Questionmaneto sobre a descoberta de Cézanne por Heidegger após uma primeira orientação na pintura através de Van Gogh.
Dada a estatura de ambos, a questão inversa se impõe: como Heidegger poderia ter deixado de ver Cézanne?
Discernir o sentido do trabalho de Cézanne para a pintura europeia é tão difícil quanto discernir o que Heidegger tentou com o pensamento filosófico.
Impacto da obra de Cézanne sobre outros artistas atesta sua profundidade transformadora.
Exemplo de Henri Matisse: em 1936, doa Três Banhistas de Cézanne ao Petit-Palais, acompanhando-a de uma carta.
Matisse declara que a tela o sustentou moralmente em momentos críticos de sua aventura artística, fornecendo-lhe fé e perseverança.
Encontra no estudo contínuo da obra de Cézanne a coragem para continuar a trabalhar.
Exclamação emblemática: Se Cézanne tem razão, eu tenho razão!
Cézanne, em carta a Émile Bernard (28 outubro 1905), afirma: Devo-vos a verdade em pintura e eu vo-la direi.
Ressonância entre os projetos de Cézanne e Heidegger: busca da verdade em seus respectivos domínios.
Heidegger poderia ter formulado uma afirmação análoga: Devo-vos pensar a verdade, e o farei.
Distinção dos ofícios (pintor/filósofo) não se esbate, mas esboça-se uma dimensão onde as duas aventuras descobrem uma accointance (afinidade, parentesco).
Encontro efetivo de Heidegger com a obra de Cézanne e sua integração em seu próprio caminho.
Análise da Wendung (viragem, mudança de direção) tal como vista por Rilke na obra de Cézanne.
Rilke descreve: …este trabalho que não mostrava o menor parti-pris, a menor inclinação, nem nenhuma dessas facilidades que são hábitos de crianças mimadas…
Trabalho reduz algo de ente à sua densidade em cor, com tal probidade que essa coisa inicia uma nova existência num além da cor, sem guardar memória de uma existência anterior.
Rilke identifica esta mudança com o que ele próprio atingira ou aproximara em seu trabalho poético.
Comentário de Rilke: Ele também é um pobre. Heidegger, em seu caminho, também se vê diante da tarefa de pensar a pobreza.
Aprofundamento do contato de Heidegger com a obra de Cézanne através de círculos intelectuais e coleções.
Por intermédio de H.W. Petzet, Heidegger estabelece relações com o círculo basiliense em torno do pastor Paul Hassler.
Conhece Ernst Beyeler, cuja galeria e coleções possuem numerosas obras de Cézanne.
Visitas regulares a Basel ao longo dos anos para estudar telas, aquarelas e desenhos na Galeria Beyeler e no Museu da Cidade.
Intuição heideggeriana aprofundada: em Cézanne prepara-se visivelmente uma mudança completa daquilo que tradicionalmente se entende por obra.
Paralelo entre a consciência do fracasso ou da incompletude em Cézanne e em Heidegger.
Cézanne declara a Émile Bernard: Permaneço o primitivo do caminho que descobri.
Afirmação de quem fez a experiência amarga do fracasso, do não-conseguir realizar.
Lamento melancólico: Se me tivesse sido dado realizar!
Heidegger, ao final da entrevista com Richard Wisser, evoca a injunção de Heinrich von Kleist:
Antecipei-me a alguém que ainda não está aqui, e ante seu espírito, um milênio de antemão, inclino-me.
Diferença de tom: constatação no filósofo versus lamento no pintor, mas situação estrutural análoga.
Heidegger radicaliza a compreensão do fracasso ou da não-realização, integrando-a numa reflexão histórica e finita.
Impossibilidade de pensar não é atribuída apenas a uma falha individual (como a idade ou experiência insuficiente, no caso de Cézanne).
Possui razões mais profundas, ligadas à finitude e ao destino (Geschick) histórico que nos concerne.
Lema da Edição Integral: Wege nicht Werke (Caminhos, não obras).
Observação de Balzac em Béatrix (monarquia de Julho): Temos produtos, não temos mais obras.
Inversão da relação entre obra (Werk) e trabalho (Arbeit) ou produto (Erzeugnis) no mundo moderno.
Heidegger entende obra exclusivamente como obra de arte ou obra-prima, onde se exalta o caráter singular.
No mundo clássico, o modo de ser do trabalho estava ligado a um estilo de presença no mundo.
Na modernidade, a percepção desse modo de ser atrofia-se, sensível apenas ao que se apresenta no cálculo.
Pensar esta situação histórica, especialmente com o despertar do cuidado pela obra de arte como obra, implica pensar nossa relação com o mundo.
Obstáculo maior diagnosticado por Heidegger: Nós ainda não pensamos.
Todo o trabalho de Heidegger pode ser resumido como: prolegômenos a um pensamento por vir.
O pensamento preparatório ao qual se dedica o filósofo prepara, exercitando-se de antemão nas figuras que um pensamento outro realizaria.
Limites e alcance do pensamento preparatório de Heidegger.
Este modo de pensar, por si só, não é capaz de fazer advir um novo mundo.
No entanto, é disso que se trata: trabalhar para o aparecimento de um outro mundo.
Na situação atual, em um intermundo sem mundo, as obras de arte funcionam como viáticos, abrigando o que um mundo é.
Definição da maravilha da obra de arte e especificidade da obra de Cézanne.
A maravilha de uma obra talvez seja estar inteiramente destacada de seu autor, a ponto de ele não saber que é uma obra.
Rilke viu a obra através das obras de Cézanne: a Wendung que permite às coisas ao nosso redor passar a uma nova existência.
Testemunho de Émile Bernard sobre Cézanne: A ideia de beleza não estava nele, ele só tinha a da verdade.
Ponto de convergência final com a reflexão heideggeriana sobre a arte.
Em A Origem da Obra de Arte (1935), Heidegger anotou: Na obra, é a verdade que está em obra.
Conclusão: conhecendo minimamente quem foram Cézanne e Heidegger, começa-se talvez a ouvir de que modo o que eles dizem se responde mutuamente.