A independência ontológica do espaço, por sua vez, invalida a explicitação do des-distanciamento e subtrai o Dasein, enquanto espacial, à decisão entre queda e resolução, próprio e impróprio, pensamento do ser e obsessão do ente.
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Diante disso, interroga-se se ainda é possível compreender a espacialidade como um existencial.
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Questiona-se se o Dasein cuja espacialidade não é temporalizável pode conservar seu nome, e se o problema do espaço não marca a fronteira de uma ontologia fundamental que toma o Dasein como fio condutor, tal como pressentido no limiar do parágrafo 70.
4. Retomada do des-distanciamento e crítica da origem geométrica da distância
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A radicalidade das questões anteriores não autoriza a interrupção do exame do des-distanciamento, pois, mesmo admitindo que o espaço não é um modo de temporalização, ainda não se elucidaram suficientemente as razões dessa não-derivabilidade.
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Interroga-se se o des-distanciamento não pressupõe uma determinação da distância que separa o Dasein do utensílio e, por conseguinte, um espaço geométrico solidário de uma ontologia a ser destruída.
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Pergunta-se se o cálculo das distâncias é realmente a origem das avaliações cotidianas do Dasein, e se um conceito existencial do ser-afastado pode libertar a espacialidade do ser-no-mundo de toda relação com a extensio categorial.
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Nega-se que a apreciação do afastamento seja medida aplicada de uma distância, pois o ser-afastado não é, antes de tudo, apreendido como distância.
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Se longínquos devem ser estimados, isso ocorre relativamente aos des-distanciamentos nos quais o Dasein cotidiano se mantém, não segundo um espaço previamente mensurável.
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Do ponto de vista do cálculo, tais estimativas podem ser flutuantes e imprecisas, mas possuem determinidade própria compreensível no uso corrente.
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Exemplos como ser uma caminhada, ser só um pulo, durar o tempo de fumar um cachimbo, mostram uma medida prática cujo critério é a situação e o sentido vivido do trajeto.
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Essas aproximações não têm exatidão, e os afastamentos dependem do afazer de um ser-no-mundo para o qual o comprimento de um caminho pode variar com o humor.
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Contudo, embora não remeta ao espaço físico-matemático, o afastamento não é incommensurável, pois a longinquidão é apreendida segundo a duração.
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Assim, des-distanciar é apresentar e, além disso, o afastamento conta-se na escala do tempo.
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O curso de 1925 é dito acentuar o que Sein und Zeit atenua: um caminho objetivamente mais longo pode ser mais curto do que outro objetivamente mais curto que parece infinitamente longo.
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A diversidade dessa duração funda-se na pre-ocupação e no que foi tomado como preocupação, e o tempo que se é, conforme o modo de sê-lo, dá uma duração diferente.
5. Des-distanciamento e distância: existencial e categoria, e a aporia do ser-com
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A discriminação rigorosa entre des-distanciamento e distância é declarada essencial à hermenêutica da espacialidade, estabelecendo-se que o des-distanciamento é existencial e a distância é categoria.
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Entes intramundanos são afastados uns dos outros e do Dasein, enquanto corpos extensos são apenas distantes do sujeito que os contempla.
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Formula-se, assim, que a distância é um des-distanciamento deficiente, reforçando a hierarquia ontológica entre o existencial e o categorial.
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Há, entretanto, um caso em que essa partilha parece invalidada: o ser-com cotidiano caracteriza-se por cuidado de distância, por distanciamento.
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A distância mantida não pode ter significação categorial, pois o Dasein de outrem não tem o modo de ser de um ente diante-da-mão ou à-mão, e o ser-com é um existencial pertencente a um Dasein sempre meu.
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Enquanto regime ordinário do ser-com, essa distância não é o intervalo entre coisas desmundanizadas, nem o des-distanciamento pelo qual o Dasein aproxima e torna presentes utensílios.
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A ausência de um contraste expresso entre distância métrica e distância social é apontada como singular, pois tal contraste poderia prevenir confusões e uma interpretação categorial do ser-com cotidiano, que em aparência se aproxima ontologicamente do puro diante-da-mão do qual difere fundamentalmente.
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A equivocidade da distância, sendo também uma modalidade da queda, suscita problemas aos quais Sein und Zeit não responde, por não os ter formulado.
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Pergunta-se o que é a distância se ela é ao mesmo tempo um existencial e uma categoria, isto é, em sentido estrito, nem um nem outro.
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Interroga-se como discernir a distância medida da distância guardada, retomando-se uma aporia análoga àquela que surgia com a introdução de uma dispersão transcendente neutra, ao lado da dispersão factícia no impessoal.
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Se o outro Dasein é encontrado a partir do mundo e da temporalidade, e se a distância é uma estrutura do ser-com decaído, questiona-se se a irredutibilidade do espaço não proíbe todo ser-com-próprio e não mantém o ser-com na queda.
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Considera-se a alternativa de que essa distância, cujo sentido ontológico-temporal permanece indefinível, e o ser-com em geral, não se deixem derivar do tempo, assim como o espaço.
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A legitimidade da questão é reforçada pelo fato de que o ser-com é um existencial maior cuja temporalidade nunca é desvelada.
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Sugere-se, então, buscar os motivos do fracasso do parágrafo 70 numa espacialidade na qual um ser-com atemporal seria constitutivo.
6. Exclusão heideggeriana da referência carnal e determinação do aqui como junto-de
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A objeção é formulada: Heidegger teria precisamente isentado o des-distanciamento de qualquer implicação carnal.
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Quando o Dasein preocupado aproxima algo de si, isso não significa fixá-lo numa posição do espaço à menor distância de um ponto do corpo.
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Proximidade significa estar no círculo do ente primeiramente à-mão para a circunspecção, de modo que a aproximação não se orienta pelo ego-coisa dotado de corpo, mas pelo ser-no-mundo preocupado e pelo que aí se encontra primeiro e sempre.
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O aqui é redefinido: não é o ponto indiferente do espaço ocupado pelo corpo, mas o junto-de-que de um ser-junto-de des-distanciante, unido ao próprio des-distanciamento.
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O contraste com concepções de proximidade e aqui recusadas pela analítica existencial é aproximado de
Husserl, especificamente das Ideias II.
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Husserl define o aqui no quadro de uma análise constitutiva da carne enquanto coisa material, articulando orientação e distância a partir do ego perceptivo.
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A carne porta o ponto-zero de todas as orientações, um aqui central último que não tem outro aqui fora de si em relação ao qual pudesse ser lá.
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Apesar de, em Husserl e em Heidegger, longe equivaler sempre a longe de mim, o eu é pensado de modo diferente em cada caso.