La logica del luogo e la visione religiosa del mondo. Introdução e tradução de Tiziano Tosolini
1. O problema da religião não é epistemológico nem de obrigação moral dirigida ao si volitivo, mas diz respeito à natureza e à localização do si, às perguntas sobre o que é o si e onde se encontra, com as quais se agoniza a partir da consciência religiosa, pois o si só se aflige quando está em jogo sua própria existência, e quanto mais profundo o problema, maior o sofrimento; já a angústia moral, embora o remorso da consciência faça tremer desde o fundo da vida, pressupõe sempre a presença do si e nasce do próprio si como ser racional.
2. A operação da consciência constitui-se como autodeterminação predicativa, mas o si não possui uma existência meramente universal e predicativa: é sempre individual e volitivo, existindo onde o indivíduo nega o universal e tem a capacidade de infringir a lei, sem, contudo, situar-se simplesmente onde a razão é negada, pois o irracional é apenas animal; quanto mais se pensa o si, mais ele aparece como existência autocontraditória, problema tratado com extrema seriedade por Dostoiévski em seus romances.
3. O que torna o si verdadeiramente si e o que nele é autenticamente autônomo são perguntas que só podem ser postas no fundamento do si, onde começam a busca do saber e a moral, pois os verdadeiros valores devem fundar-se na existência autêntica do si; julgar inútil esse aprofundamento e bastar-se com agir segundo a consciência equivaleria a eliminar a religião e fazer da existência social o fundamento do si, quando os valores religiosos se orientam na direção oposta aos valores comuns, tendendo o sagrado à transcendência dos valores, cujo valor seria negar os valores.
4. Racionalmente, o autocontraditório não pode existir, nem como sujeito que não se torna predicado nem como predicado que não se torna sujeito, mas o si possui sempre uma existência autocontraditória, sendo sujeito e contudo predicado, temporal e espacial, e quanto mais autocontraditório, mais autoconsciente; possuindo-se ao negar-se, no nada absoluto, o si exige em seu fundamento algo criativo como identidade absolutamente contraditória, nada absoluto que contudo se autodetermina e possui a qualidade de ser, conforme o dito: “Faz surgir a mente que não se detém em parte alguma”.
5. A autonegação do si, como origem de sua existência, é o que faz do si um verdadeiro si, não no sentido de ser simplesmente negado nem de tornar-se ou aproximar-se de Deus ou do Buda, mas no sentido de uma correlação inversa, bem expressa pelas palavras de Daitō Kokushi, razão pela qual o mundo religioso, como autodeterminação do lugar em identidade absolutamente contraditória, só pode ser pensado por uma lógica do lugar; a lógica objetiva não é rejeitada, mas deve ser incluída na lógica concreta como sua autodeterminação, surgindo a confusão quando se substancializa o conceito, como Kant justamente mostrou.
6. O verdadeiro si não está na direção do sujeito nem na do predicado, mas onde predica de si mesmo na identidade contraditória de ambas, agindo não apenas espacialmente como matéria nem apenas temporalmente como operação espiritual da consciência, mas criativamente, como autodeterminação do presente absoluto, transcendendo tempo e espaço e agindo ao refletir o mundo em si, isto é, conhecendo; no íntimo do si há algo que se forma historicamente e sempre ultrapassa o si consciente, de onde o si nasce, age e vai morrer, e que não lhe é externo, mas aquilo pelo qual o si consciente se constitui e pode ser pensado.
7. Conhecer é o si transcender-se e pôr-se fora de si, enquanto a coisa conhecida se torna o si e o determina, constituindo-se o conhecimento na identidade contraditória de conhecente e conhecido, o que já se mostra no que brota do inconsciente ou do instinto e é o próprio sentido da ação-intuição (azione-intuizione); no íntimo da autoconsciência há sempre algo que ultrapassa o si, tanto mais visível quanto mais profunda ela é, e o verdadeiro si age a partir dessa imanência-e-contudo-transcendência (immanenza-eppure-trascendenza), numa dialética absolutamente negadora que supera a dialética do juízo.
