada para a obra em curso, que é o para-que há utensílios.
A cadeia de remissões revela a totalidade do ente intramundano, incluindo o pão quotidiano, tudo no modo de ser-à-mão.
A exibição fenomenológica do mundo depende da possibilidade de fazer aparecer a mundanidade a partir dos utensílios.
Enquanto a atenção está voltada para as tarefas, a utensilidade como tal e a própria mão permanecem em retirada.
É necessário que haja modos de encontro do utensílio que indiquem seu ser.
As deficiências na preocupação revelam a utensilidade.
A inutilização do utensílio o torna conspícuo, fazendo-o passar do ser-à-mão ao ser-simplesmente-presente.
A falta do utensílio o torna importuno, revelando o conjunto do complexo.
A obstrução pelo utensílio o denuncia como simplesmente presente, como algo que estorva.
Essas deficiências exercem um papel redutivo, notificando o ser do ente intramundano.
O extremo é que o ser-à-mão específico se constitui no estar-fora-de-alcance.
Quando um utensílio falha, a circunspecção se depara com um vazio, a remissão constitutiva é interrompida e se mostra como remissão.
Com ela, a totalidade das remissões nas quais a preocupação já estava instalada se torna visível.
A perturbação da remissão torna explícita a estrutura de remissão, ainda que ôntica e não ontologicamente.
O todo do trabalho, a “oficina”, se anuncia como um todo que a circunspecção já havia sempre visto de antemão.
Com esse todo, anuncia-se o mundo.
Para que o mundo se assinale através de uma ataxia referencial, ele deve ter sido revelado a priori.
A elucidação da mundanidade consiste em tornar patente o invisível distante de onde o visível próximo tira sua visibilidade.
A interpretação ontológica da remissão deve permitir alcançar o fenômeno deste mundo no qual o Dasein sempre já se encontra.
Para apreender o ser da remissão, Heidegger analisa um utensílio que condensa remissões múltiplas: o signo.
Tradicionalmente, o signo é algo que está no lugar de outra coisa, um tipo de remissão.
Mas pensar o signo sob o conceito formal de relação não é suficiente.
A experiência grega do signo o experimenta a partir do mostrar, sendo marcado por e para ele.
No mundo ambiente, o signo é primeiramente um utensílio que mostra.
É preciso diferenciar o signo da remissão comum.
O signo, como uma seta de direção, é um ente-à-mão que se insere no dispositivo da circulação.
Enquanto utensílio, ele é constituído pela remissão, mas sua função específica é sinalizar, mostrar, o que é uma nova forma de remissão.
Distingue-se assim a remissão como ser-útil-para… e a remissão como sinalização, que se funda na primeira.
O privilégio do signo reside em seu uso.
Ver um signo implica orientar-se no mundo ambiente, pertencendo ao ser-no-mundo espacialmente orientado e em caminho do Dasein.
O signo remete a todo o complexo de utensílios, mostra sua conexão referencial, fornecendo uma visão global do entorno.
O signo não é um substituto representativo, mas um utensílio que traz expressamente à circunspecção um conjunto de utensílios, anunciando assim o caráter mundano do ente-à-mão.
O signo indica a morada do Dasein, designa o lugar de ser do ser-no-mundo: o mundo.
O signo é um ente ôntico-à-mão que funciona simultaneamente como algo que mostra a estrutura ontológica do ser-à-mão, da totalidade das remissões e da mundanidade.
O signo, porém, é ainda um utensílio cujo ser deriva da remissão. É preciso compreender a própria remissão.
A remissão é o caráter de ser-remetido do ente-à-mão.
O caráter de ser do que é à-mão é a finalidade.
Na finalidade há: com algo, deixar finalizar a algo.
O termo remissão indica a relação do “com… a…”.
A finalidade de um utensílio se inscreve em outra, até remeter a um para-que que não é mais um ente-à-mão, mas o Dasein.
O para-que primeiro é um em-vista-de-quê.
O em-vista-de… concerne sempre ao ser do Dasein, para quem, em seu ser, trata-se essencialmente deste ser mesmo.
A elucidação da finalidade deve proporcionar acesso ao fenômeno do mundo.
Deixar finalizar é deixar um ente-à-mão ser o que é.
Ontologicamente, “deixar-ser” significa descobrir sempre já o “ente” em seu ser-à-mão e deixá-lo vir ao encontro como ente deste ser.
Este deixar-finalizar “a priori” é a condição de possibilidade do encontro do ente-à-mão.
Nenhum ente intramundano possui uma finalidade própria.
A finalidade de um utensílio isolado só pode ressaltar uma vez manifesto o conjunto das finalidades do complexo do qual foi subtraído.
Isso pressupõe a compreensão da ordem das remissões, ou seja, da mundanidade do utensílio em geral.
Como essa mundanidade não é intramundana, é necessário que o Dasein tenha previamente revelado a mundanidade para apreender qualquer ente-à-mão.
A revelação prévia é a compreensão do mundo.
Sendo-no-mundo compreensivo de seu ser, o Dasein compreende de uma só vez o mundo mesmo.
O Dasein só pode encontrar um ente intramundano após ter compreendido, isto é, projetado, o conjunto do complexo referencial.
