FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005
1. Franck está adoentado nesta aula.
2. Inicia-se a análise das estruturas do ser-em, que constituem o sentido da constituição do Dasein, num capítulo longo dividido em duas partes, a primeira sobre a constituição existencial do aí, tratando da disposição afetiva, da compreensão, do enunciado e também do medo, que prepara a análise da angústia, e a segunda sobre o ser cotidiano do aí e sua decadência, capítulo em que começa a aparecer a distinção entre existência própria e imprópria e se explicita a tese inicial de que o Dasein é compreensão do ser, antecipando elementos ainda não analisados, como a morte, na qual repousa aquela distinção, antecipação constante nas investigações filosóficas e fundada na própria estrutura da compreensão.
3. Após a análise do mundo e do quem, o ser-em deve ser compreendido, negativamente, como não subsistente, pois nada no Dasein é segundo o modo da subsistência, e não como relação entre um sujeito e um mundo subsistentes, e, positivamente, como modo de ser do ser-no-mundo, designando, se se quisesse falar a língua da ontologia categorial, o “entre”, e no § 28 (pp. 132-133) afirma-se que o Dasein é cada vez seu aí, sendo seu ser entendido como existir, de modo que o capítulo explora a constituição existencial desse aí que o Dasein tem de ser, pois tudo o que o Dasein é, tem de sê-lo (zu sein), segundo o sentido ativo e verbal do ser que confere à obra sua entonação própria.
4. O aí não tem primitivamente valor espacial, sendo antes aquilo em que a espacialidade do Dasein se torna possível, pois o espaço funda-se no mundo e no ser-em, e o aí, abertura prévia da espacialidade, tem o caráter de abertura e de não-fechamento, forma heideggeriana e radicalizada da questão husserliana dos horizontes, de modo que o Dasein, descrito na velha linguagem do lumen naturale como iluminado (erleuchtet), é a própria clareira (Lichtung), não produzida nem recebida de outro ente, fogo que produz a luz em que tudo se mostra, correspondente ao que os gregos chamavam aletheia, não-retiro (Unverborgenheit) e abertura (Offenheit), embora com isso não se faça justiça àquilo a que a aletheia remete, o retiro do ser, subtraído à clareira e apenas pressuposto em Sein und Zeit sob o título de esquecimento do ser.
5. O Dasein é sua abertura (Erschlossenheit), isto é, tem de ser sua abertura segundo seu modo de ser, podendo também não sê-la, e, afirmando que o Dasein é a clareira, Heidegger deixa de lado a questão da clareira do próprio ser, isto é, da dimensão em que algo como ser e verdade é possível, que ele chamará mais tarde apropriação (Ereignis), pois, sendo ser e Dasein inseparáveis, a clareira só pode residir no sustentáculo de sua relação, relação de todas as relações, nomeada Ereignis por ser o acontecimento por excelência, por indicar a mútua propriedade (eigen) de ser e Dasein e por remeter a eräugen, ser requerido sob o olhar do ser, não sendo nem ser nem Dasein.
6. A primeira estrutura do aí é a disposição afetiva (Befindlichkeit), de sich befinden, encontrar-se, aquilo a partir do qual se responde à pergunta “como vai?”, ontologicamente o que se chama Stimmung, disposição, tonalidade, humor, de modo que o que desvela o mundo não é o saber nem o pensamento, mas o humor, como se o tratado das paixões viesse no lugar da segunda Meditação de Descartes, pois no humor o Dasein é posto diante do fato de ter de ser seu aí (p. 134), e, não havendo nada fora do humor, já que a atonia é o humor da ausência de humor e só se sai de um humor por outro, o ser do Dasein e o próprio Dasein revelam-se como um fardo, poder originário de revelação antes confiado à theoria que culminará no privilégio da angústia, forma do ser-para-a-morte e gonzo da analítica existencial.
7. Na disposição, o Dasein está aberto a si mesmo como o ente entregue a seu ser, que ele tem de ser existindo, isto é, tendo seu ser como encargo, entrega que provém do próprio ser, que envia o Dasein a si mesmo e a seu encargo, formulação contornada que visa conferir à existência um sentido puramente verbal e transitivo e erradicar toda substancialização, pois Sein und Zeit é uma dessubstancialização geral e radical do que se chamava subjetividade, a ponto de torná-la insustentável.
