O destino do Estado depende assim da filosofia, encontrando-se por isso numa tempestade ameaçadora, podendo a filosofia existir verdadeiramente somente ao repor-se, novamente, sob o poder do início do ser histórico-espiritual, identificado com a irrupção da filosofia grega
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A citação afirma que nesse ponto de sua história o homem ocidental, pela primeira vez, sobre as sólidas fundações de sua estirpe e em virtude de sua linguagem, enfrenta o ente em sua totalidade e o interroga e compreende como o ente que ele é
O início não está atrás de nós, mas diante de nós, inscrito em nosso futuro como intimação que nos chama a reconquistar sua grandeza; somente se nos dispusermos a essa reconquista a ciência se tornará a necessidade mais íntima do ser-aí, e não um mero fato casual ou passatempo tranquilo
A distinção entre irrupção e início esclarece por que tudo o que é grande está na tempestade: a irrupção política corre risco de fracasso se, introduzida pela filosofia, não conduzir a um projeto de ser, e a filosofia corre risco de fracasso se não operar politicamente como maior realização da práxis
O papel da universidade na condução do Estado, na comparação heideggeriana com a comunidade dos filósofos e seus discípulos descrita por
Platão na República, exige da universidade uma autoafirmação que também se opõe às instâncias que buscam subordiná-la à política
A dupla desafiadora entre universidade e esfera política, apresentada ao final do discurso como “comunidade em luta de professores e estudantes”, remete Heidegger, em 1945, ao sentido heraclítico do fragmento 53, sendo a luta (pólemos) o confronto entre professores, no lugar da filosofia, e estudantes, no lugar da política
A relação entre filosofia e política está em tempestade porque é luta no sentido de que ambas devem primeiro se revelar em sua essencialidade através desse duplo confronto, cabendo à vontade essencial do corpo estudantil obrigar-se à suprema clareza e disciplina do saber
A alusão ao “destino alemão em sua extrema indigência” articula-se com a citação da sentença nietzschiana “Deus está morto”, pela qual se deve levar a sério a solidão do homem de hoje no coração do ente, tornando o interrogar não mais premissa da resposta como saber, mas a própria forma suprema do saber
A extrema indigência é a solidão do homem após a morte de Deus, exigindo um outro início análogo ao grego, separado do primeiro por um longuíssimo intervalo de tempo cujo meio deveria ser o presente, ainda obscuro e incompleto
O destino alemão, destino de um povo chegado à plena consciência de si em seu Estado, não está tão distante da solidão do homem de hoje quanto Heidegger ainda exige que se leve a sério, revelando que a nobreza e grandeza da irrupção ocultam o problema verdadeiro, que a filosofia faz reemergir
A carta a Elisabeth Blochmann de 30 de março de 1933 confirma esse raciocínio, ao propor aceitar com calma a corrida atrás das novidades políticas como possível via de um primeiro despertar, à espera de uma segunda e mais profunda revolução, sem tomar os eventos como garantia de que o povo já tenha compreendido sua missão secreta
O perigo de uma autonomização da instância política é reconhecido por Heidegger, que não se sente ideologicamente obrigado a permanecer na via percorrida, permitindo apenas uma interpretação filosófica do fator revolucionário presente no nacional-socialismo
O juízo político de Heidegger sobre o nacional-socialismo mostra-se, contudo, profundamente equivocado, ao temer um retorno a uma época como a marcada pelas datas 1871-1900, evidenciando os temores de um revolucionário sui generis, cego ou alheio à realidade política efetiva do movimento
A ambiguidade do discurso de reitorado, combinando ceticismo e fascínio, é apontada pela carta de Karl
Jaspers de 23 de agosto de 1933, que reconhece no discurso uma verdade nova e ao mesmo tempo óbvia, próxima de
Nietzsche, mas com esperança de um cumprimento filosófico ausente neste
A revisão heideggeriana da concepção de projeto de ser, motivada pela intuição do próprio desastre político e pelo fracasso dos esforços de reforma acadêmica durante o reitorado, convence-o de que a irrupção de 1933 não foi a libertação das correntes da caverna, tornando-se perceptível já em 1934 e clara em 1936
O pensamento central do discurso de reitorado identifica irrupção e início, testemunhados ambos pela irrupção grega, mas essa identificação revela-se problemática: o que é confiado como tarefa (das
Aufgegebene) não coincide simplesmente com o vindouro (das
Zukünftige) no sentido do que está por vir (das
Kommende)
A “mão levantada contra Deus”, retomada do esboço do projeto sobre
Aristóteles, e a referência a
Nietzsche como o filósofo que apaixonadamente buscou Deus articulam-se ambiguamente no discurso, situando a filosofia como autoafirmação do ser-aí após a morte de Deus, da qual a universidade alemã é apenas o lugar
O primeiro início e o outro início encontram-se em estranho contraste, pois um deve ser retomado e o outro consiste em autoafirmação, permitindo ainda assim ao pensamento da autoafirmação conciliar-se com a irrupção política como irrupção de um início a ser empreendido
A falta de clareza do presente obriga Heidegger a retomar a concepção temporal de Ser e tempo, sobrepondo-a à do projeto de ser: passado e futuro passam a ser determinados pelos dois inícios, mas o espaço temporal aberto por seu confronto não pode coincidir com nenhuma irrupção presente, pois nem a irrupção grega nem a atual constituíram um início
A exigência de que a ciência, para falhar realmente, deva desdobrar a suprema obstinação diante da ocultação do ente, e de que deva ocupar os avanços da frente onde é extremo o risco proveniente da incerteza constante do mundo, revela que a filosofia deve negar-se a toda irrupção que pretenda explicar o que no presente permanece indeciso e incompleto, não podendo apostar em irrupções políticas — conclusão que Heidegger virá a extrair, rompendo o equilíbrio entre filosofia e política sob o ímpeto da tempestade