16: 21/02/2006

FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005

1. Recomenda-se ir ao cinema na véspera do concurso, pois o ideal é chegar com as mãos nos bolsos.

2. A aula é dedicada aos §§ 64 e 65, que marcam uma virada na análise, restando depois três capítulos a tratar em quatro sessões, uma para o capítulo 4, outra para o 5 e mais tempo para o 6, mais importante e que tem correspondência nos Problemas fundamentais da fenomenologia.

3. O título “Cuidado e ipseidade” (Sorge und Selbstheit) exige distinguir o Selbst, o “mesmo” de “eu mesmo”, do ego, sendo “ipseidade” tradução correta, já que o latim distingue idem e ipse, identidade das coisas e das pessoas, e responde ao problema, latente desde o início, do lugar do ego num pensamento em que o Dasein, termo indeclinável ao contrário do eu, não põe o eu em primeiro plano, embora se caracterize por dizer eu, dado fenomenal irredutível, e em que Dasein substitui consciência (Bewusstsein) por pretender ir abaixo dela, pois, se a intencionalidade é pura relação, a dimensão dessa relação, a abertura, deve estar previamente aberta e precede a consciência.

4. O cogito é uma res, aquilo que se põe a si mesmo, o pressuposto (sup-posto), isto é, a substância, o que confere legitimidade a pensá-lo como tal.

5. Diante da estrutura rica e complexa do cuidado, cuja unidade deve ser pensada antes de se perguntar por seu sentido de ser, é o eu que parece manter unida essa totalidade estrutural, mas o eu e o si foram sempre compreendidos categorialmente como fundo portador, substância ou sujeito, e, concebido existencialmente, o que se atinge não é o eu, mas aquilo sem o qual ele não seria, a ipseidade (Selbstheit), mais fundamental que a egoidade, possível apenas sobre seu fundo, pois em “eu mesmo” o fundamental é o “mesmo”, de modo que se abandona o eu sem abandonar o si, sendo o eu apenas uma interpretação unilateral do si.

6. O ponto de partida é a autoexplicitação cotidiana do Dasein no dizer “eu”, no qual ele visa a si mesmo, e não, como afirma Heidegger, “nada mais”, pois, segundo Husserl, ao dizer eu pronunciam-se todos os pronomes pessoais ao mesmo tempo.

7. Nessa expressão simples, o eu aparece como aquilo que se mantém o mesmo (als dasselbe sich durchhaltend), e o problema é explicar existencialmente esse manter-se, essa constância (Stehen), da qual a ontologia da Vorhandenheit dá uma boa interpretação pré-ontológica, como em Kant, que teve razão ao apreender o teor fenomenal do eu no “eu penso”, forma pura da representação, mas pensou o eu como sujeito subsistente, com identidade de coisa e não de si, sem explorar seu ponto de partida fenomenológico por não ver que o “eu penso” sempre pensa algo, o ente intramundano, isto é, sem ver o ser-no-mundo e o mundo como estrutura do eu, crítica que não atinge Husserl, que num póstumo faz da mundanidade uma estrutura a priori da subjetividade, e que permite a Heidegger acreditar sua análise ao passar pela de Kant, pois dizer “eu sou” é dizer “sou ser-no-mundo”.

8. Dizendo “eu” como ser-no-mundo, diz-se ser-já-em-um-mundo e ser-junto-ao-ente intramundano, inseparáveis do ser-adiante-de-si, de modo que no dizer “eu” se exprime o cuidado inteiro, cabendo compreender a ipseidade e sua manutenção a partir do cuidado em sua forma mais alta, a resolução antecipadora, segundo a máxima nietzschiana de que só os graus superiores importam, sobretudo porque a existência cotidiana é dispersão, o contrário da manutenção, e a constância do si (Ständigkeit des Selbst), distinta da permanência compacta e invariante da substancialidade, identifica-se com a autonomia (Selbstständigkeit), o problema da liberdade, encontrada no projeto para o poder-morrer mais próprio, pois nada é mais si mesmo que o inalienável, a morte, princípio de individuação puramente existencial e não espaçotemporal.

9. A estrutura do cuidado realiza-se plenamente na ipseidade e unifica-se na resolução antecipadora, fornecendo a base fenomenal para buscar o sentido de ser do cuidado, a temporalidade, passagem a outro plano em que toda a análise do Dasein se reúne sobre o cuidado unificado.

