Expressão espaço-e-tempo é apenas uma primeira tentativa de tradução para aproximar do desafio contido na formulação alemã Zeit-Raum.
Com Zeit-Raum, Heidegger nomeia, na etapa final de seu caminho, aquilo que até então se identificava na história da metafísica como espaço e tempo separados.
Na terminologia de
Leibniz, as duas ordens distintas da continuidade (tempo) e da descontinuidade (espaço).
Pergunta: Heidegger unifica o que a metafísica separou? Não se deve apressar a conclusão.
Primeiro: onde a metafísica define de maneira particularmente fina o espaço e o tempo?
Em
Ser e Tempo, §7 A, sinaliza-se que as
formas da intuição (espaço e tempo em
Kant) são
fenômenos na acepção expressa da fenomenologia.
Definição do fenômeno: algo que, primeiramente e na maioria das vezes, justamente não se mostra; algo que, comparado ao que primeiramente se mostra, está encoberto em retraimento; mas algo que constitui essencialmente parte daquilo que primeiramente se mostra, sendo seu sentido e fundamento.
Esta descoberta heideggeriana permite pressentir por que a denominação kantiana de espaço e tempo (formas a priori da intuição), apesar de sua riqueza inaudita, não pode ser a última palavra sobre sua natureza fenomênica.
Um questionamento inédito e desconcertante se abre.
Jean
Beaufret explica, em entrevista: Heidegger costuma dizer que a diferença entre ser e ente já está feita em toda parte onde há filosofia, mas em nenhum lugar é pensada como tal.
Sob esta perspectiva, o tempo, no título Ser e Tempo, será o nome que tomará a diferença entre ser e ente, tal como Heidegger se esforça por trazê-la à linguagem.
Para seguir o caminho aberto por Heidegger, é necessário deliberadamente abandonar as referências tradicionais, ou melhor, tomá-las a contrapelo, dado que seu caminhar se efetua em sentido contrário.
Comentário de Heidegger na
Introdução de 1949 à conferência
Que é Metafísica? (em
Wegmarken [
GA9]):
O ser, em Ser e Tempo, não é outra coisa senão tempo, uma vez visto que o tempo aí é nomeado a título de pré-nome para a verdade do ser.
Pré-nome (Vor-Name) é entendido como nome que precede e prepara uma nominação (daquilo que ainda não tem nome).
Em 1927, o que ainda não tem nome é designado pela locução sentido do ser.
Constatação crucial de Heidegger: a experiência inicial do ser nos gregos não é acompanhada por um questionamento explícito sobre a diferença entre o que entra em presença e a entrada em presença mesma.
Esta ausência de questionamento, longe de ser negligência, atesta o quanto o pensamento filosófico permanece sob o impacto de seu impulso primeiro.
Coloca o pensamento na obrigação de finalmente cuidar de colocar escrupulosamente a questão: que é a metafísica?
Primeira consequência desta mudança de orientação: o aparecimento, já em Ser e Tempo, da noção de tempo propriamente dito, contrabalançando seu conceito vulgar.
Definição do tempo propriamente dito por Jean Beaufret:
O fenômeno do tempo não é a sucessão de momentos, mas, diz Heidegger, die Gleichursprünglichkeit der Ek-stasen, que se poderia traduzir por a contemporaneidade das ek-stases.
Contemporaneidade de um passado, de um presente e de um futuro.
Dificuldade: usar os nomes comuns (passado, presente, futuro) pode obstruir o acesso ao tempo propriamente dito.
Passagem decisiva da conferência Tempo e Ser (1962):
Se caracterizamos o tempo a partir da presença (Gegenwart), ouvimos espontaneamente esta como o momento pontual do agora, em oposição ao passado (que não está mais presente) e ao futuro (que ainda não está presente).
Porém, a palavra Gegenwart também diz o movimento de vir à presença (Anwesenheit).
Não estamos habituados a determinar o próprio do tempo partindo do olhar dirigido à Gegenwart entendida como este movimento de Anwesenheit.
Comentário necessário: dois termos alemães, Gegenwart e Anwesenheit, dizem o que em português chamamos simplesmente de presença.
Nuance inicial: Gegenwart é a presença daquilo que está presente diante de nós e a que prestamos atenção.
Anwesenheit é a presença daquilo que, tendo vindo à presença, continua a fazer aparição como vindo à presença.
Como avançar a contrapelo neste terreno?
Pergunta de Heidegger em Ser e Tempo: Por que dizemos de maneira tão enfática: o tempo se vai, e nunca dizemos que ele vem?
Avançar a contrapelo não é simplesmente dizer o contrário; o tempo não vem, mas também não simplesmente se vai.