8. No fundamento do si há sempre algo que o transcendeu, fato da autoconsciência evidente a quem reflete profundamente, que D. T. Suzuki chama espiritualidade, cuja força de vontade espiritual transcende o si e que é fato religioso, não místico; também o conhecimento científico se funda nessa perspectiva, constituindo-se não a partir de um si abstrato e consciente, mas da autoconsciência de um si corpóreo, e a consciência religiosa, fato fundamental da vida, deve estar na base do saber e da moral, oculta no íntimo de todo coração humano, de modo que quem não o percebe não pode ser filósofo.
9. O sentimento religioso está no coração de todos, mas poucos o percebem e menos ainda abraçam a fé, que não é crença subjetiva nem depende da força de vontade, mas é fato objetivo e absoluto para o si, um fato da espiritualidade, segundo D. T. Suzuki; no fundo do si há algo que o ultrapassa sem lhe ser estranho nem externo, e nessa autocontradição, onde já não se sabe onde procurar o si, constitui-se a fé religiosa, quando o si verdadeiramente se descobre como identidade contraditória, sendo o que subjetivamente se chama paz do espírito, objetivamente, salvação.
10. A origem do si costuma ser buscada ou na direção do sujeito, como algo externo marcado pelo desejo, ou na do predicado, como algo interno marcado pela razão, mas ela está na identidade absolutamente contraditória das duas, não se reduzindo nem aos sentidos nem à mera vontade, razão pela qual o caminho da fé exige uma inversão absoluta de perspectiva, a conversão, que não é passagem de uma direção à contrária numa mesma linha, mas um movimento circular (movimento tondo), como o salto transversal de que fala Shinran, algo que a lógica objetiva não consegue pensar.
11. A conversão religiosa, ou libertação, não afasta o si consciente, marcado ora pelo desejo ora pela razão, nem o torna inconsciente; ao contrário, torna-o cada vez mais claramente consciente e inteligível a si mesmo, sem jamais abandonar o si que julga e discrimina, naquilo que D. T. Suzuki chama discriminação da não discriminação, que é a própria espiritualidade, de modo que reduzir tudo isso ao inconsciente é nada compreender da consciência religiosa, vista então pela lógica objetiva.
12. O si constitui-se como afirmação da autonegação absoluta de Deus, que é verdadeira criação: o verdadeiro absoluto não dissolve toda relação com o que se lhe opõe, o que o tornaria mera negação e, portanto, relativo, mas confronta em si a autonegação absoluta e a abraça, mediando-se como identidade absolutamente contraditória segundo a lógica da afirmação-e-contudo-negação da sabedoria prajñā; o si, limite extremo da autonegação do uno absoluto na multiplicidade dos indivíduos e ponto em que ele se projeta, é à semelhança de Deus e absolutamente volitivo.
13. O si possui-se numa autonegação absoluta, é si onde conhece a própria morte e nasce para morrer eternamente, e o que morre entra no nada eterno e não vive eternamente, pois o indivíduo é irrepetível e não há duas pessoas idênticas; pensar o contrário, como no dito de que se morre para viver mais plenamente, é tratar de uma vida pensada externamente, biológica, ou da vida pessoal em termos meramente racionais, como fazem muitos moralistas, quando a razão não está sujeita a nascimento e morte e também aí a vida é pensada como algo externo.
14. O que simplesmente vive e morre está sujeito a um ciclo eterno, que é a morte eterna, enquanto a vida eterna está na correspondência entre vida-morte e a extinção dessa vida-morte, isto é, no samsara-e-contudo-nirvana, possível apenas na correlação inversa entre o si e o absoluto expressa por Daitō Kokushi; o si não precisa desfazer-se da vida para entrar no mundo do não nascimento e da não extinção, pois desde a origem é não nascido e não extinto, e o agora, em sua imediatez, é a eternidade, como diz Egen: “Para mim, aqui, não há nascimento nem morte”.
15. No conhecimento da morte eterna do si, em que o si consiste, já se está situado na vida eterna, e essa penetração do si em sua origem como identidade contraditória é converter-se, abraçar a fé religiosa, impossível do ponto de vista de um si objetivo e explicável apenas como potência divina, autodeterminação do próprio absoluto; a fé é graça, e na origem do si ecoa o chamado de Deus, onde o si transcende completamente a si mesmo, podendo-se dizer nascimento e contudo não nascimento, vida-morte e contudo eternidade.
