STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.
Ser e tempo: Uma retomada da questão fundamental da metafísica
1. Compreender uma obra importante da Filosofia ocidental exige situá-la em seu contexto histórico e reconhecer seu poder inovador diante de uma questão clássica, sendo esse o caso da retomada heideggeriana da questão fundamental da Filosofia.
2. A obra publicada compõe-se apenas de duas seções sistematicamente elaboradas, restando inédita a questão central do sentido do ser.
3. A interrogação heideggeriana nasce evolutivamente, como confluência entre o conhecimento da Filosofia clássica e o manejo dos recursos da fenomenologia, renovando ontologia, questão transcendental, Antropologia e fenomenologia por meio da analítica existencial e da nova interpretação da temporalidade, o que explica o grande impacto da obra sobre a Filosofia existencial e o existencialismo do século 20.
4. Ser e tempo funciona como uma espécie de destino biográfico do filósofo, na medida em que toda a obra posterior passa a explicitar suas questões ou a mostrar consequências para interpretações futuras.
5. Ser e tempo nasce na escola husserliana da fenomenologia transcendental e se transforma em fenomenologia hermenêutica, marcando a diferença entre Husserl e Heidegger.
6. O afastamento de Heidegger do projeto de Husserl não decorre apenas de características psicológicas, mas da competição do aluno com o mestre sob a angústia da influência, conforme a noção de Harold Bloom, produzindo conhecimento novo.
7. A importância de Ser e tempo na história da Filosofia pode ser descrita pela noção de ecumenismo, uma vez que nenhum autor clássico é mitificado.
8. Heidegger revela-se como grande leitor e intérprete que pratica a violência da interpretação (Gewaltsamkeit der Interpretation), transformando Ser e tempo no livro fundador da Filosofia hermenêutica.
9. A ideia de compreensão do ser reformula o modo como a metafísica tratava o problema do ser, que deixa de ser Ideia, substância, ipsum esse, cogito ergo sum ou saber absoluto.
10. O ecumenismo heideggeriano evidencia-se no modo como o filósofo não toma partido entre seus principais interlocutores — Aristóteles e Kant, de um lado, São Paulo, Agostinho, os místicos medievais, Hölderlin, Trakl e Nietzsche, de outro —, buscando neles o não dito do acontecer da história do ser.
11. A tarefa anunciada de uma desconstrução da história da ontologia (Destruktion der Geschichte der Ontologie), mesmo sem a segunda parte da obra, implica uma interpretação de Aristóteles, Descartes e Kant.
12. Ser e tempo percorre as obras posteriores na medida em que estas representam uma sucessão de etapas marcadas pelos princípios epocais dos principais filósofos.
13. Ser e tempo está na raiz desses princípios epocais, constituindo ondas metafísicas que percorrem a cultura ocidental segundo uma espécie de teoria dos ciclos.
14. A gramática filosófica de Ser e tempo, como aprendizagem do primado ôntico-ontológico do ser, situa-se no início de uma problematização esquecida, retomada posteriormente na dedicação de Heidegger aos pré-socráticos.
15. A extensão das mudanças trazidas por Ser e tempo evidencia-se na noção de superação da metafísica (Überwindung der Metaphysik).
16. A aquisição de uma taxa de aprendizagem da Filosofia, pela qual esta se reconhece como tarefa humana, manifesta-se nos parágrafos 43 e 44, dedicados à relação entre Dasein, mundaneidade, realidade e verdade.
17. No parágrafo 43, a realidade é tratada como problema do ser, respondendo a Kant que o escândalo da Filosofia não está em não se ter encontrado ainda uma ponte entre consciência e mundo, mas em segui-la ainda procurando, superando o dualismo metafísico pelo conceito de ser-no-mundo (In-der-Welt-sein).
18. No parágrafo 44, sobre Dasein, abertura e verdade, afirma-se que o Dasein está na verdade em sentido ontológico, fazendo parte de sua constituição existencial a abertura de seu ser mais próprio.
19. Mesmo diante da vasta influência exercida sobre a Filosofia existencial e o existencialismo por meio da analítica existencial, Ser e tempo atinge a totalidade da Filosofia ocidental, inaugurando por si só um novo paradigma filosófico.
O NOVO. Uma inovação para além dos mestres da suspeita: um caminho histórico para Ser e tempo
20. A compreensão da revolução paradigmática trazida pela analítica existencial requer analisar antes as mudanças na concepção de ser humano e de conhecimento em autores marcantes da segunda metade do século 19.
21. A distinção entre ontológico e ôntico, entre existenciais e categorias, precisou ser inventada por Heidegger, uma vez que esse tipo de diferenciação não existia antes no sentido heideggeriano, opondo-se a setenta anos de correntes filosóficas que tatearam mudanças na Filosofia.
