14 Deus

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

Deus como Realidade

1. Natureza e espírito não são duas espécies inteiramente diversas de realidade, mas modos distintos de considerar uma mesma realidade, pois quem compreende profundamente a natureza discerne em sua base uma unidade espiritual, e o espírito verdadeiro e completo une-se à natureza, existindo no universo uma só realidade, ao mesmo tempo oposição e conflito infinitos e unidade infinita, atividade infinita independente e autorrealizada cuja base se chama Deus, que não transcende a realidade, mas é seu fundamento, dissolvendo a distinção entre subjetividade e objetividade e unindo espírito e natureza.

2. Em todas as épocas e culturas há uma palavra para “Deus”, interpretada de modos diversos segundo o nível de conhecimento e a variedade de exigências, e a concepção da maioria dos religiosos, de um grande ser humano exterior ao universo que o governa, é extremamente infantil, conflita com o saber atual e, no plano religioso, não permite união íntima de coração, sem que isso autorize, com os cientistas intransigentes, a tomar a matéria como única realidade e a força material como base do universo.

3. Desde longa data tenta-se provar a existência de Deus por diversos argumentos, alguns fundados no conhecimento, que buscam determinar suas qualidades, e outros nas exigências morais, inteiramente separadas do conhecimento.

4. Esses argumentos não provam a existência de Deus, pois o causal permite perguntar pela causa de Deus e, se Deus não tem começo nem fim e existe sem causa, o mesmo poderia ser dito do mundo, e o teleológico exigiria provar que as coisas do universo foram de fato criadas com propósito, o que é extremamente difícil e tornaria a existência de Deus incerta, objeto de crença para uns e não para outros, e ainda que provado, o mundo poderia ter surgido por acaso e ter, contudo, uma finalidade.

5. A tentativa de provar Deus pelas exigências morais é ainda mais fraca, pois, embora a crença num Deus onisciente e onipotente que sustente a moral dê grande força no plano moral e tenha impacto valioso sobre a conduta, não prova que Deus exista, podendo até ser vista como mero expediente.

6. As teorias mencionadas buscam provar Deus indiretamente, de fora, sem demonstrá-lo imediatamente na experiência direta do eu, na qual se verifica sua existência, pois uma força infinita se oculta mesmo no pequeno peito limitado pelo tempo e pelo espaço, estando latente a força unificadora infinita da realidade.

7. Buscado nos fatos do mundo externo, Deus é inevitavelmente hipotético, e um Deus posto fora do universo como criador ou supervisor não pode ser verdadeiro e absolutamente infinito, sendo o conhecimento mais profundo de Deus o da antiga religião indiana e do misticismo europeu dos séculos XV e XVI, que o buscaram na intuição realizada na alma interior.

8. Da perspectiva de pensadores como Nicolau de Cusa, Deus é pura negação, pois o que pode ser afirmado ou apreendido já é finito e incapaz da atividade infinita de unificar o universo, sendo Deus, nesse sentido, nada absoluto, mas não mero nada, pois uma atividade unificadora imóvel opera claramente na base do estabelecimento da realidade.

9. Assim como a matemática profunda nada ensina a quem não compreende seus princípios e a pintura sublime não comove quem não tem sensibilidade para a beleza, a existência de Deus é tida por fantasia ou por destituída de sentido pelos medíocres e superficiais, devendo quem deseja conhecer o verdadeiro Deus disciplinar-se e prover-se de olhos capazes de conhecê-lo, pois a esses o poder de Deus atua no universo como o espírito do pintor numa grande pintura e é sentido como fato da experiência direta, que é o próprio ver Deus.

10. Deus, base da unidade do universo, não é existência filosófica fria alheia aos sentimentos calorosos, pois, surgindo os desejos da busca de uma unidade maior e produzindo alegria sua conquista, o amor de si é apenas essa exigência de unidade, e o espírito infinito, insatisfeito com a unidade do eu individual, busca uma unidade maior, um grande eu que envolva a si e aos outros, manifestando simpatia e buscando concordância com eles.