Como se é encarnado, a carne é tão originariamente minha quanto o Dasein; contudo, diferentemente dele e como modalidade do ser-com, ela é também originariamente tua ou sua, outra, tanto quanto minha.
8. Indícios linguísticos do vínculo entre ser-com e espacialidade e crítica da substituição pelo utensílio
-
Busca-se confirmação do vínculo entre ser-com e espacialidade por meio de uma observação linguística associada a W. von
Humboldt: certas línguas exprimem o eu por aqui, o tu por aí, o ele por lá, isto é, pronomes pessoais por advérbios de lugar.
-
Heidegger observa que o problema tradicional sobre a primariedade adverbial ou pronominal dessas expressões perde fundamento quando o eu referido é pensado como Dasein.
-
Aqui, aí e lá não podem indicar posições de um ente diante-da-mão e devem ser compreendidos sem recorrer a categorias gramaticais.
-
A significação existencial propriamente espacial dessas expressões testemunha que a explicitação não recoberta por teoria vê imediatamente o Dasein em seu ser espacial des-distanciante-orientante junto ao mundo de que se ocupa.
-
No aqui, o Dasein absorvido por seu mundo não se dirige a si, mas se desvia de si para o lá de um ente circunspectivamente à-mão, e, contudo, visa a si em sua espacialidade existencial.
-
Essa elucidação implica que a espacialidade pertença à existência e seja um modo de temporalização, o que a torna incapaz de resistir à enfermidade do parágrafo 70.
-
Apesar disso, considera-se mais decisivo que, se Heidegger pode recusar a explicação gramatical-categorial de
Humboldt, sua própria interpretação altera profundamente a verdade do fenômeno.
-
Exprimir eu por aqui, tu por aí, ele por lá é compreender o espaço em função de outrem.
-
Antes de toda teoria e antes mesmo da ontologia da existência, o Dasein apreende as relações entre aqui, aí e lá como relações entre eu, tu e ele, revelando o espaço a partir do próximo e não do utensílio.
-
Ao substituir o próximo pelo utensílio, Heidegger modifica o fenômeno e oculta a espacialidade do ser-com pela espacialidade da pre-ocupação, cujo sentido é temporal.
-
O fato de a analítica existencial deixar transparecer um espaço diferentemente constituído não autoriza concluir que ele seja carnal nem que seja prévio ao do ser-no-mundo, condições requeridas para sua atemporalidade.
-
Por isso, anuncia-se que o exame da orientação, segunda estrutura da espacialidade, deverá estabelecer a precedência do espaço manual sobre o do ente à-mão, sob pena de a tentativa apresentada revelar-se insustentável.