O onde o Daseis se compreende previamente no modo do referir-se é o aquilo-a-partir-do-qual do deixar-encontrar prévio do ente.
Esse onde da compreensão que se refere como aquilo-a-partir-do-qual do deixar-encontrar do ente com modo de ser da finalidade é o fenômeno do mundo.
A estrutura do aquilo-a-partir-do-qual o Dasein se refere é o que constitui a mundanidade do mundo.
O caráter de relação das relações de remissão é concebido como referir-significante.
Na familiaridade com essas relações, o Dasein se “significa” a si mesmo, se dá originariamente a compreender seu ser e poder-ser quanto ao seu ser-no-mundo.
A totalidade dessas relações, entrelaçadas em uma totalidade originária, é o que são enquanto este referir-significante pelo qual o Dasein se dá de antemão a compreender seu ser-no-mundo.
Essa totalidade é nomeada referência-significativa.
Ela constitui a estrutura do mundo, daquilo onde o Dasein como tal está sempre já.
A familiaridade do Dasein com a referência-significativa é a condição ôntica de possibilidade da descobertabilidade do ente encontrado em um mundo.
A referência-significativa é a mundanidade mesma, o modo de presença do mundo.
A referência-significativa mantém uma relação essencial com a ordem das significações e com o discurso, fundamento ontológico-existencial da língua.
Heidegger estabelece uma hierarquia: a referência-significativa contém a condição ontológica de possibilidade para que o Dasein possa revelar algo como “significações”, que fundam o ser possível da palavra e da língua.
Contudo, uma anotação marginal de Heidegger contesta isso: “Falso. A língua não é estratificada, mas é a essência originária da verdade como 'aí'”.
Além disso, se a língua é determinada por significações espaciais, a mundanidade como modo de presença não pode mais fundamentá-la quando a espacialidade excede todo sentido temporal.
Textos posteriores, como a conferência sobre Hölderlin, pensam a língua não como utensílio, mas como abertura do mundo e como acontecimento apropriador.
Se o Ereignis dá ser e tempo, a língua apropriadora não pertence nem ao ser nem ao tempo.
Portanto, o parágrafo que tenta estabelecer o sentido temporal do discurso deve ser tão insustentável quanto o que trata da temporalização do espaço.
A palavra e a língua não são as únicas a se excepcionarem do mundo. A determinação do ser do ente intramundano como finalidade é o pivô da hermenêutica existencial do mundo.
Nenhum utensílio pode ter uma finalidade própria.
Um ente com finalidade própria, diferente do Dasein, não teria caráter mundano.
Não há nada no mundo de que se possa dizer: “tem uma finalidade própria”. Exceto a mão.
Em resposta à pergunta “Que significa pensar?”, Heidegger afirma: “Com a mão tem-se uma finalidade própria”.
A mão não pode ser determinada como um órgão carnal de preensão.
A mão está separada de todos os órgãos de preensão por um abismo de essência.
Somente um ser que fala, isto é, que pensa, pode ter mãos e realizar o trabalho da mão.
A mão possui uma “finalidade própria”, invalidando a distinção entre um com-o-quê e um a-quê, pois manipular é a própria mão.
À parte, e talvez em lugar nenhum, a mão não tem finalidade.
A mão não é um utensílio, não está à mão nem simplesmente presente, não é intramundana, pois se exclui da rede das finalidades e da referência-significativa.
Para preservar a tematização do caráter de utensílio do ente próximo, poder-se-ia reconduzir a mão à utensilidade concebendo-a, à maneira aristotélica, como um utensílio de utensílios.
Aristóteles afirma que a mão é um utensílio para utensílios.
Essa determinação reaparece em um contexto importante: na discussão da proposição de que a alma é, de certo modo, todas as coisas.
Aristóteles acrescenta que a alma é como a mão, pois a mão é um utensílio de utensílios, o intelecto é forma das formas e a sensibilidade, forma dos sensíveis.
Essa comparação não é sem peso filosófico, pois iguala a ψυχή, que é revelação do mundo, à mão, o que só é possível se a mão for de mesmo estatuto.
Isso eleva a mão ao nível da mundanidade, confirmando o problema que deveria resolver.
A mão e a carne se desprendem do mundo, embora sejam requeridas para conferir sentido pleno aos conceitos de ser-à-mão e ser-simplesmente-presente.
A razão fenomenal para essa exceção reside na estrutura do aparecer intramundano.
A analítica do mundo ambiente descreve as condições de possibilidade do encontro do ente intramundano.
O aparecer é sempre um aparecer em cena, visto e apreendido de frente.
A mão e a carne em geral não podem vir ao encontro, não se oferecem em um face a face, não são apresentáveis, pois o deixar-encontrar está fundado temporalmente em um apresentar.
A mão e a carne não podem se manifestar no mundo porque a estrutura do aparecer intramundano lho proíbe.
O mesmo ocorre com o espaço, uma vez que ele não mais tira sua origem existencial da temporalidade, da qual o mundo é um modo de temporalização.
Subtrair o espaço à temporalidade é dizer que ele não está “no” mundo, contradizendo uma asserção mantida ao longo de Ser e Tempo.
Coloca-se então a questão se o espaço não está ligado à carne, e se essa ligação é o motivo de sua irredutibilidade.