NISHIDA, Kitarō. De la chose qui agit au soi qui voit. Tradução: Jacynthe Tremblay. Montréal: Les Presses de l’Université de Montréal, 2023.
O que é dado diretamente
I
1. Esclarecer o que se entende por “o que é dado diretamente” exige notar que ser dado é sempre ser dado a algo, aqui ao eu que pensa, de modo que o dado direto não é ainda o pensamento, mas a experiência que o precede.
2. Ser dado não significa aqui ser mero objeto hospedado em atos psicológicos do pensamento, mas ser dado para ser construído pelo pensamento construtor, razão pela qual o dado não remete a simples objetos de pensamento, coisas não reais, nem ao que esteve no passado ou estará no futuro, mas ao que é atualmente dado.
3. Pensar de imediato no mundo da realidade quando se fala do que é atualmente dado ao eu é enganoso, pois nesse mundo a consciência não se produz causalmente, e o “mundo da realidade” em sentido estrito é apenas algo construído pelo pensamento.
4. Sensação, percepção e intuição artística costumam ser tidas por dados diretos, mas os próprios psicólogos reconhecem que a sensação, como simples elemento ligado ao espírito, já é uma operação do pensamento.
5. A percepção deve ser considerada ao menos como consciência concreta dada ao pensamento, e, longe de reduzir-se, como pensam os psicólogos, a uma construção ou combinação de elementos sensíveis subjetivos, deve conter significado objetivo e objetos objetivos.
6. Na percepção ainda não há consciência conceitual do espaço nem conhecimento do espaço objetivo, e as coisas só são conhecidas claramente quando se tornam objetos de juízo, mas não é ao serem conhecidas conceitualmente que delas se tem consciência pela primeira vez, pois o conhecimento dos fatos constrói, sob forma de juízo, o que já está contido na percepção.
7. A objeção de que o conteúdo da percepção, como percepção conceitual, seria imanente e indistinto não autoriza tomar esse conteúdo em si como indistinto, pois, do ponto de vista da percepção, é antes o conceito que é uma sombra vaga dela.
8. Diferentemente do espaço matemático, o espaço físico deve construir conceitualmente o espaço contido na percepção, não havendo espaço objetivo separado do percebido, de modo que a verdade física não se estabelece sem que o objeto se reflita na percepção nem pode ser construída apenas pelo pensamento.
9. A percepção dotada de significado objetivo não é o conteúdo empírico determinado pelo espaço, pelo tempo e pelo indivíduo, pois assim determinada ela seria fenômeno de consciência criado artificialmente no plano psicológico, e não percepção no sentido de ser dada ao eu que pensa.
10. A percepção, que objetiva o si no mundo do espaço, do tempo e da causalidade e permite a interação entre eu e coisas, só é determinada por tempo, espaço e indivíduo se for mero fenômeno do si empírico produzido pela influência das coisas, e, tomada como consciência de qualidades secundárias, meditar sobre ela é ultrapassá-la rumo às qualidades primeiras e ao domínio dos objetos do pensamento, cujos atos são ao mesmo tempo atos do si e atos que conhecem o que lhe é exterior.
11. O pensamento admite diversos sentidos: como pensamento reflexivo, é simples ato de consciência reflexiva diante do qual a percepção é dado imediato, mas como pensamento construtor, no sentido kantiano, o mundo objetivo ou empírico já está construído em relação à consciência subjetiva, o que significa que também os fenômenos subjetivos de consciência já são construídos pelo pensamento.
12. Diante do pensamento construtor, a “percepção” é antes algo construído que dado, e o que lhe é dado deve anteceder a construção pelo conhecimento, como a “coisa em si” kantiana, que, porém, nem sequer poderia ser pensada como limite do conhecimento se não estivesse de algum modo contida na consciência, pois só num autodespertar (autoéveil) de alto grau se pode falar de limite, devendo o verdadeiro dado do pensamento construtor conter em si o conteúdo deste.
