5: 8/11/2005

FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005

1. A necessidade da questão do ser exige colocá-la a partir da analítica existencial do Dasein, cujo modo de ser se distingue dos demais entes e cuja constituição fundamental é o ser-no-mundo, de modo que o primeiro momento importante é a análise do mundo, realizada a partir do ente intramundano encontrado na ocupação cotidiana como utensílio, pertencente a um complexo cuja totalidade remete ao próprio Dasein, que existe nela e não cessa de compreendê-la, tendo o mundo, como totalidade das remissões, o estatuto de significância, pois as coisas são dadas por seu sentido e não revestidas dele posteriormente.

2. Após a análise do mundo, os parágrafos sobre Descartes mostram que ele falhou a mundanidade, isolando o pedaço de cera sem questionar o sentido de ser da substancialidade, e a eles se segue uma observação decisiva da p. 100, que remete à seção “Tempo e ser”, nunca publicada, a qual deveria mostrar por que o fenômeno do mundo foi falhado desde o início da tradição ontológica, explicitamente em Parmênides, e por que essa omissão retorna constantemente, tese cuja importância só se compreende à luz do percurso ulterior de Heidegger, no qual o mundo se torna a verdade da essência do ser, jamais pensada pelo Ocidente, e cuja ininteligibilidade no estágio de Sein und Zeit é uma das razões de sua interrupção.

3. Essa observação indica uma profunda continuidade entre Heidegger I e Heidegger II, não sendo possível compreender o segundo sem o primeiro.

4. A espacialidade já estava presente, sem ser tematizada, na estrutura do um… zu, pois o um alemão tem também sentido espacial, como em Umwelt, e a crítica de Descartes, situada entre a análise da mundanidade e a da espacialidade, serve também para mostrar que a determinação do espaço como extensão tridimensional depende da ontologia tradicional da Vorhandenheit, devendo a espacialidade do Dasein, que só pode ser espacial conforme seu modo de ser, a existência, fundar-se no ser-no-mundo, segundo a tese fundamental de que o espaço está no mundo e não o mundo no espaço, sendo alcançada pelo mesmo método que remontou do ente intramundano ao Dasein, a partir da proximidade (zunächst) do ente à mão (Zuhandenheit), proximidade que não é distância métrica, mas decidida pela ocupação.

5. No uso, cada utensílio mostra ter seu lugar, o que se percebe quando algo não está em seu lugar, pois é na vacância que o lugar se mostra, e o acesso a cada lugar supõe a descoberta do onde (Wohin) de todos os utensílios, sítio comum que Heidegger chama região (Gegend), palavra bem escolhida que designa os pontos cardeais como princípio de orientação, a vizinhança e os arredores, e ecoa em Gegenstand e begegnen lassen, sem sentido geométrico, sempre relativo à ocupação, pois as regiões não são formadas por coisas simplesmente dadas em conjunto (p. 103).

6. Mesmo o geográfico é descoberto primeiro na ocupação, pois não se diz que o sol surge no leste, mas que se levanta, e a espacialidade primeira é a da ocupação, restando explicar a passagem ao espaço idealizado, e uma nota marginal de Heidegger levanta o problema da unidade dos lugares, atribuída em Sein und Zeit à unidade do mundo, mas que deveria ser buscada no próprio ser dos lugares do ente à mão, acessíveis à mão, remetendo assim à unidade do corpo, problema essencial, como atestam uma carta de 1932 à esposa, na qual Heidegger afirma ter enfim compreendido o espaço e que isso pode modificar a interpretação do tempo de Sein und Zeit, e a conferência Tempo e ser, que declara insustentável a interpretação do espaço dessa obra.

7. A espacialidade do ser-no-mundo repousa sobre dois existenciais, o dis-tanciamento (Ent-fernung) e a orientação (Ausrichtung), sendo o primeiro uma palavra de sentidos contraditórios, afastamento e supressão do afastamento, a serem mantidos juntos, à maneira da Aufhebung hegeliana, e em sentido ativo, transitivo e verbal, designando o movimento pelo qual o Dasein se porta aos longes para trazê-los de volta à sua ocupação, numa “loucura da proximidade” cujo fundamento, segundo uma nota marginal, está no primado do ser como presença constante e apresentação (Gegenwärtigung), eliminando toda geometria e extensão e conferindo à espacialidade um caráter existencial.

