Masao Abe

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1921/1992.

MASAO ABE — Introdução

1. As pessoas no Ocidente às vezes perguntam se há filosofia no Japão, e esta pergunta não é surpreendente, pois embora os ocidentais tenham chegado a saber bastante sobre a arte, literatura, economia e tecnologia japonesas, seu conhecimento da história intelectual do Japão ainda é escasso.

2. A resposta dos intelectuais japoneses à afirmação de Nakae foi mista, e em minha visão a resposta à questão da filosofia no Japão depende de como se define o termo filosofia.

3. O problema, no entanto, não é tão simples, pois no Ocidente filosofia e religião ocupam duas arenas diferentes: enquanto a filosofia é um empreendimento humano envolvendo o intelecto e a razão, a religião é uma questão de fé e prática à luz da revelação.

4. Na Índia, China e Japão, por outro lado, filosofia e religião são originalmente indiferenciadas e inseparáveis, e a verdade no conhecimento não é outra coisa que a verdade na prática e vice-versa.

5. Esta diferença básica entre as tradições ocidental e oriental encontra expressão nas reações dos pensadores japoneses à filosofia ocidental quando esta foi introduzida pela primeira vez no Japão na década de 1860, após um período de três séculos de isolamento do resto do mundo.

6. Nesta época, como afirma Torataro Shimomura, o espírito oriental e a autoconsciência nacional como reação contra a europeização passaram a ser enfatizados, e os pensadores dirigiram sua atenção para problemas sob lemas como a unidade do pensamento oriental e ocidental e o rolamento de todas as coisas em uma.

7. Uma Investigação sobre o Bem (1911) é o primeiro fruto do esforço de Kitaro Nishida para responder à necessidade deste tipo de síntese, e a tentativa exigiu dele confrontar diferenças culturais no pensamento.

8. O pensamento filosófico em culturas como a China e o Japão não requer necessariamente argumentos demonstrativos e expressão verbal precisa, e a comunicação do pensamento é frequentemente indireta, sugestiva e simbólica em vez de descritiva e precisa.

9. Como, então, Nishida se esforçou para criar uma síntese filosófica Oriente-Ocidente? As duas citações seguintes mostram claramente sua intenção e direção básicas, sendo a primeira do prefácio de seu livro Do Ator ao Vidente (1927).

10. Destas citações podemos extrair os três pontos seguintes como indicativos da atitude filosófica básica de Nishida.

11. Para esclarecer o significado de Uma Investigação sobre o Bem na história da filosofia, considerarei tanto a relação entre Zen e filosofia em Uma Investigação sobre o Bem quanto o significado filosófico do livro em sua situação contemporânea diante do pensamento ocidental.

12. As pessoas frequentemente dizem que a Investigação sobre o Bem de Nishida é baseada em sua experiência zen, mas a situação real não é tão simples.

13. Esta transformação tem dois aspectos: primeiro, a prática da filosofia requer uma expressão lógica da experiência zen que rompa com o caráter transintelectual do Zen; ao mesmo tempo, a prática zen requer que a filosofia seja transformada rompendo com sua racionalidade intelectual a fim de despertar para a realidade última viva.

14. Uma Investigação sobre o Bem tem uma significação filosófica única em relação ao estado do pensamento ocidental no momento de sua escrita.

15. Foi neste contexto histórico da filosofia que Nishida escreveu Uma Investigação sobre o Bem, e no prefácio ele afirma que por muitos anos quis explicar todas as coisas com base na experiência pura como a única realidade.

16. Por que Nishida estava insatisfeito com as expressões filosóficas ocidentais da experiência pura? Como indicado pelas muitas referências a Wundt e James em Uma Investigação sobre o Bem, Nishida era simpático às suas ideias, mas em seus escritos ele as critica.

17. Através desta crítica, Nishida reapreendeu a experiência pura de Wundt e James e deslocou a base da metafísica da especulação para a factualidade, e do Zen recebeu a intuição que se tornou o poder formativo neste novo ponto de vista filosófico.

18. Diagrama 1: experiência existe porque há um indivíduo.

19. Mas em sua forma real a experiência não é tal que primeiro o self existe e então ele experiencia algo como um objeto, mas antes o self também é experienciado.

20. Diagrama 2: um indivíduo existe porque há experiência.

21. Como afirmado antes, a metafísica ocidental transcendeu o reino empírico a fim de encontrar um princípio universal e assim se afastou da experiência, mas há outro modo de transcender o reino da experiência empírica, ou ordinária.

22. A experiência pura no sentido de Nishida tem ao menos as três características seguintes.

23. Uma Investigação sobre o Bem consiste em quatro partes, e após examinar as características da experiência pura (parte I), Nishida discute a realidade última do universo (parte II), a personalidade humana e o bem (parte III), e a religião, especialmente o problema de Deus (parte IV).

24. Na parte II Nishida enfatiza que o problema da realidade última não é meramente uma questão teórica mas está intimamente relacionado às exigências práticas da moralidade e da religião.