8. A disposição revela ao Dasein que ele é e tem de ser (dass es ist und zu sein hat), abertura que não é conhecimento, o fato de ser, que Heidegger chama estar-lançado (Geworfenheit), facticidade da entrega do Dasein a si mesmo (p. 135), não assimilável à facticidade do subsistente, ligada ao projeto (Entwurf) e constituindo um dos três momentos do cuidado, com dimensão temporal de passado, sendo por ela que deveria passar uma tematização da nascença, cuja ausência em Sein und Zeit foi criticada e que equivaleria à questão da gênese da diferença ontológica, isto é, de como surge do ser um ente que o compreende, questão abordada pelo jovem Lévinas em Da existência ao existente a partir do estar-lançado.
9. A revelação operada pela disposição é na maior parte das vezes esquivada, surgindo por um instante na experiência de sentir-se estranho a tudo, “o que faço aqui?”, revelação do puro estar-lançado que logo cede à retomada dos afazeres, e, sendo o estar-lançado estar lançado num mundo, a disposição revela também o ser-no-mundo em sua totalidade, sem que nada escape a seu poder, nem mesmo a teoria, que acredita estar livre dela.
10. A aula é retomada após interrupção.
11. O exemplo do medo interessa sobretudo pela estrutura geral do afeto, reencontrada na análise da angústia, que só é compreensível a partir dela, articulando-se em três momentos: o diante-de-quê (wovor), sempre um ente do mundo, subsistente, à mão ou coexistente; o próprio temer, possibilidade do ser-no-mundo que revela o mundo como ameaçador, estendendo-se da ameaça precisa a todo o ser-no-mundo; e o por-quê, sempre o próprio Dasein, mesmo quando se teme por outro, através do ser-com, sendo difícil a distinção entre medo e angústia, que essa análise prepara (§ 30, p. 141).
12. A compreensão é tão originária quanto a disposição, pois os momentos do aí são co-originários e ligados, e não deve ser entendida no sentido de Dilthey, que distinguia a explicação, própria das ciências da natureza, e a compreensão, própria das ciências do espírito que revive suas produções, mas como algo já presente na análise do mundo e da significância, anterior à partilha entre intuição e pensamento, das quais estes são derivados distantes, apoiando-se na expressão alemã “eine Sache verstehen können”, entender de algo, saber lidar com algo, na qual können significa ao mesmo tempo poder e saber não teórico, de modo que o que o marceneiro pode e sabe é seu próprio poder-ser, sua existência, e compreender é a compreensão pela existência de suas próprias possibilidades, tornando o Dasein ser-possível (Möglichsein), deslizamentos sugeridos pela língua, mas controlados descritivamente.
13. O Dasein é sempre o que pode ser, novo passo na dessubstancialização, numa possibilidade que não se opõe à efetividade ou à necessidade, como na doutrina kantiana das modalidades, em que é inferior à efetividade, mas é o mais alto, e o Dasein não dispõe de um estoque de possibilidades, estando sempre engajado em umas e desligado de outras, lançado em possibilidades, sendo eminentemente possibilidade do ser-livre para seu poder-ser mais próprio, a morte, inalienável, pois ninguém pode desonerar outrem de seu poder-morrer, e insuperável, pois, como poder não mais ser no mundo, subordina todos os poderes-ser intramundanos, de modo que compreender-se é compreender-se como mortal, princípio de individuação radical e condição de possibilidade da ontologia.
14. A compreensão é a existência realizada como compreender, não havendo poder-ser sem compreensão desse poder, razão pela qual o Dasein pode também se compreender mal, e a análise, fenomenológica e não especulativa, mostra que o Dasein, ser dos longes, sempre a caminho e inacabado em relação à ideia de um todo subsistente, compreende onde está consigo mesmo e com suas possibilidades relativas ao ente intramundano, à coexistência e ao mundo, descobrindo o martelo no que se pode fazer com ele e o outro nas relações possíveis, sendo esse descobrimento segundo possibilidades o próprio compreender, o que explica por que a questão filosófica do ser da natureza visa suas condições de possibilidade, como em Kant.
15. A compreensão tem o caráter de projeto (Entwurf), pois toda leitura supõe um horizonte de sentido antecipado, ainda que vazio, como ao abrir pela primeira vez a Crítica da razão pura, assim como o encontro com o martelo supõe aberto o horizonte de sua empregabilidade, projeto cujo adiante mais radical é a morte e que abre o espaço de jogo dos diversos poderes-ser, situação hermenêutica em que compreender supõe já ter compreendido, sendo o projeto também lançado, estendendo-se a todo o ser-no-mundo e incluindo necessariamente, na abertura do aí, uma abertura do ser em geral, compreendido no projeto sem ser concebido ontologicamente, de modo que o ser só é acessível na finitude, isto é, no poder-morrer.
16. A próxima aula tratará notadamente da distinção entre compreender e explicitar.