Desde o século XIX, a psiquiatria atribuiu importância crescente à percepção do outro e às formas de reconhecimento intersubjetivo.
Em autores como Pierre Janet, a conduta social aparece como progresso evolutivo frágil, facilmente comprometido pela diminuição da tensão psíquica.
Em Paul
Blondel, a consciência patológica é caracterizada pela dissolução dos referenciais sociais e linguísticos, com emergência de um mundo cinestésico privado.
Em Eugen Bleuler, o retraimento afetivo em relação aos outros, designado como autismo, torna-se sintoma central da esquizofrenia.
Nessas abordagens, porém, o distúrbio da relação com os outros permanece um efeito secundário de um desarranjo mais profundo, sendo o evento patológico essencialmente individual.
Sigmund Freud desloca esse horizonte ao tornar o Outro protagonista da gênese patológica, sob a forma das imagos materna e paterna.
O complexo de Édipo revela que o personagem humano está presente no coração do desenvolvimento psíquico e constitui a origem dos significados.
Freud mostra que, no âmbito humano, a sucessão só é possível a partir da coexistência, rompendo parcialmente com o naturalismo evolucionista.
Contudo, na experiência psicanalítica, o Outro permanece ambíguo, aparecendo como ponto de cristalização das pulsões contraditórias ou como interlocutor mítico de um diálogo sem resposta.
O Outro é essencial à gênese, mas não é constitutivo da experiência psicológica enquanto tal, sendo reduzido a figura imaginária ou retórica.
A fenomenologia husserliana introduz a virada decisiva ao reconhecer o caráter constitutivo da experiência do Outro como coexistência absoluta.
Diferentemente das coisas, constituídas relativamente por perfis e esboços, a pessoa é constituída de modo absoluto, apresentando-se desde o início como totalidade.
O reconhecimento do Outro remete à intersubjetividade transcendental, na qual cada eu se afirma como mônada em relação íntima com as demais.
A perturbação da experiência do Outro não pode mais ser considerada um efeito derivado, mas atinge as formas mais fundamentais da existência.