13. Supor que algo é dado ao ato de construção como simples matéria tornaria o dado contingente, com forma e matéria exteriores uma à outra e matéria inteiramente passiva, mas forma e matéria não carecem de relação, e não há matéria completamente passiva, pois o inteiramente passivo nem sequer poderia constituir-se como matéria.
14. A ideia artística, em particular, não se separa da matéria, pois as ideias do pintor não existem sem cores e formas nem a ideia musical sem sons, consistindo a ideia artística na unificação de forma e matéria.
15. O pensamento, como forma do conhecimento, constrói o conteúdo empírico não como simples matéria passiva, pois o mundo empírico se estabelece mediante as relações contidas na experiência dada diretamente, tendo os atos do pensamento construtor, nesse sentido, a qualidade de atos de formação artística.
16. Embora a física por vezes trate as qualidades sensíveis como subjetivas ou contingentes, o mundo físico se estabelece pela objetividade e apoditicidade da sensação, o que requer relações imutáveis entre as sensações, não situadas na esfera da consciência de um só indivíduo, mas comuns às sensações de todos.
17. É impossível comparar diretamente as sensações de pessoas distintas ou saber se o vermelho de uma não é o azul de outra, mas o mundo físico como realidade objetiva não se estabeleceria se as qualidades sensíveis se reduzissem a isso, devendo as diferenças ser explicadas fisiologicamente, admitido um mundo biológico único.
18. Mesmo que as qualidades sensíveis alheias e próprias não possam ser comparadas imediatamente, o mundo físico se estabelece quando se reconhece a continuidade objetiva da sensação, isto é, que todos geram sensações idênticas a partir de causas físicas idênticas, e falar de causas físicas não significa repetição de uma combinação sensível na consciência de um só indivíduo, mas algo presente em qualquer consciência.
19. O estabelecimento do mundo físico requer fundamento numa unidade de consciência transindividual, a unidade do eu puro, sendo as leis físicas relações imutáveis entre sensações vistas a partir dessa consciência, que, no entanto, não deve ser mera consciência lógica.
20. Como afirmou Kant, o princípio construtor do conhecimento empírico estabelece-se pela combinação das categorias com o tempo “esquemático”, e o simples pensamento formal não permite construir nem o mundo físico, cuja objetividade reside na continuidade interna da própria experiência, nem o mundo mecânico, fundado nos conceitos de tempo, espaço e movimento.
21. Também o pensamento se divide em pensamento objetivo, que constrói o domínio objetivo, e pensamento subjetivo como ato de consciência, que não são idênticos, devendo o objetivo ser criador e a unidade do eu puro que sintetiza categorias e tempo esquemático ser ato criador, pois um domínio objetivo independente não resulta da simples combinação de duas formas independentes.
22. A significação completa da apercepção pura de Kant deve ser buscada no conceito fichtiano de puro ato de autoposição, pois, embora o pensamento formal seja universal em relação ao construtor e tenha o conteúdo deste por simples matéria, deve estar contido no pensamento construtor para que o conteúdo deste se torne, como objeto objetivo, fim do pensamento subjetivo, e para que este, coincidindo com esse conteúdo, se torne verdadeiro.
23. Conhecer toda a verdade objetiva, isto é, o próprio ato de conhecer, consiste em passar de um a priori a uma posição mais elevada que o englobe, o “a priori do a priori”, relação que já existe entre pensamento construtor e pensamento reflexivo, embora o mundo físico propriamente dito não seja construído só pelo pensamento construtor.
24. O estabelecimento do mundo físico exige combinação com as sensações, possível apenas a partir da posição do autodespertar volitivo, sem a qual o conceito de força não se estabeleceria, e que consiste em ver o mundo empírico como desenvolvimento interno do conteúdo do pensamento, vendo esse conteúdo no fundo da própria experiência e ao mesmo tempo transcendendo-a.
25. À objeção de que, sendo o conteúdo do pensamento transensível, seus atos também o seriam, responde-se que são os objetos, e não os atos do pensamento, que transcendem a consciência atual sensível, consistindo o “eu penso” em incluir na consciência atual um conteúdo transatual, isto é, coisas não atuais e uma posição transatual, cujo ponto de combinação é a realidade.
