FRANCK, Didier. Chair et corps. Sur la phénoménologie de Husserl. Paris: Minuit, 1981:50-59
Idealismo Fenomenológico
1. No prefácio de 1930 à edição inglesa de Ideias I, a fenomenologia é apresentada como ciência a priori, eidética e dirigida ao universal em sua intuitividade originária, que se apropria, apenas como pura possibilidade, do campo empírico dos fatos da subjetividade transcendental e de suas experiências factuais (faktischen), equiparando-as a possibilidades intuíveis livremente modificáveis, e estabelece como seu a priori as estruturas essenciais indissolúveis da subjetividade transcendental que persistem através de todas as modificações imagináveis.
2. Resolvidas as questões precedentes, essa caracterização aplica-se também às Meditações cartesianas, pois, ao elevar o ego a eidos ego, a fenomenologia alcança o a priori universal, condição de todo concebível, e só então pode abordar os problemas universais da constituição do ego monádico, que, como fonte de toda experiência possível, abriga uma infinidade de formas de experiência atuais e potenciais e de objetos intencionais nelas constituídos, formas que não são todas simultaneamente possíveis e se ordenam por uma legalidade essencial e genética na temporalidade imanente.
3. A variação imaginativa faz ver o tempo como forma universal de toda gênese egológica e como forma invariante da unidade do ego, forma não causal, mas de motivação segundo a estrutura “se… então…”, abrindo uma dimensão genética última, tanto porque o sistema constitutivo dos objetos repousa na constituição da subjetividade transcendental quanto porque a constituição genética do ego autoriza uma fenomenologia eidética absolutamente universal, libertando o ego do mundo pré-constituído e permitindo a redução ao eidos mundo, de modo que a descoberta do motivo genético consolida o motivo eidético e torna tematizável uma historicidade que escapa a todo empirismo.
4. Os princípios da gênese constitutiva dividem-se, segundo Husserl, em princípios de gênese ativa e de gênese passiva, sendo a gênese ativa aquela em que o ego, por atos determinados, produz novos objetos oferecidos à intuição, como o número na Filosofia da aritmética, investigação depois estendida a todos os objetos ideais e depurada de sua dimensão psicológica, mas cujo campo é limitado, já que tais objetos não pertencem a todo ego em todo momento de sua história, e sobretudo porque toda atividade pressupõe, como nível inferior, uma passividade que previamente dá algo, tornando decisivo o papel das sínteses passivas.
5. Na percepção ativa, ao explicitar os horizontes da coisa, inventariar suas propriedades e inspecionar seus detalhes, a coisa continua a aparecer como a mesma dada antes do exame, o que revela uma intuição anterior a toda explicitação, que dá o objeto “em sua totalidade” como objeto de tipo familiar e de sentido vago, e, como nada aparece sem o trabalho sintético da consciência, uma síntese passiva unifica os esboços, fornece a “matéria” dos atos sintéticos e explica a familiaridade com as coisas, de modo que as sínteses passivas e a gênese passiva desempenham talvez um papel análogo ao do ser-no-mundo na analítica existencial.
6. A pré-doação passiva contrasta com a apreensão ativa do soar do som, que dura tanto quanto ele e obedece à mesma estrutura temporal, ocorrendo sempre num agora pontual vivo com o duplo horizonte de retenção e protensão, mas sem se orientar para o agora do som, pois apreender uma fase como momento e torná-la objeto é função de um ato de outro tipo, enquanto a apreensão do som como duradouro, como “este som”, dirige-se através e para além do presente cambiante à unidade que, por essência, se apresenta nesse fluxo de aparições.
7. A apreensão ativa que parte do ego atravessa o agora pontual originário do som rumo ao som idêntico no fluir dos agoras, o que implica que cada novo agora originário coincida passiva e continuamente consigo para permanecer o mesmo e que a atividade mantenha a retenção do que passa e do que passou, sendo esse manter uma passividade na atividade, uma atividade que se torna passividade para permanecer atividade, de modo que o som em sua unidade é passivamente constituído para ser dado como “matéria” aos atos de síntese.
8. Todos os atos e vividos possuem uma forma temporal e entram no fluxo da temporalidade originária, forma constituída mas não ativamente, por ser condição de possibilidade e pressuposto de todo ato, remetendo a uma constituição absolutamente passiva que fornece toda “matéria” e se liga à constituição da hylé, de modo que se distinguem uma passividade anterior à atividade, a do fluxo temporal originariamente constitutivo, apenas pré-constitutiva, e uma passividade erigida sobre ela, propriamente objetivante, que tematiza ou cotematiza objetos e pertence ao ato não como base, mas como ato, uma passividade na atividade.
9. A gênese passiva é uma “história” acessível ao ego, na qual a análise intencional parte do objeto constituído, descrito em sua estrutura e em seus modos de aparição como sentido explicitável, e remonta aos atos originariamente produtores de sentido, presentes de modo sedimentado em toda a vida intencional correlativa e que continuam a dar sentido passivamente, sem reativação, pois, segundo uma lei genética, toda produção intencional remete a uma primeira vez que iniciou sua história, e todo conhecido remete a um ato de conhecer que permanece passivamente em todo progresso ulterior, cujo correlato noemático é o “em-si”, de modo que, abrangendo e precedendo a gênese ativa, a gênese passiva estende a historicidade a toda a vida egológica e a seus objetos constituídos.
