Fenomenologia em Heidegger constitui-se menos como doutrina específica e mais como exercício primordial do olhar filosófico, cujo aprendizado decisivo ele atribui a
Husserl, descrito como aquele que lhe “implantou os olhos”, operando um desvendamento violento que o desprendeu de uma cegueira anterior. Este aprendizado exigia um renunciar radical ao uso não verificado de conhecimentos filosóficos acumulados e à autoridade não questionada dos grandes pensadores, a fim de se voltar, sem mediações, para as
Sachen selbst—não as coisas ônticas, mas aquilo que está em jogo em todo e qualquer comportamento humano, o implícito inaparente que governa nossa relação com o mundo. A fenomenologia, portanto, revela-se como o coração vivo de toda filosofia possível, um modo de ver que reina em seu centro sempre que o pensamento se abre autenticamente ao que se dá.