Advertência contra uma compreensão superficial da locução der letzte Gott.
Não se trata do último Deus no sentido serial de uma sucessão que termina (ex: último dos moicanos).
Tal leitura seria completamente desviante; exige-se desde o início uma outra tradução.
A tarefa do tradutor é tentar, contra todas as aparências, ouvir o que o autor busca fazer ver.
Iluminação a partir da língua: der letzte Gott é o Deus que mais tardou.
Letzt é a forma superlativa de um antigo adjetivo com a mesma acepção do inglês late (tardio, atrasado).
Pergunta fundamental: quais as razões deste retardamento?
Razões têm certamente a ver com a dificuldade extrema de formar, sobre o que poderia ser um Deus, um pensamento que não seja nem inépcia nem idolatria.
Nossa época mascara grosseiramente esta dificuldade decretando que Deus é apenas uma ficção.
Em
Hölderlin, o Deus não é de modo algum uma ficção.
Falando da morte do herói trágico, Hölderlin nota: O glorioso Júpiter é, no entanto, bem o pensamento extremo (der letzte Gedanke) de um mortal que entra em sua catástrofe.
A catástrofe do herói é o que expõe o poema trágico; na tragédia sofocliana, toma a forma de um enfrentamento sem mediação entre o divino e o humano.
O herói trágico não pensa seu último pensamento, mas aquele no qual, como mortal, mais se aproxima em pensamento do Deus mais divino.
O pensamento extremo é aquele que vai até o limite do que pode pensar.
Comentário de Heidegger no tomo 71 [
GA71] da edição integral (texto dos anos 1940) sobre a relação entre
o extremo e o
limite.
Citação: Τὸ πέρας – o fim, aquilo que se encontra na extremidade (das Letzte), a fronteira, lá onde algo termina, por onde é posto nos limites dentro dos quais é.
A palavra das Letzte é diretamente posta em relação com o limite (Grenze).
A compreensão correta do limite exige atentar para os advérbios wobei (lá onde) e wodurch (por onde).
Wobei: índice de presença; a limite inclui tudo o que está à sua proximidade, tudo o que está em relação com ela; a limite consiste no rapport com o que a rodeia.
Wodurch: adiciona ideia de movimento de travessia; o limite é também aquilo através do que passa a limitação para limitar.
O limite é assim pensado como apoiado na limitação, arquitetado naquilo que limita.
Indicação ainda mais precisa sobre o extremo no mesmo tomo 71, página 5, numa apostila.
Frase: Der Gedanke des letzten Gottes ist noch undenkbar. (Pensar Deus ao extremo é por ora ainda coisa impossível.)
Palavra apostilada: o adjetivo letzten (extremo, último).
Comentário de Heidegger: um único adjetivo, einstig.
Einstig é formado sobre o advérbio de tempo einst (outrora, uma vez).
No Dicionário Grimm, einstig é explicado pelo termo futurus.
Em Heidegger, a acepção de einstig é aprofundada a montante da extensão extrema do tempo, desdobrando um pensamento mais originário do tempo verdadeiro.
Relação entre
Einst (uma vez) e
die Letze (o extremo) no texto
A Palavra de Anaximandro.
Einst: o que é uma vez, o que é cada vez que é (pensamento do tempo originário).
Die Letze: Heidegger convida a vê-la em relação direta com o grego ἔσχατον, reconhecido no vocábulo escatologia.
Em teologia cristã, escatologia é estudo dos fins últimos do homem e do mundo.
Aqui, trata-se de coisas mais imediatas que fins últimos; o pensamento dos fins últimos deriva do pensamento da extremidade, mas já fora do quadro originário.
Extremidade há em toda parte onde algo termina, i.e., chega, atinge a limite que o delimita.
Para os antigos gregos, este limite era visto como lugar de perfeição.
O limite extremo é este termo onde nos atinge o deslumbramento evocado por Mallarmé, que ocorre cada vez que algo, vindo de além do limite, nos toca.
Advertência de Heidegger: Deus ao extremo é, por ora, impossível de pensar.
No curso Was heißt Denken? (1951-52): O que mais deveria nos tornar pensativos é o fato de que ainda não pensamos.
Paradoxo: não pensamos ainda, sendo nós, como humanos, aqueles que não cessam de ser chamados a pensar.
Neste dilaceramento, se dele tivermos um pressentimento, estamos já numa certa relação com o tempo verdadeiro.
Este tempo não se compreende pela distinção habitual de passado, presente e futuro.
Exige que saibamos pensar em conjunto, com igualdade: o que, sendo passado, não cessa de ser; o presente da presença; e o futuro que não cessa de vir a nós.
Deus ao extremo não é Deus num futuro extremo.
A época que vivemos é a do
forçado (der tolle Mensch) de
Nietzsche, que clama:
Deus está morto! Ele não reviverá! E somos nós que o matámos!
Este é o pensamento da humanidade de nossa época, seu último pensamento.
É, apesar de tudo, um pensamento, pois, ao lançar o grito Deus está morto!, guarda memória, a sua revelia, do que é seu último Deus: o Deus feito homem, ou seja, um Deus capaz de morrer.
Contraste com outras concepções do divino.
Questão final: nosso pensamento será um dia suficientemente livre, suficientemente aberto – numa palavra, suficientemente extremo – para acolher Deus lá onde de preferência ele se encontra: no extremo?