10. A aula é retomada após interrupção.

11. O § 65 busca o sentido ontológico do ser do Dasein, sendo o sentido aquilo em que se sustenta a compreensibilidade de algo sem que esse algo venha tematicamente ao olhar, o para-onde do projeto primário, ligado essencialmente à possibilidade e ao poder-ser, como no martelo descoberto como aquilo que serve para martelar, e aquilo que torna possível o poder-ser, sem que Heidegger fale de condição de possibilidade, pois Bedingung contém Ding e remete às coisas, sendo o sentido ligado ao projetar, estrutura do compreender, sempre orientado numa direção, num “sentido”, de modo que a questão do sentido do ser, partindo do Dasein, deve abrir-lhe a dimensão em que o ser ganha sentido, precipitando, porém, a referência do sentido do ser ao Dasein sem atingir o próprio ser, razão pela qual Sein und Zeit se interrompe no limiar da seção “Tempo e ser”, onde deveria ocorrer a viragem.

12. Apreendendo qualquer coisa, o Dasein já projetou seu horizonte de compreensão, e a questão do sentido visa essa dimensão previamente aberta, não mais para compreender o ente intramundano, mas a totalidade estrutural do cuidado e o próprio Dasein, que se compreende como aquele que compreende tudo isso e como compreensão do ser, nó que confere à análise sua importância, pois o sentido de ser do cuidado é o de um ente em relação com o ser, e o tempo será exibido como horizonte de toda compreensão do ser.

13. Algo tem sentido quando está aberto em seu ser e é compreensível a partir da dimensão de sua abertura, estrutura que agora opera no nível do próprio ser, pois a questão do sentido do ser pergunta em que dimensão o ser é compreendido, o tempo, como mostra o eidos platônico, aquilo que sempre já se deve ter visto, por uma visão imemorial, para reconhecer isto como isto, cujo “sempre já”, anterior à experiência, é uma determinação temporal, de modo que o a priori só é compreensível com uma compreensão prévia do tempo.

14. O que possibilita o ser do Dasein na plenitude de seus componentes estruturais deve ser buscado em seu modo de ser mais alto, a resolução antecipadora, ser-para-o-poder-ser mais próprio, que supõe que o Dasein possa advir a si mesmo em sua possibilidade mais própria (auf sich zukommen), de onde deriva o futuro (Zukunft), mantendo a possibilidade como possibilidade, o que é existir, de modo que o futuro é compreendido primeiro como sentido do morrer, conduta que descobre exemplarmente o futuro, sendo o passado como ter-sido (Gewesenheit), que o Dasein é constantemente, a dimensão em que se projeta o estar-lançado, compreendido na resolução como culpabilidade originária de fundamento lançado de sua nulidade, e o presente, a presentificação (Gegenwärtigung) própria do ser-junto e da ocupação.

15. A dimensão em que se compreendem os três momentos do cuidado é o tempo, procedimento análogo ao das lições husserlianas sobre o tempo, texto extraordinário que parte da audição de uma melodia, objeto a cuja essência pertence escoar-se no tempo, para descrever o encadeamento dos vividos que a tornam possível, envolvendo memória e imaginação, situação exemplar para descrever os vividos constitutivos do tempo.

16. Os três momentos do cuidado só têm sentido pela existência como futuro, pelo estar-lançado como ter-sido e pela decadência como presente, de modo que a temporalidade, unidade dos três, é o sentido do cuidado, temporalidade que não pode ser concebida pela medida da subsistência, do cosmos e da physis, como ocorre na Física de Aristóteles, que parte do agora e constitui a sucessão dos agoras, ou em Husserl, que parte do puro presente como arqui-sensação, pois aqui a dimensão a partir da qual o tempo se temporaliza é o futuro, prioridade já presente na esperança cristã e messiânica judaica, cuja distinção em relação ao conceito filosófico de tempo Heidegger bem viu, devendo a temporalidade vulgar ser explicada a partir da temporalidade extática.

17. Uma questão da audiência pergunta por que o ser-adiante-de-si tem sentido mais temporal que espacial.

18. Em Sein und Zeit, Heidegger reconduz a espacialidade à temporalidade, como modo de temporalização que privilegia o presentificar, tese que “Tempo e ser” declarará insustentável, e reconhece que muitas significações da língua são originariamente espaciais, podendo ser desespacializadas, como a interioridade espiritual, o que levanta a questão de se é possível ir na língua contra a língua sem antes fazer justiça à espacialidade, problema considerável para Heidegger, que falará depois do topos do ser e dirá em “A arte e o espaço” que o lugar talvez nem tenha ser, como diz da apropriação.

19. O futuro é um deixar-vir-a-si, o ter-sido um retornar a e o presente um deixar-vir-apresentar-se, e em todos o Dasein não coincide consigo e está fora de si, extático, sendo a temporalidade o ekstatikon puro e simples, pois, lançando-se para o poder-morrer, o Dasein não sai de um invólucro prévio, mas é essa saída, o que mantém o laço entre tempo e “sujeito” sem interioridade, sendo o tempo que põe fora, culminação da destruição da ontologia da Vorhandenheit, cujo último ferrolho era a temporalidade como persistência do agora, e completa desrealização do Dasein.

20. Adquirida essa tese geral, será preciso retornar a cada existencial para mostrar que modo de temporalização ele constitui.