8. Sendo o Dasein dis-tanciante, coloca-se a questão de seu próprio lugar, que Husserl, nas Ideias II e nas Meditações cartesianas, concebe como um aqui absoluto a partir do qual aqui e ali ganham sentido, e que Heidegger recusa por ligá-lo a um corpo subsistente, compreendendo o aqui do Dasein como termo do dis-tanciamento, pois ele está aqui enquanto retorna de lá, num movimento de ir buscar para aproximar que dessubstancializa o aqui e o subtrai à geometria, contra a velha ideia da individuação como lugar no espaço-tempo universal, dis-tanciamento que o Dasein jamais sobrevoa, pois ele o é.

9. A aula é retomada após interrupção.

10. O segundo existencial da espacialidade, a orientação, já presente nos lugares orientados uns em relação aos outros e ao Dasein, faz deste um ser orientado e orientante segundo a ocupação e a circunvisão (Umsicht), da qual nascem as direções fixas de direita e esquerda (pp. 108-109), mas estas remetem à corporeidade (Leiblichkeit), que Heidegger declara não tratar, com o argumento pouco convincente de que apenas uma classe de utensílios se refere à mão, recusa que se explica porque tratar do corpo vivo exigiria uma ontologia da vida, excluída da partilha fundamental entre Vorhandenheit e existência, limite interno da conceitualidade de Sein und Zeit que Os conceitos fundamentais da metafísica enfrentam ao analisar o organismo e que termina na co-pertença de vida e morte, incompatível com a análise puramente existencial da morte.

11. A orientação funda-se no ser-no-mundo, como mostra a discussão com Kant (p. 109), para quem direita e esquerda dependeriam de um sentimento subjetivo, ao passo que são direções, e o próprio Kant admite incidentemente que o sentimento da diferença de nada serve sem a apreensão de um objeto cujo lugar habitual se conhece, remissão a um ser-no-mundo anterior que revela a fundação da orientação no ser-no-mundo, de modo que o espaço está no mundo e não o inverso.

12. Passou-se da espacialidade do ente intramundano, caráter de lugar numa região, à espacialidade do Dasein como dis-tanciamento e orientação, fundada no ser-no-mundo, espaço da ocupação cotidiana, não geométrico nem científico, a partir do qual a geometria e o olhar científico podem nascer por modificação da ocupação, movimento que reproduz formalmente a tese husserliana de um mundo da vida que precede e sustenta como solo o mundo das idealidades científicas.

13. Sendo o espaço fundado no ser-no-mundo, sua abertura só é possível a partir do mundo como significância, mostrando-se como um dar-lugar, um arranjo, uma “instalação”, pois o Dasein arruma (einräumt) as coisas em seus lugares e primeiro instala o espaço, concebido verbalmente como espacializar, condição para que seja existencial e tenha sentido temporal, mas o capítulo termina de modo embaraçado (pp. 112-113), afirmando que o ser do espaço não tem o modo de ser do Dasein e que mostrar-se num mundo nada decide sobre seu modo de ser, contra o princípio fenomenológico de que o modo de mostrar-se revela o ser do que se mostra, o que indica que algo se mostra no Dasein sem lhe pertencer, enigma transferido para a questão do próprio ser, que Heidegger, mais tarde, em “A arte e o espaço”, radicaliza ao pôr em dúvida que se possa sequer atribuir um ser ao espaço, pois com a apropriação (Ereignis) o ser desaparece e só então se pode atingir o que é próprio do espaço.

14. Ereignis significa acontecimento e, por um jogo etimologicamente falso, deixa ouvir eigen, próprio, e eräugen, ser tomado sob o olhar de, remetendo à relação entre ser e Dasein, indispensáveis um ao outro, da qual a apropriação é o sustentáculo, prévio aos termos, anterior ao ser e ao homem, fogo puro que abre a esfera do aparecer em que tudo se mostra, inclusive o ser em seu retiro, dimensão inteiramente outra que a de Sein und Zeit, instalado na relação entre ser e homem sem jamais interrogar aquilo que a sustenta.