26. Ao pensar, julga-se afastar-se da atualidade, mas não se abandona a sensação presente, de modo que os atos do pensamento requerem, em seu fundamento, o a priori da vontade em sentido amplo, e o pensamento, ao pensar a própria atualidade, deve ter por fim o conteúdo da vontade, sua origem, estabelecendo-se assim o domínio do “conhecimento empírico”.
27. Todos os fenômenos de consciência, sensação ou percepção, para os quais a imanência do objeto é essencial, estabelecem-se no a priori da vontade e correspondem ao mundo empírico inicialmente dado, dependendo imediatamente da experiência direta ou pura, mas, como projeções da vontade, não são dados ao eu volitivo quando a vontade desperta para si, e sim construídos, pois não é o eu que está na “consciência”, mas a consciência que está no eu.
28. Os “fenômenos de consciência” são em si absolutamente incompletos e prolongam-se sempre no mundo que, por trás deles, transcende a consciência, de modo que o eu, ao conhecer seu domínio de consciência, já o transcende, e conhecer o domínio objetivo, como refletir em si no autodespertar, é avançar para o mundo transconsciente, processo que consiste em pensar o conteúdo empírico.
29. Dizer “esta coisa é vermelha”, segundo a categoria de qualidade, significa que o vermelho visto agora é qualidade objetiva da coisa, que para isso não pode depender do pensamento subjetivo nem da vontade, devendo ser independente em si e ter causalmente algum fundamento objetivo, embora seja mero fenômeno interior à consciência.
30. Que o conteúdo da experiência tenha caráter objetivo significa que é em si contínuo, pois, embora a mera objetividade caiba à matemática e até à representação em si, a verdade factual, diferentemente da matemática, que é criação da razão com continuidade interna própria, exige uma continuidade independente adicional, inalcançável pelo pensamento.
31. Não há atos de pensamento sem sensação, que é, conforme o ponto de vista, objeto e também causa do pensamento, e, como o simples objeto não age, a sensação deve, como continuidade dotada de unidade interna, submeter-se ao pensamento construtor para possuir objetividade e constranger o conhecimento, sendo dada ao pensamento como exigência (Anspruch) e devendo ser uma continuidade que o transcende.
32. O conteúdo do pensamento contém, como universal, o particular, mas na realidade concreta é o universal que está contido no particular, como forma de suas relações ou meio de seu desenvolvimento, e o conceito de força e o mundo físico se constroem quando, a partir da continuidade interna do conteúdo empírico, se vê por trás da sensação uma continuidade interna infinita, o que permite admitir o domínio objetivo além da consciência subjetiva.
33. Pensar um conteúdo sensível como autoidentidade, segundo a categoria de identidade, é necessário porque a objetividade do mundo empírico se perderia se dependesse da liberdade humana, e, embora já construída pelo pensamento construtor, não pode fundar-se só nele, exigindo uma coerção por parte da sensação.
34. A autoidentidade é categoria do pensamento construtor que conhece a realidade e não se estabelece sem a experiência do autodespertar, sendo as categorias formas do autodespertar do eu puro, mas, quando a realidade objetiva é construída pela conformação do conteúdo empírico a essa categoria, deve haver uma unidade transcendental que englobe pensamento e sensação, a qual não é o simples “eu puro”, mas a vontade pura.
35. O si não se conhece verdadeiramente no autodespertar propriamente dito, pois o simples si intelectual ainda é objetivado, devendo o verdadeiro autodespertar ser a própria experiência da vontade livre, já que o eu verdadeiro não é o que conhece, mas o que age, e o conhecer, como ver, ouvir e pensar, são ações do eu, cuja unidade é o eu que age.
36. A unidade de pensamento e sensação estabelece-se a partir do eu que age, pelo qual o conteúdo sensível, conformado à categoria de identidade, é um contínuo, e, como o eu que age contém o eu que pensa, o que dele aparece deve conter as categorias do pensamento, sendo a autoidentidade da sensação a do eu que age, e a sensação, ao mesmo tempo irracional em relação ao pensamento e construtora da objetividade ao constrangê-lo.