16. Conforme o ensaio A vida, o mundo da vida constitui-se onde exprime a si mesmo como autodeterminação do presente absoluto e se forma incessantemente na transição espaço-temporal do criado ao criante, sendo biológico em sua autodeterminação espacial e consciente e psicológico em sua autodeterminação temporal e autoformação expressiva; em seu limite extremo, a vida é um presente imediato num presente absoluto, alfa e ômega da vida, de modo que o si, transcendendo espaço e tempo, exprime em si o eterno passado e o eterno futuro e se autodetermina, possuindo a vida eterna: nasce-se e morre-se de pensamento em pensamento, e contudo possui-se uma vida que não nasce nem morre.
17. O mundo do absoluto, que inclui a autonegação absoluta e se determina como nada absoluto, é o mundo do presente absoluto que contém o que se lhe opõe, correspondendo ao dito “Faz surgir a mente que não se detém em parte alguma” e à imagem medieval de Deus como esfera sem circunferência cujo centro está em toda parte, afirmações que, sem referência ao fato da espiritualidade do si, pareceriam absurdas; nele todas as coisas se relacionam por correlação inversa, sendo absolutamente existente por ser absolutamente nada e absolutamente estático por estar absolutamente em movimento, e o si está sempre em determinação inversa e correlação inversa com o uno absoluto, isto é, com Deus.
18. Falar da vida como presente imediato num presente absoluto não é transcender abstratamente o tempo, mas afirmar que os instantes, que não param nem por um momento, estão em determinação inversa e correlação inversa com o eterno presente, daí o samsara-e-contudo-nirvana, e que transcender-se e sempre retornar a si é tornar-se o verdadeiro si, como no dito “todas as mentes não são mentes, por isso se chamam mentes” e em “Mente-e-contudo-Buda, Buda-e-contudo-mente” (Mente-eppure-Buddha, Buddha-eppure-mente), que não significam identidade entre mente e Buda segundo a lógica objetiva; a lógica prajñā da verdadeira vacuidade não é compreensível pela lógica ocidental, e nem os estudiosos budistas esclareceram ainda essa lógica da afirmação-e-contudo-negação.
19. Quando o si penetra seu fundamento e retorna ao absoluto, não se afasta da realidade, mas penetra o fundo da realidade histórica e torna-se sempre indivíduo histórico, como nos ditos: “Uma vez tornada transparente a realidade absoluta do dharmakaya, nem uma só coisa existe; só o Makabe no Heishirō [a pessoa comum] de antes”, “A mente ordinária é a Via”, de Nansen, e, de Rinzai, “No Buda-dharma não se exige esforço algum. Basta ser uma pessoa comum, sem nada mais a fazer além de defecar, urinar, vestir-se, comer e, quando cansado, repousar”; isso não é indolência nem indiferença, mas envolvimento total, passo a passo, derramando sangue gota a gota.
20. Quanto mais religioso, mais o si se aproxima de esquecer-se e de esgotar toda a sua potência racional e emotiva, enquanto o formalismo leva à decadência da religião e os preceitos dogmáticos são uma lâmina que corta a vida pela raiz; Lutero, no prefácio à tradução da Carta aos Romanos, afirma: “A fé é uma obra divina em nós, que nos transforma e nos faz nascer de novo de Deus (Jo 1). Ela mata o velho Adão, transforma-nos inteiramente no coração, no ânimo, no sentir e em todas as forças, e traz consigo o Espírito Santo”, e no zen se diz que ao ver a própria natureza se torna Buda, sendo esse ver não um olhar objetivo, externo ou introspectivo, mas a conversão do si, o mesmo que abraçar a fé.
21. O si retorna por identidade contraditória a seu fundamento, o absoluto, e, sendo como autodeterminação do presente absoluto sempre ordinário e racional, possui como indivíduo histórico um aspecto escatológico: como presente imediato num presente absoluto, transcende as relações de causa e efeito do mundo espaço-temporal e é livre, originando-se aí o pensamento, até o abstrato, e ao mesmo tempo, como autodeterminação momentânea do presente absoluto, confronta-se sempre com o absoluto em correlação inversa, perspectiva a partir da qual deve ser pensada também a relação entre kairós e logos estabelecida por Tillich e na qual o saber e a moral encontram seu fundamento.