25. Nishida discute o problema da ética, especialmente a conduta humana, a liberdade da vontade, o bem e a personalidade, na parte III.

26. Com este ângulo sobre a personalidade, Nishida sustenta que o propósito do bem não é nem obedecer às leis formais da moralidade como em Kant nem buscar o prazer como no hedonismo, mas cumprir a própria natureza mais profunda, realizar a própria personalidade.

27. No início da parte IV, Religião, Nishida escreve que a exigência religiosa é uma exigência que concerne ao self como um todo, à vida do self.

28. A exigência religiosa é assim a exigência mais profunda pela unidade última do self e do universo, e para Nishida, Deus nada mais é que a base desta unidade última.

29. Nishida rejeita tanto o teísmo quanto o panteísmo e avança um tipo de panenteísmo.

30. Deus, como a base da unidade do universo, é discutido por Nishida não da perspectiva da metafísica especulativa mas como um fato da experiência pura.

31. Uma Investigação sobre o Bem deixa uma série de problemas que devem ser resolvidos a fim de dar uma expressão filosófica mais clara ao ponto de vista da experiência pura.

32. No entanto Nishida não especifica como fato e significado são idênticos na experiência pura e como a oposição entre fato e significado surge da experiência pura.

33. Após Uma Investigação sobre o Bem, a tarefa de Nishida era superar este tom de psicologismo e esclarecer filosoficamente que o que jazia profundo em seu pensamento não era algo que é meramente psicológico.

34. Nishida tentou esta tarefa em sua segunda grande obra, Intuição e Reflexão na Autoconsciência, que ele chamou em seu prefácio de um documento de uma luta e batalha desesperadas.

35. No final de Intuição e Reflexão na Autoconsciência Nishida expõe a noção de vontade livre absoluta, que é o culminar da autoconsciência.

36. Nishida em Ao Reajustar o Tipo descreve o desenvolvimento de seu pensamento do ponto de vista da experiência pura para o da vontade livre absoluta e além: em Intuição e Reflexão na Autoconsciência, através da mediação do Tathandlung de Fichte, desenvolvi o ponto de vista da experiência pura no ponto de vista da vontade absoluta.

37. Como Nishida desenvolveu o ponto de vista da autoconsciência no ponto de vista do basho, lugar? Com a noção de lugar Nishida passou do voluntarismo para uma espécie de intuicionismo.

38. Nishida não parou sua investigação com esta intuição mística porque ele persistentemente se esforçou para adotar uma abordagem filosófica ao problema da realidade última.

39. Como escrevi em outro lugar, Nishida estava convencido de que para o indivíduo como sujeito gramatical, visto por Aristóteles como Substância, ser conhecido, deve existir aquilo que o envolve, o lugar no qual ele jaz, e que este lugar no qual o indivíduo jaz deve ser buscado no plano dos predicados transcendentes, não na direção do sujeito lógico.

40. Esta fundação lógica para a realidade última é formulada em termos da lógica do lugar ou da lógica do nada absoluto, que não está aparte da diretidade da vida e no entanto é totalmente metafísica e lógica.

41. Após se aposentar em 1928 da Universidade de Kioto, onde havia servido como professor de filosofia desde 1913, Nishida começou a escrever mais e publicou muitos livros, incluindo Ippansha no jikakuteki taikei (O sistema autoconsciente do universal, 1930), Mu no jikakuteki genkei (A determinação autoconsciente do nada, 1932), Tetsugaku no konponmondai (Os problemas fundamentais da filosofia, 2 vols., 1933-34), e Tetsugaku ronbunshu (Uma coleção de ensaios filosóficos, 7 vols., 1935-46).

42. O trabalho inicial de Nishida sobre a teoria da experiência pura havia sido largamente preocupado com a consciência individual em termos da realidade última; mesmo quando havia discutido o mundo e o universo, ele os havia apreendido da perspectiva do indivíduo.

43. A maioria dos filósofos começa com a oposição sujeito-objeto e vê o objeto do sujeito, isto é, eles apreendem o mundo do ponto de vista do self.

44. A preocupação persistente de Nishida em adotar uma abordagem filosófica ao problema da realidade última está inseparavelmente conectada com um profundo interesse religioso.

45. Dado o trabalho filosófico de Nishida após Uma Investigação sobre o Bem, podemos argumentar que toda sua filosofia é um desenvolvimento e aprofundamento de sua noção inicial de experiência pura.

46. A teoria da experiência pura estabeleceu uma fundação num sentido mais amplo também.

47. Neste contexto não podemos ignorar uma crítica séria à filosofia de Nishida por Hajime Tanabe (1885-1962), seu sucessor na Universidade de Kioto.

48. A próxima geração de filósofos, sob a orientação de Kitaro Nishida e Hajime Tanabe, desenvolveu as filosofias de seus mestres em várias arenas filosóficas e veio a ser conhecida como a escola de filosofia de Kioto.