FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005
1. Sem se deter nos parágrafos sobre Descartes, destinados a mostrar a pertinência da análise do conceito de mundo, retoma-se a tese de que o utensílio pertence a um conjunto previamente descoberto e acrescenta-se que seu uso não supõe nenhum conhecimento teórico de algo subsistente, rompendo com a tese husserliana, herdada de Brentano, de que toda intencionalidade é representação ou a supõe, pois o trato (Umgang) não é um saber, e o acesso primeiro ao ente não é o saber, assim como o acesso primeiro ao ser é a angústia, de modo que o ser do martelo se revela no uso, no qual se está submetido ao ser-bom-para (um… zu) próprio dele, e é o martelar que descobre sua manejabilidade (Handlichkeit), razão pela qual Heidegger chama Zuhandenheit, ser-à-mão, a determinação ontológico-categorial do utensílio.
2. Há uma diferença ontológica entre Vorhandenheit, interpretação da substancialidade como permanência daquilo que está plantado diante, desconectado de todo uso, conceito que permite a Heidegger apreender a ontologia aristotélica e a tradição, e Zuhandenheit, modo de ser do utensílio tal como se descobre na ocupação cotidiana, fenômeno que por sua banalidade escapou ao olhar filosófico e jamais foi tematizado, como mostra a análise cartesiana do pedaço de cera, que abstrai o lugar e o complexo a que a cera pertence, sua mundanidade, abstração que também está na base das análises husserlianas da percepção, de modo que a Zuhandenheit é o ser-em-si (An-sich-Sein) do utensílio, inacessível a todo olhar teórico, que é derivado em relação a esse acesso prévio.
3. O fato de o olhar teórico não apreender o martelo não significa que lhe falte um olhar apropriado, a circunvisão (Umsicht), entendida literalmente como olhar em torno, verificando se há tudo o que é necessário para servir-se do martelo.
4. O ser-à-mão, determinação ontológico-categorial do utensílio em si, está sempre em retiro, pois quanto mais o martelo está à mão, mais seu ser-à-mão se retrai, e o sistema de remissões estende-se muito além do martelo e do prego, à obra a produzir, ao tempo da encomenda regulado pelos relógios, à natureza como fonte de materiais e aos outros Dasein, abrangendo a totalidade do ente, sem que isso seja antropocentrismo, já que não há “homem” e o Dasein é pura transcendência em sentido verbal, sempre a caminho (unterwegs), pois tudo em Heidegger possui dimensão verbal e mobilidade própria do ser, não havendo nada de estável, apenas movimentos, que só se compreendem se reefetuados.
5. A Zuhandenheit está necessariamente em retiro no próprio uso, assim como a ontologia é necessária porque o ser está sempre em retiro, e todo o empreendimento extrai seu sentido do esquecimento do ser pensado como retirada do ser, que só se mostra não se mostrando, o que Sein und Zeit não diz suficientemente, colocando-se então a questão de como aceder ao que está em retiro e fazer a experiência da Zuhandenheit.
6. As coisas não são dadas primeiro para depois se revestirem de sentido, mas são dadas pelo próprio sentido, sendo o martelar que dá o martelo como martelo, sem coisas abstratas, inversão da tradição, que parte das propriedades para chegar ao martelo, e esse sentido provém do ser.
7. A determinação categorial do utensílio mostra-se quando algo não funciona, como quando o cabo do martelo se quebra e se revela que ele é feito para ser usado, isto é, a própria manejabilidade, de modo que a função aparece quando os utensílios faltam, anunciando-se o sistema de remissões nos modos deficientes e perturbados, analisados na p. 74, nos quais se anuncia a mundanidade numa espécie de desmundanização instantânea.
8. O mundo surge na perturbação, embora ainda não se saiba ontologicamente o que ele é, e o sistema de remissões que se estende à totalidade do ente mostra-se como tal quando perturbado, abrindo um acesso fenomenológico e atestando que o Dasein, definido como ser-no-mundo, está aberto ao mundo mesmo na ocupação ordinária, restando determinar a estrutura ontológica da remissão e saber se ela pode ser compreendida como signo, lugar clássico do fenômeno da remissão.
9. Entre os comentários de Sein und Zeit, o de Greisch é honroso e o de Biemel muito claro, mas o texto não apresenta hoje grandes problemas de interpretação, sendo preferíveis os comentários mais curtos.
10. A remissão (Verweisung), constitutiva da mundanidade, isto é, da pertença de todo utensílio singular a uma totalidade fora da qual ele não tem ser, é analisada a partir do signo (Zeichen), utensílio em que o fenômeno da remissão se encontra por excelência, cuja utilidade consiste em mostrar (zeigen), como no exemplo da seta indicadora dos primeiros automóveis, compreendida quando os que vêm atrás e os pedestres regulam seu comportamento por ela, de modo que o signo não é uma coisa que mostra outra, mas um utensílio que torna expressamente manifesto o sistema de utensílios e mostra o ser-no-mundo ao ser-no-mundo, conservando a determinação grega do signo como mostrar, mas subordinando o signo à remissão, que não pode ser compreendida a partir dele.
11. O § 18, que trata da própria remissão e acede à mundanidade do mundo, começa recordando (p. 83) que o mundo já está presente em todo ente à mão, previamente descoberto, e não a priori, termo que Heidegger evita, colocando a questão de como o mundo se mostra em seu ser, como compreender sua relação com o que nele se encontra e como interpretar a remissão que não é signo.
12. A remissão é interpretada pela estrutura segundo a qual o ente à mão tem em si o caráter de ser-referido-a, pois com ele “se tem a ver com algo” (Es hat mit ihm bei etwas sein Bewenden), sendo o caráter de ser do à-mão a conjuntura (Bewandtnis), termo que designa numa só palavra a estrutura da remissão com uma nuance de realização, tradução absurda se vertida por finalidade, escolha que não é passe de mágica linguística, pois todo pensamento se faz numa língua e o fenômeno específico da remissão própria do utensílio, distinta da sinalética, precisa ser nomeado, apoiando-se além disso no uso corrente da língua alemã.
13. A conjuntura é o ser do ente intramundano, e a totalidade conjuntural retorna, em última instância, não a um quê, mas a um quem, o Dasein, ente com a constituição do ser-no-mundo, de modo que a totalidade das remissões, onipresente em cada utensílio, não se fecha sobre si mesma, mas sobre o Dasein, indicando que a mundanidade é uma estrutura do ser do Dasein e que esse conjunto nada tem de substancial, sendo uma totalidade de sentido projetada pelo Dasein, o que confere ao mundo o estatuto de significância (Bedeutsamkeit), abertura prévia de uma dimensão de sentido na qual as coisas podem aparecer como o que são, pondo fim às determinações categoriais e cosmológicas do mundo como grande continente de toda ordem e fazendo do mundo um modo de ser do Dasein.
14. A aula termina com o aviso de que a próxima, no dia 8, começará às 9h45.