Declive redutível a ser detectado na frase: Ora, a palavra Gegenwart diz também Anwesenheit.
Invertendo a ordem: A presença (Anwesenheit) se diz Gegenwart.
Na significação habitual, toda presença se experimenta num face-a-face.
O que Heidegger pede é atenção a algo estranho à experiência comum, onde a escuta das duas palavras sofre uma transformação considerável.
Como ouvir Gegenwart de outro modo?
Em português, presente também significa o que é oferecido (dádiva).
Em alemão, basta ouvir o elemento -wart de Gegenwart não como equivalente do advérbio latino versus (virado para), mas como indicador de espera.
Heidegger escreve por volta de 1957-58: die Gegen-Wart, die uns entgegenwartet und sonst die Zukunft heißt – aquilo que está em espera, em espera de que o encontremos, e que ordinariamente se chama futuro.
Ouvir Gegenwart como futuro implica uma acepção perfeitamente inédita de futuro, que não se define mais em relação ao presente (se este for compreendido como o momento atual).
Há uma outra compreensão do presente, que Heidegger prefere chamar Anwesenheit, o modo de estar presente do verdadeiro presente.
A palavra Anwesenheit deve ser ouvida em seu prefixo, verbo e desinência: An-wesen-heit.
O prefixo an- indica movimento de aproximação até tocar.
A desinência -heit traz à linguagem, fazendo brilhar, o que em Anwesen permanecia opaco.
Diferença entre Gegenwart (futuro como o que nos espera) e Anwesenheit (presença plena).
Em ambos há um movimento de vinda, mas em Gegenwart este movimento não se consuma na plenitude da Anwesenheit.
Anwesenheit diz uma presença plena, que não deve ser medida pela régua do tempo vulgar.
O passado verdadeiro nunca é simplesmente passado.
Em alemão, a denominação habitual é die Vergangenheit (o que se foi, desapareceu).
Para o passado verdadeiro, Heidegger privilegia die Gewesenheit.
O prefixo ge- em alemão tem um papel notável: resume, recapitula, reúne o que o radical diz, trazendo-o à sua acepção mais verdadeira, recolhida.
Em português, tentativa de tradução do sentido de Gewesenheit: aquilo que foi, se recolhido, pode continuar a nos concernir no mais alto grau, mesmo por sua ausência.
Em português, o passado é frequentemente indicado pelo sufixo ou auxiliar ter (ex: falei, tenho falado).
Se não tomarmos ter apenas como auxiliar funcional, podemos ouvir nossa língua dizer algo análogo ao alemão: Falei não diz primeiro não falo mais; diz: foi-me dado recolher o que é falar; desde então, posso ter a medida da palavra.
Este ter é uma presença, mas de forma bem diversa da presença das coisas ambientais.
Diferença crucial entre esta presença recolhida e a presença vulgar é o que permite estar diante da verdadeira presença.
Nela, tanto o passado verdadeiro quanto o futuro verdadeiro vêm à presença sob a forma do verdadeiro presente.
Contemporaneidade do tempo significa que, sob seus três rostos, é o tempo mesmo que vem a eclodir.
A contemporaneidade toma figura num presente que não é o simples momento atual, mas o tempo mesmo em seu temporar-se.
Nossa maneira de ser temporãos (corresponder ao tempo verdadeiro) é ter cuidado, quanto possível, de não estar a contratempo.
Assim podemos estar diante da presença, entrando nós mesmos em presença não numa sucessão de momentos, mas num presente que contribuímos para configurar.
Nossa parte consiste em dar ao tempo sua plena contemporaneidade.
O tempo atinge sua plena contemporaneidade quando se recolhe.
Nossa parte nesta configuração é simplesmente ser o que somos, vindo a tempo (e não a contratempo) à presença.
Então tem lugar o recolhimento do logos.
Antes do tempo, diante do espaço (ou vice-versa), há algo, não o Nada.
Algo que advém de lá onde, só, o Nada se dá (e não se dá).
Algo a que o ser humano dá acolhida recolhendo-o.
Este algo pode chamar-se Zeit-Raum – não espaço-e-tempo, não o conceito físico de espaço-tempo, mas: unidade anterior ao espaço e ao tempo, diferença diante do espaço e do tempo, unidade e diferença que se dão dispensando espaço e tempo.
* A maneira como esta unidade e diferença se dão, e especialmente como são acolhidas, aparece com ampla variedade no corpo de cada palavra humana.
* Em alemão, a palavra Zeit (tempo) é a mais falante.
* Em português e nas línguas latinas, a palavra espaço é a mais significativa.
* O espaço é o espaço livre, desde logo desimpedido – o espaço que o ser humano habita, não para nele se instalar, mas para abri-lo à medida do mundo.