10. O princípio universal da gênese passiva, para a constituição de todas as objetividades dadas antes dos produtos da atividade, chama-se associação, noção pouco explicitada nas Meditações cartesianas, onde, distinguida da associação humeana, abrange a configuração sensível em coexistência e sucessão, e, na percepção, remete a um campo de pré-doação passiva que afeta ou “excita” o ego a perceber, cuja estrutura mais geral, no modelo abstrato de um campo sensível como um conjunto de cores, mostra que os dados sensíveis são unidades constituídas, produtos de uma síntese que remete à síntese do tempo como forma universal de ordem de sucessão e de coexistência de todos os dados imanentes, isto é, à maneira kantiana, uma forma da sensibilidade.
11. Sendo toda forma forma de um conteúdo, a estrutura do campo sensível exige retornar à síntese dos conteúdos, pois cada campo se dá como unidade homogênea em relação heterogênea com outros campos da sensibilidade, e as sínteses mais gerais dos dados sensíveis destacados num campo e unidos no presente vivo seguem a afinidade (Verwandtschaft), ou homogeneidade, e a estranheza (Fremdheit), ou heterogeneidade, resultantes de uma síntese passiva de coincidência, total ou parcial, denominada associação em sentido modificado, na qual um conteúdo remete imanentemente ao outro e o evoca, produzindo homogeneidade quando os conteúdos se fundem e heterogeneidade quando não se recobrem.
12. A gênese associativa, lei essencial da intencionalidade, opera em toda constituição passiva, inclusive na dos objetos temporais imanentes, os vividos, sendo um a priori “inato” de toda constituição do ego, cuja demonstração permite à fenomenologia cumprir seu objetivo de ser teoria da constituição estática e genética dos objetos de toda consciência possível e tornar o ego compreensível como nexo infinito de realizações sinteticamente concordantes em níveis ajustados à forma universal persistente, a temporalidade, ela mesma edificada numa gênese contínua, passiva e universal que abrange por necessidade essencial todo o novo.
13. O fechamento egológico exigiria que a autoconstituição da mônada jamais pressupusesse o alter ego, sobretudo no nível último da constituição passiva e da gênese associativa, mas, operando a associação por afinidade e estranheza (Fremdheit), o sentido dessa estranheza parece implicar o outro, e a afirmação da quinta Meditação de que o primeiro outro em si, o primeiro não-eu, é o outro ego significa que o outro atua nos níveis mais profundos da constituição do ego, podendo até implicar uma definição da temporalidade pura como relação ao outro, pois, se o outro ego é o originariamente estranho, é também o que originariamente afeta, confundindo-se talvez com a hylé temporal originária descrita num manuscrito de 1930 como “núcleo do outro-que-eu”.
14. A menos que o alter ego seja estabelecido como momento do eidos ego, o que comprometeria o sentido da alteridade, retorna-se a uma arquifacticidade, diante da qual Husserl apenas pôde afirmar que o fato particular é irracional, mas possível somente no sistema de formas a priori que lhe pertence como fato egológico, ou que o “fato” com sua “irracionalidade” é um conceito estrutural do sistema do a priori concreto, sistema que repousaria sobre essa arquifacticidade, cuja escala já não seria a da razão e da irracionalidade, devendo ser interpretada no horizonte da relação entre ego e alter ego, num desenvolvimento que já não poderia chamar-se fenomenologia.
15. Ligadas todas as análises constitutivas à análise do ego e descrito o estilo da gênese intencional, torna-se possível definir filosoficamente a fenomenologia e fenomenologicamente a filosofia, e a fenomenologia, como teoria transcendental do conhecimento, revela-se um idealismo num sentido inteiramente novo, em contraste com a teoria cartesiana do conhecimento, que, após estabelecer que toda evidência e justificação do ser e da verdade se realizam em mim, buscava compreender como a vida mental adquire sentido objetivo e como uma percepção clara e distinta pode pretender ser mais que um caráter interno da consciência, problema resolvido pela veracidade divina.
16. Para a autoinvestigação transcendental da fenomenologia, todo esse problema é um contrassenso (Widersinn), no qual Descartes necessariamente caiu por não ter apreendido o sentido genuíno de sua redução ao indubitável, isto é, de sua epoché transcendental e redução ao ego puro.
17. O contrassenso reside no fato de o ego que interroga já ser uma psique, um ego mundano, de modo que Descartes aceita a validade do mundo que pretende questionar, enquanto o fenomenólogo, com acesso ao campo da experiência transcendental, mostra no detalhe infinito da análise intencional que todo ente, qualquer que seja seu tipo de ser, é formação de sentido da consciência pura e que todo sentido concebível deriva da subjetividade transcendental, sendo absurdo conceber o universo do ser verdadeiro como exterior ao universo da consciência, do conhecimento e da evidência possíveis, ligados apenas externamente por uma lei rígida.
18. O idealismo fenomenológico não é um idealismo psicológico à maneira de Berkeley, o que a intencionalidade impede, nem um idealismo de estilo kantiano, pois a intencionalidade, atenta ao caráter horizontal de todo sentido, exclui a possibilidade e o próprio sentido de um em-si, tratando-se de um idealismo sem limites, um idealismo absoluto.
19. A absolutez desse idealismo é consubstancial à fenomenologia a ponto de constituir sua “prova”, apoiada na tese de que a consciência não tem exterioridade, o que confere à acusação de solipsismo o estatuto de objeção que ameaça, por princípio, todo o edifício fenomenológico, tanto mais que Husserl, no quadro da egologia pura, recorreu por vezes tacitamente à intersubjetividade, de modo que o problema da experiência intencional do outro não é regional, mas a maior dificuldade da fenomenologia, por tocar sua possibilidade e seu sentido, e a quinta Meditação não se reduz a uma explicitação do alter ego, sendo antes uma prova da compatibilidade entre o sentido da intersubjetividade e o da fenomenologia, prova do outro e do sentido, da experiência e da expressão purificada de seu próprio sentido, prova da fenomenologia por e consigo mesma.