STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.
A hermenêutica. O núcleo da diferença entre Husserl e Heidegger
1. O confronto entre Husserl e Heidegger, entre fenomenologia transcendental e fenomenologia hermenêutica, coloca em questão o que ainda é Filosofia, já que grande parte do que hoje recebe esse nome consiste em trabalhos sobre certos conceitos sem estarem alimentados por uma concepção própria do que é Filosofia.
2. Uma aproximação exterior ao confronto entre Platão e Aristóteles, entendido como gigantomaquia tes ousias (guerra de gigantes sobre a substância, sobre o ser), ilumina o mesmo problema subjacente às concordâncias, discordâncias e críticas recíprocas entre Husserl e Heidegger.
3. A ideia de uma guerra de gigantes remete ao fato de ambos terem dedicado a vida a fazer Filosofia, abordando a questão da fenomenologia e explicitando, no debate, suas posições próprias, que culminam na fenomenologia transcendental e na fenomenologia hermenêutica.
4. O embate fenomenológico entre os dois filósofos revela-se mais significativo na direção de conquistar e estabelecer um conceito de Filosofia do que na simples reivindicação de razão para cada posição, de modo que tanto Husserl quanto Heidegger, mesmo errando, realizaram algo grande.
5. A tarefa de repensar o que propriamente é Filosofia permanece atual após a crise das neofilosofias e das grandes filosofias do século 19, sem que isso diminua a grandeza comparável dos debates do idealismo alemão entre Fichte, Hegel e Schelling.
6. Nos últimos vinte e cinco anos dispõe-se das opiniões recíprocas entre os dois filósofos, incluindo a leitura husserliana de Ser e tempo (Sein und Zeit) e de Kant e o Problema da Metafísica, com anotações marginais feitas entre 1928 e 1930.
7. A reação imediata de Husserl a Ser e tempo não encontra correspondência em uma reação equivalente de Heidegger a Husserl, tendo este último desenvolvido, ao longo de vários semestres, sua própria concepção de fenomenologia e de Filosofia sem ficar preso a um texto husserliano específico, o que talvez explique por que Heidegger, tendo a última palavra, apareça como vencedor, sem que se possa afirmar com segurança a existência de um vencedor em debate filosófico.
8. O verbete sobre fenomenologia escrito por Husserl para a Enciclopédia Britânica, cuja versão foi submetida a Heidegger para opinião e sugestões de redação, testemunha a fraterna colaboração entre ambos.
9. Os aspectos discordantes não aparecem em seu inteiro teor, pois Heidegger manteve a segunda parte do verbete, sobre Psicologia Pura e Fenomenologia Transcendental, conforme o original de Husserl, acrescentando porém uma carta com observações decisivas sobre um elemento central não apanhado por Husserl, revelando entre 1925 e 1928 tanto discordâncias importantes quanto diálogo efetivo.
10. As observações de Heidegger recaem não apenas sobre o texto, mas sobre a coisa mesma, sendo a mais importante delas relativa ao conceito de mundo (Welt).
11. Heidegger afirma que a concepção de Filosofia e de fenomenologia se distingue ou se aproxima conforme a justificação do conceito de mundo em cada filósofo, sendo revolucionário na fenomenologia o tratamento transcendental desse conceito.
12. Heidegger questiona se a constituição transcendental de mundo exige necessariamente o recuo ao Eu transcendental, à consciência e à representação, propondo antes descobri-la em um ente do mesmo nível do próprio conceito de mundo.
13. Sustenta-se que o ser do Dasein (Sein des Daseins) difere totalmente do ser dos outros entes, de modo que, sendo sua constituição completamente distinta, é nele mesmo que se encontra o acontecer transcendental, tornando desnecessária a operação husserliana de colocar o mundo entre parênteses.
