2. A raiz comum da história e da temporalidade em nível existencial
II. Análise de dois casos de esquizofrenia
1. O caso Georg (Roland Kuhn)
2. Uma análise de Alfred Storch
III. Descrição fenomenológica e análise existencial
1. A experiência patológica do tempo no quadro de uma descrição puramente fenomenológica
2. O caso Rudolf R. (Roland Kuhn)
3. A psicoterapia como verificação do projeto de mundo
O problema do tempo, na patologia mental, apresenta-se sob um duplo aspecto, pois constitui ao mesmo tempo a trama da história biográfica do sujeito e o significado vivido do passado e do futuro, isto é, o modo como o sujeito se insere no presente.
Um sintoma como a fobia mostra exemplarmente essa duplicidade, na medida em que articula uma história traumática e uma experiência atual do tempo.
A psicanálise reconduz a fobia a um evento traumático infantil e a uma angústia real que se prolonga ao longo da vida por meio de substituições simbólicas.
Contudo, a angústia fóbica não é vivida como simples repetição do passado, mas como relação imediata com um futuro ameaçador que se impõe no presente.
Na agorafobia, o espaço vazio manifesta diretamente o futuro como possibilidade angustiante que deve ser assumida sem garantias.
O espaço aberto exige uma antecipação decisiva do que ainda não está dado, expondo o sujeito a um futuro irrecusável.
Ao contrário, o espaço cheio e delimitado permite um avanço progressivo, no qual o futuro se distribui em uma sucessão de presentes contíguos.
O espaço vazio impede qualquer ocultamento do futuro e revela a recusa fóbica de uma temporalidade aberta.
Outras fobias revelam a mesma estrutura temporal fundamental.
Na fobia de animais, o medo não se dirige ao objeto em si, mas a um perigo potencial e indeterminado que nele se anuncia.
Na fobia da sujeira, o temor não é do sujo enquanto tal, mas da impossibilidade de garantir sua eliminação futura.
O futuro aparece como incapaz de reparar o presente ou apagar o passado, instaurando a angústia do irreparável, que une impureza física e culpa moral.
A fobia revela assim uma unidade de estilo entre história e temporalidade.
A história individual se desenvolve como repetição estereotipada de uma mesma angústia.
A temporalidade, fechada a um futuro aberto, transforma-se em acumulação do passado.
História e tempo convergem para uma tendência à imobilidade, que Erwin Straus caracterizou como Stillstand.
O problema fundamental consiste em encontrar o ponto em que historicidade e temporalidade se enraízam em um mesmo movimento originário da existência.
Freud tentou localizar essa origem na repetição e na cristalização do passado traumático.
A perturbação da temporalidade seria, segundo ele, efeito da interrupção da história.
Essa interrupção remeteria a um conflito metafísico entre instinto de vida e instinto de morte.
Eugène Minkowski, em oposição, atribui primazia às perturbações da temporalidade.
Para ele, não é a repetição histórica que engendra a patologia, mas a falência do impulso temporal.
O passado deixa de garantir o futuro, que se torna inteiramente aberto à catástrofe.
O tempo não flui mais, acumula-se como ameaça constante sobre o presente.
Apesar de suas divergências, Freud e Minkowski partilham pressupostos metafísicos comuns.
Ambos explicam história e temporalidade a partir de um nível vital pré-humano.
Ambos afastam-se da existência concreta como lugar originário do sentido temporal.
A análise existencial propõe reconduzir história e temporalidade ao próprio modo de ser do homem.
A descrição fenomenológica visa libertar o tempo das mitologias metafísicas que o alienam.
O significado vivido do tempo indica a unidade estrutural da existência.
História e temporalidade definem-se desde o início em um mesmo estilo existencial.
A descrição rigorosa prepara, mas não substitui, a análise existencial.
O caso Georg, analisado por Roland Kuhn, ilustra exemplarmente essa unidade de sentido.
Georg, jovem diagnosticado com hebefrenia, apresenta uma história marcada pela ilegitimidade, pela ausência paterna e pela instabilidade social.
Sua experiência delirante articula mito, tempo e história numa mesma configuração.
A figura de Ifigênia encarna um passado ideal de fidelidade e comunidade impossível de ser integrado ao presente.
A dissociação entre presente e passado estrutura a existência de Georg.
O presente aparece como caos dispersivo, fragmentado e sem continuidade.
O passado idealizado fecha-se como comunidade perdida e irrecuperável.
O delírio tenta restaurar uma unidade temporal por meio do mito, sem jamais consegui-la.
A psiquiatria tradicional separaria artificialmente tempo biográfico e tempo vivido.
Contudo, ambos exprimem um mesmo significado existencial.
A história de Georg e seu delírio remetem a uma forma comum de temporalidade radical.
Apenas um pensamento objetivante pode dissociar aquilo que é unido no sentido.
A unidade de história e temporalidade não é harmônica, mas tensional.
Ela se estrutura como oposição entre um tempo transitivo e um tempo intransitivo.
O tempo do mundo envelhece, acumula marcas e anuncia o futuro.
O tempo da consciência flui como retenção e protensão, segundo a análise de Edmund Husserl.
A experiência patológica altera a correlação entre instante e campo de presença.
Essa alteração pode ser observada no caso analisado por Alfred Storch.
O paciente vive crises nas quais o tempo do mundo se imobiliza ou se totaliza.
O presente perde sua função mediadora entre passado e futuro.
Nas crises descritas por Storch, emergem figuras temporais extremas.
O mundo da luz corresponde à totalização do futuro e à supressão do devir.
O mundo da queda exprime a acumulação culpável de um passado que não passa.
A experiência do fim do mundo, Weltuntergang, manifesta a dissolução da temporalidade orientada.
A descrição fenomenológica desses distúrbios não basta para fundamentá-los.
Ela esclarece estruturas, mas não alcança seu sentido existencial.
A análise existencial define o patológico como um modo de existência.
Cada perturbação temporal expressa um projeto de mundo contraditório.
A análise do caso Rudolf R., apresentada por Roland Kuhn, confirma essa perspectiva.
A vida de Rudolf é marcada por uma relação não elaborada com a morte da mãe.
A repetição de cenas de cadáveres atravessa sua história biográfica.
O passado não se transforma em essência, mas persiste como quase-presença.
A ausência do trabalho do luto impede a separação entre presença e essência.
O passado persegue o presente como ameaça interna.
Toda presença carrega a possibilidade latente do cadáver.
O tempo perde sua função de mediação e torna-se ambíguo.
O crime aparece como tentativa de restaurar uma ordem temporal impossível.
O assassinato visa separar artificialmente vida e morte, presente e passado.
O gesto homicida busca dominar o passado ao invés de integrá-lo.
O projeto fundamental de Rudolf consiste em conservar o passado como presença corporal.
A psicoterapia permite verificar e transformar esse projeto existencial.
Ela promove a interiorização do passado por meio da memória.
Conduz ao reconhecimento do outro em seu significado essencial.
A autenticidade do tempo só se realiza na verdade da relação com os outros.