37. Tudo o que aparece a partir do eu volitivo deve ser força, e a estranheza de que o mundo das forças seja construído pelo a priori da vontade decorre de se tomar a vontade como fenômeno subjetivo cuja liberdade seria ilusão, quando o domínio dos atos de consciência não provém apenas do domínio da verdade, e, assim como este é visto pelo pensamento transcendente, o mundo das forças é visto pela vontade transcendente.
38. As relações entre forma e conteúdo não são contingentes quando o mundo empírico é construído pelo pensamento construtor, cujo a priori deve ser a unidade interna de pensamento e sensação, razão pela qual se buscou identificar o ato criador dos artistas às qualidades desse pensamento, que já é criador, embora sem conter o conteúdo sensível, sendo o mundo empírico construído pelo pensamento a partir de dentro do conteúdo empírico.
39. Assim como os artistas descobrem o domínio das artes plásticas pela visão pura, descobre-se a experiência objetiva pelo pensamento construtor, e, como o artista plástico vê pelo olho associado à mão, a física vê pelos sentidos associados ao pensamento, estabelecendo-se ambos a partir da vontade quando esta engloba o pensamento na sensação, e o domínio dos objetos artísticos, tido por subjetivo, é, onde objetivo, insubstituível pelo domínio dos objetos de conhecimento e talvez ainda mais objetivo.
40. O que é dado diretamente ao pensamento construtor não é o domínio da “percepção”, mas o da intuição tal como os artistas a veem, o domínio dos objetos da vontade, de modo que construir pelo pensamento é descobrir o que já está nele contido e os atos de conhecimento são desenvolvimento desse dado, que forma um domínio objetivo superior, englobante e inalcançável pelos atos subjetivos.
41. Sendo cada a priori do conhecimento independente, nada seria dado objetivamente sem uma posição como o “a priori dos a priori”, que os unifica e da qual deve provir o fim objetivo do conhecimento, consistindo em construir um novo a priori pela unificação interna de forma e conteúdo, à maneira de um ato de criação artística, de modo que o conhecimento dotado de conteúdo se funda não no entendimento discursivo (diskursiver Verstand), mas no entendimento intuitivo (intuitiver Verstand).
42. A força ou vida que constrói exteriormente o mundo da natureza é intuída no si, e, embora o dado seja algo buscado, cada a priori é completo em si, de modo que a exigência de desenvolvimento do conhecimento deve provir do fim do próprio ato de conhecer, a partir do “a priori dos a priori”.
43. O pensamento matemático deve englobar o eu mesmo quando lhe é dado um problema a resolver, pois não haveria problema dado se o eu fosse a própria matemática, nem a matemática lhe seria dada se ele fosse mero fenômeno psicológico limitado por tempo e espaço.
44. É a partir do “a priori dos a priori” que se pode falar em ser buscado e ser dado infinitamente como exigência de objetividade do conhecimento, e nessa posição se estabelecem todos os fenômenos de consciência, que, por menores que sejam, contêm desenvolvimento infinito e são essencialmente criadores.
45. Contra as objeções à homogeneidade entre o dado objetivo do pensamento construtor e o conteúdo artístico, a posição da união sujeito/objeto, a do puro ato de autoposição, deve estar no fundamento do pensamento construtor para que este construa o domínio da experiência objetiva, e o que é dado a partir dela o é numa forma semelhante à intuição artística.
46. O que se estabelece como dado objetivo direto ao eu que pensa não é a percepção construída pelo pensamento, mas a intuição artística da união sujeito/objeto, não um mundo exterior oposto ao pensamento, mas algo que o engloba e contém o eu que pensa, isto é, uma “experiência direta” ou “experiência pura”, cujo conteúdo não pode ser determinado pelas categorias de tempo, espaço e indivíduo.
