Heidegger dedicou vários textos a Anaximandro, ordenados por data de publicação.
O título Der Spruch indica a abordagem heideggeriana à palavra de Anaximandro.
Spruch tem acepção solene em alemão, designando uma palavra de peso onde se diz uma verdade (como veredito, mas sem limitação ao domínio jurídico).
Heidegger designa assim o texto de Anaximandro porque é nele que o pensamento grego pode ser considerado como eclodindo enquanto tal.
Trata-se, portanto, do começo da tradição filosófica.
Compreensão do termo começo (commencement, Anfang) é fundamental.
Commencer (latim cum-initiare) significa entrar juntos em algo, pôr-se mutuamente em estado de se introduzir nisso.
Nuance trazida pelo cum (junto) não é mais percebida na compreensão corrente, mas é ela que abre ao aspecto verdadeiro do começar.
Compreensão ingênua: a iniciativa do começo reside em alguém que começa.
Visão heideggeriana: o que possibilita um começo é a coincidência, a sinergia (ou sinagogia, como diz Péguy) entre o que incita e o que responde à incitação.
A palavra alemã Anfang (começo) é igualmente significativa.
Deriva do verbo fangen (tomar, capturar), com vasta gama de acepções relacionadas à mão (Hand) que agarra, segura, aprende, obtém, tece, desenha.
Prefixo an- adiciona ideia de movimento: vir tomar.
Anfang não é se apoderar, mas empreender, no sentido de vir tomar sua parte no que se empreende quando há começo.
No começo, empreendem-se o que começa e o que é começado, numa relação de reciprocidade.
Línguas antigas (como o francês antigo) possuíam riqueza de verbos com prefixo entre-, indicando fina percepção de relações de reciprocidade.
Exemplos: s’entreserrer, s’entreplaire, s’entr’aimer, s’entreconseiller, s’entrepartir (partilhar), mas também s’entredéfier, s’entrevaincre.
Reciprocidade reina em ambos os lados, bom e mau.
No acontecimento do começo, o que começa e o que é começado entram em relação de entre-pertencimento recíproco.
É um lugar de partilha intenso e movimentado, onde papéis se invertem: quem crê empreender descobre-se empreendido, e o suposto empreendido revela-se empreendedor.
Num verdadeiro começo, ambas as partes são mutuamente partes tomantes.
Como começa este começo? Há uma partida no sentido antigo de partir (partilhar, repartir).
Esta partilha, uma vez departida, torna-se destino (Geschick) para os que dela herdam, aquilo de que terão de se desincumbir ao longo de sua história.
Para Heidegger, tal começo ocorre na palavra de Anaximandro.
Durante intenso trabalho em 1941-1942, Heidegger atinge essa compreensão, confiando em maio de 1942 ao historiador da arte Kurt Bauch que encontrou o começo.
A palavra de Anaximandro atesta-se como começante, na qualidade de primeiro começo.
Heidegger busca discernir em que sentido este começo é primeiro.
Não é primeiro no sentido de uma enumeração, como se um segundo viesse depois.
Em um sentido, o primeiro é o único.
Isto não impede que um outro começo esteja hoje na ordem do dia.
Leitura persistente do fragmento único de Anaximandro adquire seu ritmo nesta situação complexa.
Os termos dike e adikia no fragmento não são traduzidos por justiça e injustiça.
Razão superficial: justitia pertence à ordem do jus (direito), enquanto dike deriva do radical *deik- (mostrar com o dedo).
Heidegger, para se colocar no nível do pensamento de Anaximandro, não interpreta dike a partir da etimologia.
Para interpretar dike, Heidegger recorre ao termo alemão der Fug.
Termo compreendido na expressão corrente mit Fug und Recht (com justa razão, legitimamente).
Fug não fala no registro do jus romano; substantivo Fug e verbo fügen pertencem a uma área de radicais indo-europeus muito antigos (pag- ou pak-).
Em latim, radicais relacionados produzem pax (paz), pagina (treliça, página), pagus (território demarcado).
Wolfgang Brockmeier traduziu der Fug por ajuntamento (ajointement), indicando junção, articulação conjunta.
Não traduzir por justiça é convidar a ver que toda justiça depende de algo mais alto: seu país de montante.
Fug, como pax, pagus, pagina, o alemão fangen e o grego pêgnumi (fixar, densificar), podem, pensados juntos, formar como os marcos do país sem bens de que fala René Char.
Tradução proposta: permissão, a partir do latim permittere (deixar passar, pôr numa via, convidar, dar a liberdade de fazer).
Entender Fug como permissão é acentuar o aspecto essencialmente inaparente: manter aberta a dimensão dentro da qual tudo deve se manter como convém.
Para um grego, a justiça não é primeiramente de instituição humana; pensá-la como vinda de além até mesmo de uma instituição divina é ir no sentido do verdadeiro começo.
A permissão não fixa nada de antemão, mas não dá carta branca; os limites estão lá e é proibido transgredi-los.
Compreensão de adikia a partir desta base.
Heidegger propõe Un-Fug para traduzir o termo grego, destacando-o da acepção corrente (tumulto, inconveniência).
Un-Fug é aquilo que impede todo desdobramento da permissão.
A permissão abre à liberdade, que não se opõe à Lei, mas a reclama (inclusive na obediência à lei que a si mesmo se prescreve).
Adikia é a contrapartida da permissão, o que se ergue contra ela como seu inimigo mais feroz.
No orgulhoso desdém de toda norma, adikia pretende que ser livre é fazer só o que se quer.
Mostra-se assim como a perversão da permissão.
Este trabalho no começo permite discernir o que Heidegger visa ao dizer que se trata de ir, passando pelos gregos, para além deles, longe para a frente e para fora (über das Griechische hinaus).
O primeiro começo não é um acontecimento passado.
Ele não cessa, cada vez mais secretamente, de vir a nos concernir.
Perceber esta avenance [Ereignis] é ser posto na obrigação de recomeçar, mas de outro modo, a começar.