Palavra essência, alemão Wesen, é reconsiderada por Heidegger de modo tão original que muda completamente de acepção.
Consulta ao Dicionário Grimm no verbete Wesen revela indicação prévia: os dois verbos leben und weben.
Assonância já indica como fala o verbo Wesen (primeiramente um verbo).
Locução leben und weben (viver e tecer) assinala que o próprio de Wesen é ser vivo, i.e., vivente e movente.
Caracterizar a acepção primeira de Wesen assim é marcar que diz algo de uma efervescência.
Em tratados latinos,
Eckhart, para circunscrever a
essência de Deus, emprega vocabulário do borbulhamento (
bullitio,
perfusio,
fervens, etc.).
Heidegger convida a ouvir no termo essência uma acepção dessa ordem.
Pergunta: como nós mesmos ouvimos esta palavra?
No curso da história da metafísica, a acepção de essência assume cada vez mais os traços de uma definição imutável.
A concepção metafísica da essência vai, surpreendentemente, em sentido inverso ao que diz inicialmente a palavra alemã Wesen.
É preciso dissociar a significação tradicional da essência e o que Heidegger entende por Wesen.
Proposta de Gérard Guest: traduzir Wesen (onde tomado em sua acepção primeira) por aître.
Duplamente judiciosa:
1. O termo é homônimo do verbo ser.
2. Como duplo de âtre (onde crepita um fermento de chama sob as brasas), abre sobre a maneira como o ser se movimenta.
Uso da expressão se mouvementer (movimentar-se) a propósito do ser direciona a atenção para o que há de propriamente insólito na questão de Heidegger.
Exame da reflexão filosófica tradicional sobre a essência.
Palavra essência é decalque do grego ousia.
Ousia é substantivo feminino formado a partir do verbo ser no particípio presente feminino (oûsa = ente).
Em grego antigo, uso corrente: designa um bem, uma terra, casa, tudo o que é a domicílio, em permanência.
Esta acepção primeira permite entrever para onde aponta Heidegger com o termo pré-ontológico: património, propriedade pensam-se num clima de permanência.
Platão, para nomear o ser verdadeiro (
to ontôs on), apropria-se de
ousía, que, partindo do verbo
ser, diz:
o ser daquilo que é, a
entância do ente.
Em latim, o verbo ser não tem particípio presente.
Para traduzir o grego to on (o ente), atribui-se a Júlio César a introdução do vocábulo ens.
Cícero terá forjado essentia a partir de um particípio presente imaginário essens do verbo esse.
A tradução de ousia por essentia é aparentemente fiel, mas perde o enxame de ressonâncias da palavra grega.
Heidegger, trabalhando a acepção de Wesen, busca apreender melhor o que, nos gregos, já começara a se fixar no termo ousia.
Esforço heideggeriano, apoiando-se na experiência cardinal da existência humana (que percebe a diferença entre ser e ente), consiste em distinguir:
Escolher, para render o termo que diz o próprio do ser, a palavra que designa tradicionalmente a maneira de ser do ente seria trair uma inaptidão em captar o que Heidegger busca pensar.
A língua na qual este projeto tenta dizer-se ainda não existe; enfrenta grandes dificuldades.
Análise do sufixo -escent, -escente para iluminar a dimensão incoativa do Wesen.
Sufixo vem do latim -escentem, desinência do particípio presente da forma incoativa.
Formas incoativas (inchoatives) enunciam que um processo está começando (ex: verdejar, envelhecer, morrer).
Constatar que um processo está entamado não basta; importa ver como se produz este começo.
Exemplo latino: fervescere (de fervere). Lucrécio descreve uma fonte que começa a ferver ao cair da noite.
Em português, temos efervescência (surabundância no borbulhar), mas não o adjetivo fervescente.
Talvez porque fermento e fervor marquem os limites da área onde a fervescência desdobra sua acepção, tornando a palavra desnecessária.
Fermento (o que pode provocar renovada fermentação) e fervor não se opõem como sentido próprio e figurado, mas remetem um ao outro.
Pode-se ouvir aître como índice de um remeximento dessa ordem? A questão não é retórica.
Recursos surpreendentes do francês antigo na palavra aître (ou estres, êtres).
Aître vem de atrium (coração da moradia).
Outro aître (pl. estres, aîtres) vem de extera (arredores de uma habitação).
A ambiguidade e fluidez entre as grafias (aître, aîtres, estres, êtres, être) criam uma troca de ressonâncias que permite dizer algo que de outro modo não se deixaria dizer.
Se se guarda toda a amplitude dos harmônicos do vocábulo aître, pode-se ter com ele uma ponte para dizer em nossa língua o que Wesen diz.