47. A consciência atual não acompanha apenas o domínio dos objetos cognitivos, mas imediatamente o mundo que transcende o conhecimento, flutuando de modo infinitamente profundo em algo vasto, e parece limitada apenas porque se toma por centro um si finito construído, em geral o si psicológico unido ao corpo, que não tem consciência, e mesmo purificado como unidade interna da consciência finita já é objetivado, si examinado e não o si que atualmente tem consciência.
48. O si que atualmente tem consciência jamais pode ser objeto de reflexão, e, embora possa tornar-se objeto projetado no passado, o eu verdadeiro é, no instante, infinito e livre, e sua totalidade não se converte depois em objeto de memória, cujo conteúdo é finito, enquanto o do sujeito que agia não o é, sendo o si agente irrepetível por ter conteúdo infinito e por ser de grau superior ao si objetivado.
49. À posição de um sujeito unificador por trás da consciência pode opor-se a dos defensores da “experiência pura”, para quem a experiência direta seria anterior à distinção sujeito/objeto e, naquele momento, finita, mas um conteúdo empírico só é visto como finito se determinado por alguma posição, e então já não é experiência direta.
50. Há quem julgue a experiência dada pelas formas do tempo e do espaço, que Kant tinha por formas da intuição, mas elas determinam a experiência direta apenas quando esta é vista como algo determinado, e o tempo que verdadeiramente a fornece é a “duração pura” de Bergson, que inclui, na experiência da atualidade dada, algo transtemporal.
51. Outros sustentam que, mesmo indeterminável por tempo e espaço, o conteúdo da experiência direta de que se tem consciência é finito em relação ao conteúdo infinito de que ainda não se tem consciência.
52. Pode-se, como os psicólogos, distinguir graus ou esferas da consciência, com o foco mais claro, a “franja” de James na periferia e, além dela, um mundo que não pertence à consciência, cujo conteúdo, em relação à esfera finita da consciência, é tido por infinito.
53. Surge então uma contradição difícil, pois comparar o interior e o exterior da consciência e tomar por finito aquilo de que se tem consciência exige que o si se apoie numa posição capaz de unificar e comparar ambos, podendo o eu conhecer, por um lado, apenas o interior da consciência e, por outro, também seu exterior.
54. Costuma-se conhecer o exterior da consciência pelo pensamento e tomar o interior da sensação por interior da consciência, mas, embora não haja consciência sem sensação, também o pensamento, como consciência, acompanha-se de alguma sensação, que lhe serve de conteúdo.
55. Os atos do pensamento não provêm da sensação, que do contrário nem poderia servir-lhe de conteúdo, sendo a sensação apenas uma determinação do conteúdo da consciência, de modo que não é a consciência que está na sensação, mas a sensação na consciência.
56. Pensar a consciência como algo determinado exige uma consciência que a determine, reduzindo-se interior e exterior à oposição entre aspecto determinante e determinado, e o que a determina não está fora dela, mas por trás da consciência propriamente dita, uma consciência que a engloba e determina, isto é, uma intuição equivalente à união sujeito/objeto e à atividade pura, a partir da qual a consciência propriamente dita se estabelece.
57. A verdadeira experiência imediata dada ou experiência pura contém conteúdo infinito, e quanto mais se mergulha nesse abismo mais se encontra a atualidade dada, que, subjetivamente, é o si inobjetivável e, objetivamente, o dado direto irredutível à reflexão, onde estão a intuição da união sujeito/objeto, a consciência da atividade pura e a origem de todo conhecimento.
58. O que é atualmente dado ao eu que age, ou a partir da união sujeito/objeto, não é o domínio da consciência propriamente dita, mas algo que, por trás dela, contém um mundo que a transcende, já objetivado pelo eu quando se apoia na posição do sujeito ou si agente, de modo que o dado verdadeiramente atual não está fora do que é dado a esse si, contendo tudo o que depois se lembra e se pensa.
59. Ao ver algo, crê-se ver apenas o que se manifesta no campo visual, mas o eu que apenas vê é um eu pensado, e o eu que vê desprendendo-se do eu que pensa e esquecendo-se deve estar combinado com o agir, como visão pura unida ao movimento expressivo.
