Compreender

STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.

O compreender. Verstehen: Entender ou compreender? A questão de uma dupla estrutura na Filosofia

I

1. Encontrar um ponto de partida para a Filosofia sem recorrer a fundamentos clássicos como a Ideia platônica, a substância aristotélica, Deus em Tomás de Aquino, o Eu penso kantiano, o saber absoluto hegeliano ou a vontade de poder nietzschiana constitui questão central da Filosofia do século 20, situada na era do relativismo.

2. A Escola Histórica Alemã pensou a vida e a compreensão como elemento universal, mas esse conceito terminou diluído sem consistência suficiente, contrastando com a afirmação heideggeriana de que, enquanto compreendemos, compreendemos o ser, e, ao compreender o ser, compreendemos a nós mesmos.

3. Dessa dupla compreensão constitui-se a ontologia fundamental (Fundamentalontologie), um fundamento que ao mesmo tempo nos funda e é por nós fundado, configurando uma circularidade hermenêutica, e não lógica.

4. O ser humano deve ser descrito enquanto abertura, ser-no-mundo enquanto possibilidade, brotando dessa circularidade o fundamento hermenêutico, um fundamento sem fundo, que constitui a ontologia fundamental na qual se tornam possíveis todas as outras ontologias.

5. A tendência da Filosofia contemporânea em dissolver o guarda-chuva filosófico limitador conduz ao relativismo, no qual a metafísica, antes elemento abrangente sob o qual se reuniam todas as ontologias, é hoje objeto de superação, sem que isso signifique renunciar à busca de unidade, conforme a afirmação de que a superação da metafísica não é o fim da metafísica.

II

6. Podem-se distinguir dois tipos de guarda-chuva filosófico: a ontologia fundamental proposta por Heidegger, ligada à compreensão do ser e fundada na analítica existencial, e a antropologia filosófica, da qual viria a unidade de todos os campos da Filosofia.

7. O problema esclarece-se pela tradução do verbo alemão Verstehen, que pode significar tanto entender quanto compreender, orientando-se respectivamente para a metafísica dos enunciados e para a metafísica da compreensão.

8. Tomado como entender, o Verstehen designa a capacidade humana de entender palavras, frases e comportamentos por meio do logos, constituindo o ser humano como aquele que se comunica e entende os outros pela palavra, fundamento de uma espécie de antropologia.

9. Tugendhat, em Antropologia em lugar de metafísica, propõe a antropologia como guarda-chuva filosófico a partir do entender, permanecendo em aberto se essa antropologia do entender possui radicalidade suficiente para abranger todo modo de ser do ser humano.

10. Traduzida a palavra Verstehen por compreender, surge a questão essencial de compreender o quê, uma vez que o compreender não se aplica a objetos simples como uma cadeira, abrindo um espaço distinto do entender e exercendo função antecipadora sempre pressuposta onde se entende.

III

11. O entender não pode constituir estrutura de ser do ser humano, pois, quando Aristóteles define o homem como o ser que fala, descreve-se apenas uma qualidade, não uma estrutura, tornando suspeita a pretensão de fazer do entender fundamento de uma antropologia filosófica.

12. A ideia de ser acompanha o operar com enunciados, constituindo uma dupla estrutura em unidade, sem a qual o enunciado não encontraria limite, caindo em regressão infinita de enunciados sobre enunciados.

13. A Filosofia analítica pura não seria propriamente Filosofia, pois esta nasce e morre com a presença ou ausência do a priori, seja ele entendido no sentido metafísico tradicional, seja como o próprio compreender-se no mundo e compreender o ser.

14. Tugendhat liga o antropológico ao entender, enquanto o compreender vincula-se à ontologia fundamental, denominada por Heidegger analítica existencial, análise das estruturas prévias a priori das condições de possibilidade do discurso.

15. O compreender define-se como antecipar de sentido, ancorado pelo sentimento de situação (Befindlichkeit), ligado ao falar, ao mundo e às estruturas de significação, constituindo a ontologia fundamental as condições de possibilidade dos enunciados, e não do conhecimento dos objetos.

16. Os enunciados do puro entender produzem-se em contexto lógico fechado ou no nível apofântico afirmativo ou negativo, subjacendo a eles o fato de não haver sinonímia perfeita entre palavras, o que impede que a referência traga a explicação última das razões de nomear um objeto.

17. A inescrutabilidade da referência evidencia-se no exemplo de uma frase como “o sino é de bronze”, cuja análise por outra frase equivalente conduziria a regresso infinito, exigindo o recurso a um elemento a priori que constitua o limite do discurso, tal como a proposição wittgensteiniana de que o mundo é o limite da linguagem.

18. O exemplo wittgensteiniano das moscas na redoma de vidro ilustra a necessidade de uma estrutura prévia compartilhada, um a priori comum, para que os enunciados de diferentes falantes possam se aproximar ou se unir.

IV

19. A impossibilidade de dizer as mesmas coisas com outras palavras, isto é, a impossibilidade de sinonímia perfeita, impede que a análise se encerre por si mesma, exigindo outro modo de alcançar o limite organizador, sempre dependente da pré-compreensão, elemento a priori denominado hermenêutico.

20. A ontologia fundamental e a analítica existencial movimentam-se no nível em que nos pressupomos ao enunciar algo, separando-nos dos objetos pelo modo como somos pela linguagem, referidos a nós mesmos num modo prático de compreensão.

21. A lógica tem razão ao considerar o enunciado a maior conquista do ser humano, pois sem o domínio da sintaxe seríamos pobres em mundo, pressupondo-se, contudo, para fazer enunciados, o elemento a priori da dupla estrutura hermenêutica.

22. Traduzir Verstehen por entender ou por compreender introduz diferença fundamental: o entender move-se no nível raso do enunciado, próprio da analítica da linguagem, enquanto o compreender liga-se à estrutura profunda da linguagem que torna o enunciado possível.

23. O compreender está ligado a um modo de ser do homem, que se torna possível enquanto compreende a si mesmo como sendo e tendo de ser, compreendendo assim o ser, dando-se essa compreensão como a priori num mundo, conforme a afirmação de que a finitude humana exige o conceito de ser para pensar.

24. O trabalho com a linguagem encontra seus limites no modo como nos compreendemos enquanto somos e nos assumimos como tendo de ser sempre no mundo, sendo este não o mundo raso identificado por Wittgenstein com o que é o caso, mas antecipação de sentido no qual o ser humano é formador de mundo, de modo que a analítica do entender necessita sempre da hermenêutica do compreender.