22. A morte de Hegel em 1831 e as três afirmações fundamentais dos mestres da suspeita, Darwin, Marx e Freud, levantaram problemas filosóficos sobre o homem e a história antes impensáveis, marcando o fim das filosofias sistemáticas ou ontoteológicas.
23. Marx levanta a questão dos determinismos materiais que afetam a ideia de um ser humano sobreposto às questões econômico-sociais.
24. Freud descobre que o reprimido retorna como sintoma, revelando que a liberdade dos atos humanos é frequentemente diminuída por aspectos compulsivos e por processos psíquicos inconscientes.
25. O fim da Filosofia sistemática e a diminuição do status do ser humano nos níveis biológico, de subsistência e de autorrepresentação trazem mudanças fundamentais na concepção de homem.
26. A Escola Histórica Alemã, desde Droysen, Dilthey e Herman Nohl, tenta substituir o projeto epistêmico kantiano da razão pura por um projeto epistêmico da razão histórica.
27. A Escola Histórica esboça um projeto epistêmico centrado na passagem para o histórico no conhecimento, uma vez que os projetos absolutos e sistemáticos haviam chegado ao fim.
28. A questão da Escola Histórica antecipa, no século 20, o conflito entre as ciências positivas e as ciências históricas.
29. A proposta da Escola Histórica recebe forte influência da tradição hermenêutica anterior a Dilthey, especialmente de Schleiermacher, pela qual a hermenêutica toma o lugar da dialética na Filosofia.
30. A afirmação nietzschiana de que não há verdade, mas apenas interpretação, antecipa a crítica adorniana de que a verdade é o não-todo, contrapondo-se à tese hegeliana de que a verdade é o todo, restando o acesso à verdade apenas pela interpretação.
31. As quatro intuições fundamentais de Darwin, Marx, Freud e Nietzsche, mestres da suspeita, marcam o final do século 20 e sugerem a existência, por trás de cada uma delas, de um paradigma filosófico determinante.
32. A busca de um elemento novo diante do paradigma da representação, da subjetividade e da relação sujeito-objeto conduz a identificar em Marx, nos Grundrisse, um paradigma do mundo prático ligado à práxis e à interpretação.
33. A desmontagem do psiquismo em superego, ego e id não nega o eu, mas o reduz a mais uma instância entre outras.
34. Nietzsche introduz um quarto elemento, representando um novo paradigma para colocar o problema filosófico após a morte dos sistemas e a superação da pretensão de totalidade.
35. Os quatro autores, Darwin, Marx, Freud e Nietzsche, buscam pensar o ser humano pela exacerbação de algum aspecto biológico, uma vez rejeitado o ontológico em favor do conceito de vida ligado à origem ou à evolução da vida.
36. A vida em Dilthey difere da vida em Darwin, Marx, Freud e Nietzsche, passando a representar uma transcendentalidade fraca marcada fundamentalmente pelo elemento da História.
37. O elemento da História mostra-se fundamental em todos os quatro mestres da suspeita, sendo introduzido pela Escola Histórica junto ao conceito de vida, que perde sua teleologia natural aristotélica.
38. Nos anos 20, Heidegger propõe substituir a vida pelo Dasein (Dasein), sem descartar as conquistas anteriores, mas também sem consagrar o conceito de vitalismo presente em Nietzsche e, de modo mais nítido, em Dilthey.
39. O cerne da questão fora abordado por Husserl nas Investigações lógicas, propondo uma genealogia da lógica fundada não na Psicologia, mas na própria Lógica, projeto também presente em Hans Lipps na Lógica hermenêutica.
40. O interpretar em Nietzsche e o compreender em Dilthey constituem dois conceitos de acesso não à verdade ontologicamente dada, mas a um sentido que precede o ôntico.
41. A distinção entre ôntico e ontológico, não mais de caráter descritivo da realidade, mas de descrição fenomenológica de um modo de aparecer, exige situar onde esse aparecer se dá, isto é, num compreender ligado ao Dasein.
42. A introdução do espaço da diferença ontológica se sobrepõe aos esforços dos antropólogos e epistemólogos dos anos 20 na busca do elemento característico do ser humano.
43. O novo caminho aberto para a Filosofia salva radicalmente o pensamento do século 20 dos riscos do naturalismo, do vitalismo e do biologismo, por meio da diferença ontológica, que guarda da tradição kantiana não o conteúdo, mas a forma transcendental.
44. A apresentação de uma Antropologia dogmática sob a forma de Antropologia existencial oferece as condições dadas para qualquer interpretação do ser humano, sob risco de recaída em naturalismo, teleologia, vitalismo ou biologismo caso não sejam consideradas essas condições existenciais e transcendentais.