FRANCK, Didier. Chair et corps. Sur la phénoménologie de Husserl. Paris: Minuit, 1981
1. Mundo do próprio e prioridade fenomenológica da carne
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O mundo do próprio é definido como o mundo da experiência puramente originária.
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A razão dessa exclusão reside no fato de que o outro só adquire sentido em relação ao ego.
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A análise do mundo próprio é apresentada como condição necessária da constituição das transcendências genuínas.
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Essas transcendências surgem primeiramente como outros egos psicofísicos.
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A partir deles, torna-se possível a constituição de um mundo objetivo no sentido cotidiano.
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Toda objetividade é reconduzida constitucionalmente ao primeiro não-eu.
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Esse não-eu assume a forma de um outro ego.
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O mundo objetivo é, assim, fundado na alteridade pessoal.
2. Vida psíquica, intencionalidade e redução ao próprio
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A vida psíquica permanece uma vida intencional que experiencia o mundo.
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Toda a constituição do mundo é inerente à psique.
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A redução à esfera do próprio não anula a possibilidade de constituir o outro.
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Contudo, essa constituição permaneceria apenas psicológica.
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Para alcançar validade transcendental, é necessário mostrar que a psique é integralmente constituída pelo ego transcendental.
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O ego transcendental constituiria então um mundo interno.
3. Apercepção mundana de si e duplicidade do ego
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O problema da relação entre ego transcendental e ego psicológico é retomado.
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A solução husserliana apresenta uma circularidade estrutural.
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Ao constituir o mundo como ego transcendental, ocorre simultaneamente uma autoapercepção mundanizante.
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Essa autoapercepção é sempre já efetuada antes da redução.
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A possibilidade de colocá-la fora de jogo confirma sua efetividade.
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A redução revela, assim, a diferença entre ego transcendental e ego psicológico.
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Essa diferença é confirmada precisamente pelo movimento redutivo.
4. Ego mundano, carne e incorporação
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O ego mundano é definido como consciência localizada em uma carne corporal.
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Essa experiência permite a experiência mundana do mundo.
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A possibilidade de uma consciência sem mundo parece implicar:
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consciência sem corpo,
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consciência sem carne,
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consciência sem alma.
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A alma é apresentada como correlativa à carne corporal.
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A consciência transcendental parece, assim, desincorporada e desencarnada.
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Contudo, essa identificação é recusada.
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A consciência transcendental permanece perceptiva.
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Nenhuma percepção é possível sem carne.
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A carne deve, portanto, pertencer à subjetividade transcendental.
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Só assim a expressão doação encarnada pode receber seu sentido pleno.
5. Carne não material e crítica do funcionalismo