60. Esse conteúdo visual deve ser transcognitivo, pois o eu que vê, tido como unidade de um conteúdo visual remanejável depois em conteúdo intelectual, é apenas sujeito pensado, e ao ver algo agora possui-se, como sujeito intelectual, um conteúdo intelectual e, ao mesmo tempo, como realidade dotada de espírito, apoio num fundo infinito e diversos domínios de objetos.
61. O eu não é determinado pelo tempo, mas o tempo pelo eu, pois um tempo sem conteúdo é mera coordenada, devendo o tempo verdadeiro ser pessoal.
II
1. O que é dado diretamente ao pensamento não é a sensação nem a percepção, construídas por ele, nem mesmo a esfera da consciência finita, e, embora a “experiência” apareça como dado ao pensamento entendido como mera reflexão, o que é dado ao pensamento construtor não é o “mundo empírico”, mas o domínio da intuição, a união sujeito/objeto.
2. Há quem tome o dado como domínio objetivo representado pela posição do “sim sem pergunta” (das fraglose Ja) de Rickert, mas a verdadeira posição da intuição, a união sujeito/objeto, posição da atividade empírica, deve englobá-la e não se opor a ela, pois a oposição sujeito/objeto se estabelece a partir da união, sem a qual não se teria consciência daquele “sim”.
3. Tem-se consciência da união sujeito/objeto porque nela conhecer e agir são concomitantes, e, como afirmou Fichte, agir é conhecer, prova dada pela consciência autodesperta, e essa posição contém um domínio de objetos infinitamente profundo, inanalisável em conteúdo intelectual por englobar a posição intelectual, permitindo entrar diretamente no domínio do conteúdo artístico sem passar por ela.
4. O dado torna-se conhecimento ao conformar-se à “categoria do dado”, que não é mera forma do pensamento, pois dizer que algo é vermelho ou azul exige uma intuição que ultrapassa o pensamento, de cuja objetividade e transcendência depende a própria categoria, cujo fim é corresponder ao conteúdo intuitivo.
5. O limite que se opõe ao pensamento não se estabelece só por ele, exigindo uma posição de grau superior que, mais do que superá-lo, o engloba e na qual ele também se estabelece, pois no fundamento de um vasto pensamento há uma vasta intuição.
6. Para esclarecer essa concepção de intuição diante das objeções, examina-se sua relação com a lembrança, pois costuma-se admitir que se recorda depois o que foi intuído e que até o desaparecido da consciência se conserva na memória e pode ser evocado muitas vezes, ato que deve ser incluído mesmo quando se diz construir pelo pensamento o conteúdo da experiência imediata.
7. Agostinho reconheceu à memória o significado mais profundo: “Ultrapassarei, pois, também esta faculdade da minha natureza, elevando-me por degraus até Aquele que me criou, e chego aos campos e vastos palácios da memória, onde estão os tesouros das inumeráveis imagens trazidas pelas percepções de toda espécie. Ali estão guardados todos os pensamentos que formamos, aumentando, diminuindo ou modificando de algum modo as aquisições dos sentidos, e tudo o que ali pudemos depositar e reservar, se o esquecimento ainda não o devorou e sepultou.”
8. Não se poderia recordar depois a “consciência da atualidade” nem organizá-la e unificá-la em diversas relações se não houvesse por trás dela algo transatual, pois, sendo a consciência intermitente, o que une consciência passada e presente não pode ser ele mesmo consciência no sentido usual, que não ultrapassaria o presente.
9. A consciência que recorda a passada e a compara com a presente deve ser transtemporal, supondo-se necessariamente uma consciência que intui o passado e, por isso, vê também o futuro.
10. À objeção de que também no fundamento dessa consciência haveria uma consciência sensível, ou de que a “consciência da consciência” seria a franja da consciência, responde-se que a consciência é sempre unitária e não há duas consciências distintas ao mesmo tempo.
