Se o espaço se dispersa e foge, é porque o tempo já não consegue escoar, e é nessa falha temporal que o delírio espacial encontra sua motivação mais profunda.
O paciente perde o sentido da orientação temporal: ao caminhar, segue trajetos rigorosamente circulares, e, ao escrever, não dispõe palavras em sequência, mas as distribui em colunas, instaurando uma tabela na qual a simetria formal substitui os vínculos de significação.
A existência, em vez de abrir-se a um futuro no qual transcende a si mesma, é submersa por um passado que a aliena, e temporaliza-se como uma “tesaurização” existencial, isto is, como acumulação conservadora de saberes, homens e riquezas num mesmo tesouro.
Essa acumulação não visa projetar-se num futuro promissor, mas apenas custodiar e preservar, de modo que o futuro aparece unicamente como perigo indiferenciado, seja como guerra, destruição ou caos.
Separado do futuro, o tempo torna-se circular, retornando constantemente a si mesmo, e o “périplo”, tema constante, exprime uma partida que só tem sentido por permitir o retorno, como repetição que faz o tempo avançar apenas sob a ilusão de imobilidade.
Nessa condição, o tempo perde sentido, orientação e significado, e, para reencontrar artificialmente um sentido, o paciente impõe ao espaço limites supostamente intransponíveis, decompondo-o em estruturas rígidas para conferir significação absoluta ao “início” e ao “fim”, ao aquém e ao além, ao “já feito” e ao eventual.
O delírio espacial aparece, assim, como tentativa indireta e sempre infeliz de recuperar o sentido perdido de uma temporalidade autêntica.