14. A partir da constituição existencial do Dasein, tudo passa a poder ser visto em plano transcendental, de modo que os elementos unilaterais do corpo e da Psicologia pura, nos quais Husserl insistia, só se tornam possíveis sobre a base de uma integralidade concreta do homem determinada primariamente em seu modo de ser.
15. O elemento constituinte da dimensão transcendental de que fala Husserl configura-se como algo, portanto como um ente, ainda que já pensado de maneira transcendental e não no sentido positivo das ciências.
16. O ponto fraco de Husserl residia exatamente na questão de que a redução aos polos noético e noemático do Eu transcendental, para constituir o conhecimento sujeito-objeto, ocorre necessariamente em algum lugar, esse lugar sendo o ser humano concreto enraizado num mundo vivido (Lebenswelt).
17. O grande problema atingia o projeto fundamental de Husserl de construir um sistema acabado, no qual toda relação com o mundo seria constituída transcendentalmente nos polos da consciência até alcançar a síntese absoluta.
18. Ao conter o mundo o conceito de transcendentalidade a partir do Dasein, Dasein e mundo remetem a elementos históricos e culturais não redutíveis transcendentalmente, levando Husserl a escrever A crise das ciências europeias e a retomar a questão do mundo vivido.
19. Husserl e Heidegger reconheciam um abismo entre Filosofia e Ciência, que deveria ser preservado para salvar ambas, na medida em que a Ciência opera ingenuamente sobre a positividade, enquanto a Filosofia já a faz passar por uma dimensão transcendental.
20. Ao buscar preservar a dimensão transcendental kantiana sem cair no dualismo entre fenômeno e coisa em si, Husserl tenta levar seu projeto a um sistema que não se conclui, dada a impossibilidade de recuperar o mundo vivido, confrontando-se então com o problema da compreensão do ser.
21. O espaço fenomenológico de caráter transcendental não se dá no sentido das teorias da representação e da consciência, mas no sentido de que, desde que somos, compreendemo-nos e compreendemos o ser, dispensando a busca de identidade final num sistema.
22. Em Ser e tempo abordam-se duas dimensões descritas como modos de ser, existenciais do ser-aí: o universo da afecção (Befindlichkeit), de passividade e receptividade, e o mundo da compreensão (Verstehen), de espontaneidade e atividade.
23. Não há motivo para construir um espaço vazio onde o sentido se constitua, já que este acontece no próprio espaço da relação entre afecção e compreensão e dos existenciais que dela surgem, a saber, faticidade, existência e decaída.
24. Não se deve compreender essa diferença como vitória de Heidegger sobre Husserl, pois a fenomenologia hermenêutica desiste tanto da ideia de sistema absoluto quanto da recuperação transcendental do mundo vivido, aceitando a faticidade (Faktizität) como algo do qual nunca se pode recuar totalmente, sem cair, porém, no impasse husserliano de um sistema absoluto.
25. Pode-se afirmar que o projeto husserliano fracassou e o heideggeriano foi exitoso, ainda que ambos não visassem à mesma coisa, de modo que os problemas levantados por Husserl permanecem vivos, tal como no idealismo alemão que perseguia intento semelhante.
26. Resolve-se aí um problema essencial, o problema do ser, na medida em que o conceito de ser, visto numa semântica absoluta, tenderia a significar também o ente absoluto, enquanto o modo prático de ser-no-mundo vincula-se a uma pragmática que renuncia desde sempre a essa pretensão de absolutidade.
27. O modo como Heidegger pensa a questão do ser não exige a ideia de um ser absoluto, ao contrário de Husserl, que busca esse ser absoluto ao fim da última redução, pois para Heidegger o ser depende da compreensão, isto é, do Dasein e das condições temporais da historicidade (Geschichtlichkeit).
28. Preserva-se, em Heidegger, a questão transcendental e a questão do ser como conquistas irrenunciáveis desde Kant, não sendo o ser uma propriedade de algo, mas um operar que se dá simplesmente na compreensão, conforme a afirmação de que a finitude humana exige o conceito de ser para pensar.