11. Ao recordar o passado, a sensação despe-se de seu sentido e torna-se elemento construtor, e, avançando para o pensamento, as representações mnêmicas tornam-se matéria que o constrói, perdendo-se a independência de uma consciência quando outra se torna evidente, e, ao contrário do que se crê, a sensação não é o fundamento da consciência, pois a consciência concreta estabelece-se sempre sob forma impulsiva, isto é, como vontade em sentido amplo.
12. A consciência estabelece-se assim, pela primeira vez, por uma unidade interna e contém em si os objetos, transcendendo espaço e tempo como impulso ou vontade, pois não está no tempo, mas o tempo nela, sendo sua unidade ativa, o “tempo verdadeiro”, inobjetivável, e o autodespertar dessa unidade nada mais que a vontade.
13. A consciência do transtemporal está contida na consciência impulsiva, pela qual também se estabelece a consciência das forças físicas, imutáveis e perpétuas em relação ao tempo propriamente dito, que no impulso não apenas se tocam diretamente, mas se englobam, sendo o impulso, como as coisas, eternamente presente.
14. O presente, por um lado, já passou mesmo neste instante, mas, como diz James, é como o dorso de uma sela da qual se avistam as duas direções do tempo, não se reduzindo a um ponto de uma linha, pois a consciência que contém os objetos é dinâmica, possui conteúdo que nela não está englobado e inclui a totalidade nas partes.
15. O que se move deve orientar-se numa direção definida, construindo-se uma série unidimensional em que passado e futuro se opõem com o presente por centro, e o próprio tempo se estabelece porque a consciência contém, em seu presente, algo infinitamente profundo, como mostra uma concepção profunda de Agostinho.
16. “Não é usar termos próprios dizer: 'Há três tempos: o passado, o presente e o futuro.' Talvez fosse mais exato dizer: 'Há três tempos: o presente do passado, o presente do presente, o presente do futuro.' Pois esses três tempos existem em nosso espírito e não os vejo em outro lugar. O presente do passado é a memória; o presente do presente é a intuição direta; o presente do futuro é a espera.”
17. O passado já passou, o futuro ainda não chegou e o presente propriamente dito é ponto matemático inacessível, devendo o presente verdadeiro ser uma atividade que contém passado, presente e futuro, e a consciência concreta não ser simples intuição, mas conter memória e espera, sendo só a eternidade real e o presente apenas indício de seu abismo, inacessível e, ao mesmo tempo, morada contínua do eu.
18. A experiência concreta assemelha-se à “duração interna” de Bergson, que flui para o interior, e, quando essa experiência é refletida em objetos de conhecimento a partir da “consciência em geral”, o ponto de junção entre esse domínio de objetos e o tempo interno é o presente, consciência transcendente que, na direção exterior, é o sujeito cognoscente e, na interior, a vontade transcendente.
19. Como afirma Agostinho, o tempo é sempre pensado a partir do presente, mas conforme o conteúdo deste estabelecem-se tempos de toda espécie, e é esse curso do tempo que está por trás do eu quando se constroem e se veem domínios objetivos, fechado pela posição do sujeito cognoscente, autonegação da vontade, para ver o domínio dos objetos objetivos, e aberto para ver o domínio do curso da consciência, da duração interna.
20. Considerar o tempo como série infinita sem retorno revela relação com algo infinitamente profundo e irrefletível, a partir de cujo abismo se veem os atos subjetivos do si surgir e desaparecer no tempo, pois o sujeito intelectual não é ponto, mas linha, e, embora a consciência que transcende o tempo não possa ser pensada, quanto mais se penetra nesse abismo mais se transcendem o tempo e a disparidade entre si e outro.
21. Pergunta-se então como existia a consciência desta mesa durante o sono e sob que forma era objeto de consciência, respondendo-se que, como o fim de uma ação consciente atua do começo ao fim desenvolvendo-se e realizando-se, deve haver no fundamento do si algo desperto mesmo “enquanto se dorme”, se a consciência só se estabelece pela unidade.
22. A consciência em geral é sempre o presente, e dela depende saber que há um intervalo entre a consciência anterior e a posterior, sendo a unidade teleológica, fundamento do si e essência da unidade da consciência, não algo passado, mas sempre atuante, que visa a atualidade ultrapassando-a e deve combinar-se a um fundamento infinito, pois, se fosse completa ao manifestar-se, a consciência já não teria fim.
