Delírio

STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.

O delírio. O oculto (Das Verborgene): uma enigmática preocupação de Heidegger numa correspondência de 1945

1. Flagrar um filósofo numa situação extrema não constitui bom modo de fazer Filosofia nem de compreender seu pensamento, mas explorar um quadro de ameaça e angústia em que ele continua a se ocupar da Filosofia pode revelar os limites e as preocupações de um ser humano acuado, tal como se manifesta na intimidade das cartas de Heidegger a sua mulher no último ano da guerra.

2. As cartas nascem de várias coincidências, entre elas a separação quase constante do casal, o hábito epistolar do filósofo, o conhecimento de vias alternativas de correspondência, o registro simultâneo de ansiedades familiares e de trabalho teórico, ligado este à obra de uma vida concentrada no pensamento.

3. O fim da guerra e os meses seguintes transformam essas cartas em memória absolutamente única, testemunho silencioso de quem se tornara conhecido por um livro, mas guardava mais sessenta volumes em manuscritos.

4. O filósofo em situação extrema era Heidegger, mundialmente conhecido por sua Filosofia, execrado por dez meses de reitorado no núcleo do regime nazista e por manifestações políticas entre 1934 e 1935, em conflito crescente com o nazismo oficial, obrigado desde 1936 a tolerar um agente do regime em sala de aula, decepcionado com a expectativa de uma nova universidade alemã, refugiado em Todtnauberg, com os filhos incorporados à guerra, temeroso de convocação, preocupado em salvar seus manuscritos da destruição e incerto quanto a seu próprio futuro aos cinquenta e seis anos.

5. Desse panorama recorta-se tema restrito e central revelado nas cartas do fim da guerra, apresentando-se primeiro o que nelas é dito, deixando a interpretação para outro momento, ainda que esta se imponha.

I

6. Poupado da incorporação pela idade, Heidegger prossegue seu trabalho universitário e a escritura e revisão de manuscritos em Messkirch ou Todtnauberg, tendo produzido no início dos anos 40 Parmênides e Heráclito, período que marca o fim de sua grande atividade filosófica e acadêmica e o fim da pátria destruída pela guerra.

7. As cartas para Elfride, editadas pela neta Gertrud Heidegger, constituem o documento mais impressionante de suas confidências sobre a atividade filosófica, tendo o tema central sempre o esforço de continuar pensando e de salvar os manuscritos, escondidos ao final em dois baús de ferro numa gruta nas gargantas do Alto Danúbio junto aos manuscritos de Hölderlin.

8. Além das preocupações com a família e breves observações sobre a guerra como fenômeno humano, permanece a pergunta sobre por que o filósofo escrevia tantas cartas em vez de refugiar-se junto da família em Freiburg, ainda que a casa estivesse cheia de refugiados.

9. Os manuscritos permaneciam em Messkirch por serem ali datilografados pelo irmão do filósofo e por haver menos risco de bombardeios e maior facilidade de ocultação, não se afastando o filósofo desse material para escrever, comparar e revisar o que produzira nas décadas de 20 e 30.

10. A leitura das cartas sugere que a Floresta Negra e seus arredores se tornaram o campo de batalha do filósofo, que se deslocava constantemente para se recolher, fugir dos acontecimentos, evitar bombardeios e, por fim, unir-se ao destino de seus manuscritos.

11. Essa inquietude física e interior conduziria o filósofo, em fevereiro de 1946, ao esgotamento total e à internação no sanatório de Badenweiler, após a audiência de desnazificação, tendo sido efetivamente convocado em novembro de 1944 para escavação de trincheiras nas margens do Reno antes de ser liberado por dispensa das autoridades.

12. Numa carta de 30 de dezembro de 1944, escrita de Messkirch após deslocamento de bicicleta, o filósofo relata dificuldades em retomar a elaboração de sua preleção e a indefinição quanto à distribuição dos manuscritos ainda não transcritos.

13. Diante do desembarque aliado na Normandia e da ameaça de convocação, uma carta de 5 de dezembro de 1943 revela a convicção do filósofo de que, num tempo voltado à utilidade, ao sucesso e ao poder, cumpre dar atenção à essência própria das coisas (Wesen), protegendo invisivelmente o essencial (Wesenhafte) como eco da origem (Ursprung) à qual tudo regressa.

14. Numa carta de 14 de agosto de 1944, escrita da casa de sua amante, a princesa Margot von Sachsen-Meiningen, o filósofo afirma não poder existir sem o pensar, preparando-se para retornar a partir de uma clara meditação (Besinnung) concentrada no simples (Einfache), comparando-se numa nota a Kant na redação da Crítica da Razão Pura e questionando se restaria ainda espaço para o pensar após a guerra.

15. Configura-se assim um filósofo que não apenas cuida de sua obra, mas quer preservá-la para as novas gerações, movido por uma espécie de missão de salvar o escrito e pensar o novo num tempo que levara a Europa à destruição pela técnica e pela vontade de dominação, como se tudo houvesse acontecido por não se ter pensado o essencial, o simples.

16. Da guerra o filósofo pouco fala diretamente, notando-se contenção nas palavras ao lado de desmedida pretensão pessoal, consumindo-se numa agitação sobre-humana em torno de uma tarefa vivida como destino e missão.

17. Manifesta-se uma estranha transformação do filósofo, que via em sua obra algo enigmático e real, oculto, mas destinado a aparecer para a salvação da humanidade ao fim da guerra, expressa numa carta de 15 de março de 1946, escrita em Badenweiler durante a recuperação do esgotamento.

18. Causa espanto ouvir de um filósofo essas passagens que, pretendendo mostrar a realidade, talvez configurem antes a moldura adequada para compreender o que surge, no final de 1945, como o enigma do oculto (das Verborgene).

19. Numa carta de 17 de fevereiro de 1945, Heidegger afirma que o que então acontece no planeta oculta um acontecimento essencial (Ereignis) ainda não visível nem dizível, exigindo permanência insistente, pelo pensar, junto ao oculto (dem Verborgenen), sem forçá-lo, reconhecendo que essa insistência-resistência ultrapassa a capacidade de um único ser humano.

20. Distancia-se aqui o uso dos derivados de verbergen — velar, ocultar, encobrir, Verborgenheit, Unverborgenheit — próprios da época da analítica existencial, passando o oculto a designar agora o que está por vir e promete a salvação não apenas do horror da guerra, mas da condição que a todas as guerras conduz, restando ao filósofo apenas a certeza de não ter, sozinho, capacidade de insistir e resistir até sua vinda.

21. Talvez se compreenda, a partir disso, por que os manuscritos precisavam ser salvos e por que o filósofo se destruiu quase até o delírio para salvar a obra e perecer pensando.

22. Numa última carta, de 2 de fevereiro de 1945, o filósofo confessa assustar-se ao meditar sobre o longo caminho percorrido e sobre o destino da jovem geração, reconhecendo a fragilidade das comparações históricas com a Grécia ou o helenismo em declínio, mas afirmando crer que restarão caminhos desconhecidos da tradição e de um novo despertar, no qual a linguagem despertaria como morada para um novo habitar.