Explicitação

FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005

1. A estrutura da explicitação do compreender articula-se em três momentos, conforme a tripla estrutura formal que Heidegger frequentemente destaca nos fenômenos, pois tudo o que concerne ao Dasein extrai seu sentido da temporalidade, que articula três êxtases, e os três momentos da explicitação, marcados pelo prefixo vor-, têm sentido temporal, numa temporalidade que, diferentemente do conceito tradicional de tempo, temporalizado a partir do agora presente, se temporaliza a partir do êxtase do futuro, como projeção de si para diante e fora de si, de modo que a explicitação se funda num adquirido prévio (Vorhabe), numa visão prévia (Vorsicht) e numa apreensão prévia (Vorgriff), esta última remetendo a uma conceitualidade, explícita ou implícita, na qual o sentido se articula.

2. A dimensão de adquirido prévio, visão prévia e apreensão prévia significa que a explicitação nada é sem pressupostos, não havendo visão pura nem dado puro, livres de pressupostos e de sentido, que constituíssem um acesso originário, construção fantástica que ignora a estrutura extática do Dasein, pois sempre já se está no sentido, com a única exceção da revelação de Deus, que não tem pressuposto, sendo ela mesma seus próprios pressupostos, já que Deus se revela sem condição prévia, por sua exclusiva liberdade, e a dimensão da revelação cristã, a Trindade, é o próprio Deus, trazendo consigo as condições de sua revelação, banalidade teológica que serve de contraste.

3. A estrutura da explicitação corresponde de certo modo ao que se chamava a priori e funda-se na constituição de ser do Dasein como transcendência, sendo compreendido, no “enquanto”, não propriamente o sentido, mas o próprio ente, o martelo, aberto em sua possibilidade e em seu modo de ser, de modo que o sentido é a dimensão na qual se sustenta a compreensibilidade de algo, “a estrutura formal-existencial da abertura que pertence ao compreender”, retomando, numa linguagem alheia à teoria do conhecimento, aquilo que o a priori designava, e sendo a compreensão um existencial constitutivo do aí, abertura ao ser, cuja necessidade para que o ser se mostre implica a finitude do ser, correlativa da finitude do Dasein, e a mútua implicação de ser e Dasein, cuja relação constitui o ponto essencial.

4. O final do § 32 mostra que a estrutura tripla da explicitação, remetendo a adquirido prévio, visão prévia e apreensão prévia, instaura o chamado círculo hermenêutico, segundo o qual, para compreender algo, é preciso já tê-lo compreendido, círculo contra o qual não cabe a objeção de vício, pois é imposto pela própria estrutura do Dasein.

5. A hermenêutica foi empregada primeiramente na interpretação bíblica, cujo princípio fundamental, formulado por Santo Agostinho, é que é preciso crer para compreender e compreender para crer, fórmula cuja ordem não é indiferente, pois o acento recai com razão sobre a fé, visto que a explicitação da Bíblia é a vida do crente e a crença é recebida e não adquirida, não sendo algo que se decida por si mesmo.