23. O si é apenas ponto de combinação na direção desse curso infinito, como o conhecimento, absolutamente inacabado e progressão infinita, que se apoia na “vontade de verdade” ao pensar uma verdade, vontade que transcende o tempo e é sempre presente.
24. No sujeito intelectual há tempo em que não se pensa, mas nunca se escapa do sujeito volitivo, e o tempo de não consciência só existe por se tomar a posição do sujeito intelectual, pois o si continua a desenvolver-se mesmo sem consciência, fundando-se nisso a convicção de que a mesa continuou a existir durante a noite, hipótese talvez, mas inevitável, pois já se apoia nela quem assim se exprime.
25. Não há fenômenos de consciência separados da sensação, mas tampouco existe mera consciência da sensação, pois na consciência concreta o infinito está no fundo da sensação, que é processo de autodeterminação do infinito e pode ser absolutamente determinada, comportando sempre uma destinação, e esse infinito estende-se do passado eterno ao futuro eterno num ato ininterrupto, em que as forças físicas atuam sem cessar.
26. Os psicólogos tomam a esfera da consciência por finita e rejeitam as pequenas percepções como hipóteses, mas as percepções e os pensamentos de ontem seguem diretamente os de hoje, parecendo separados apenas por serem pensados de fora, sendo hipotética justamente a matéria posta para ligá-los, e a “esfera” ou o “nível” de consciência dos psicólogos é apenas o que pode depois ser objeto de reflexão, e, ainda que não pudesse sê-lo, permitiria inferir que a consciência existe.
27. O fundamento da consciência não se esgota desse modo, pois o que entra no domínio dos objetos intelectuais já está objetivado, e por trás dele há algo que existe agindo eternamente, um presente eterno e abismo absolutamente profundo, que, tornado objeto de reflexão, aparece ora como instinto, ora como forças físicas, e, alcançada verdadeiramente a posição sem tempo, a sombra do instinto ou das forças físicas vista na consciência de si desvanece e torna-se intuição da união sujeito/objeto.
28. O conteúdo que aparece na intuição não é o da simples “sensação”, mas sempre o da experiência concreta, conteúdo da consciência de si total que contém todas as posições, na qual já está incluído tudo o que depois pode ser lembrado ou pensado e a partir da qual isso se desenvolve.
29. Platão afirmou que, estando o espírito no curso do espírito eterno, todo conhecimento é lembrança do domínio das ideias, e Agostinho sustentou que não havia tempo antes da criação e que também o tempo foi criado por Deus, sendo a partir dessa posição que se constroem a história pessoal e a história objetiva.
30. Crê-se intuir apenas o presente, mas recordar o passado é intuí-lo, assim como no pensamento se intui a verdade eterna ultrapassando o tempo, conservando-se a verdade no domínio do dever-ser, onde os fatos passados se guardam como verdades e por isso podem ser lembrados muitas vezes.
31. O que se repete na memória não é a sensação, mas o que está por trás dela, e lembrar depois significa que o contido nessa posição transensível se desenvolve, sendo o conteúdo da memória não mero pensamento, mas conhecimento de fatos que já participa do a priori da vontade e que, mais que repetido, é construído à medida que se penetra no abismo do si.
32. Que a memória se conserve significa que ela se intui, e os atos de consciência, tidos por exteriores aos objetos de pensamento, estão incluídos no conteúdo da memória e se examinam, de modo que, como os historiadores constroem a história passada, o que ocorreu antes é construído pelo conhecer.
33. Não se sabe onde começa o tempo, ordenando-se o antes e o depois a partir de um ponto do presente de modo unidimensional, linha que é tempo quando irrepetível, e a irrepetibilidade só é concebível em relação ao si, que é irrepetível por ser união de sujeito e objeto, em que o si que conhece é a coisa conhecida, sendo repetível quando sujeito e objeto se separam e se vê um mundo de objetos exterior.